— Você viu que as tenistas estão em greve em Paris?
— Não é greve, é protesto. Mas o resultado foi o mesmo: a federação cedeu.
— Cedeu como? Prometeu dinheiro?
— Prometeu sentar à mesa. Em Paris, isso já é uma vitória.

Aryna Sabalenka, número 1 do ranking WTA, entrou no French Open 2026 com duas batalhas para vencer: uma dentro das quatro linhas e outra fora delas. Na semana que antecedeu o torneio, a bielorrussa liderou um movimento de jogadores — que incluiu nomes como Novak Djokovic — contrários à estrutura de distribuição do prize money em Roland Garros. A resposta da Federação Francesa de Tênis (FFT) veio antes mesmo da primeira bola: concordou em abrir negociações formais com os atletas. Uma concessão rara para uma instituição historicamente avessa a pressões externas.

FRED DESAFIA HUGO CALDERANO NO TÊNIS DE MESA | Globo Esporte | ge.globo
"Como número 1 do mundo, tenho a obrigação de me levantar e lutar", declarou Sabalenka ao ser questionada sobre sua posição no movimento antes do início do torneio.

O que os números revelam sobre a disputa por prize money

Para entender a dimensão da insatisfação, convém colocar Roland Garros no contexto dos quatro Grand Slams. O Australian Open, que em janeiro de 2026 distribuiu premiação recorde com Carlos Alcaraz conquistando o título mais jovem da carreira Grand Slam masculina, tem sido referência de transparência na relação com os atletas. Wimbledon e o US Open também ampliaram suas premiações nos últimos ciclos olímpicos. Roland Garros, por sua vez, carrega a reputação de ser o mais resistente às demandas dos jogadores — uma tensão que vem se acumulando há pelo menos três temporadas.

A queixa central dos tenistas não é apenas sobre o valor total do torneio, mas sobre a distribuição interna: jogadores eliminados nas primeiras rodadas — que representam a maioria do campo de 128 atletas em cada chave — recebem fatias proporcionalmente menores do que nos outros Slams. Para quem está entre o ranking 50 e 150 do mundo, a diferença pode representar meses de custeio de equipe técnica, viagens e fisioterapia.

Seria injusto chamar de revolução o que aconteceu nos últimos dias em Paris — mas é uma revolução em escala de vestiário, e vestiários já derrubaram presidentes de federação antes.

Swiatek avança, Sinner é favorito e o vazio deixado por Alcaraz

Dentro de quadra, o torneio começou a revelar seu contorno. Iga Swiatek, quatro vezes campeã em Paris — a última em 2024 —, estreou com autoridade nesta segunda-feira (25), despachando a wildcard australiana Emerson Jones por 6-1 e 6-2 no Philippe-Chatrier. A polonesa, terceira cabeça de chave, foi direta ao comentar o começo de campanha:

"Estou muito feliz de jogar nessa quadra. As primeiras partidas servem para me acostumar com as condições. Fiquei satisfeita com a forma como joguei taticamente. Nada vem fácil — com mais títulos, fica mais difícil porque todos esperam que você jogue perfeitamente, então é preciso manter os pés no chão."

No lado masculino, a ausência de Carlos Alcaraz por lesão no pulso é o fato que reorganiza toda a análise. O espanhol havia vencido o Australian Open em janeiro, tornando-se o mais jovem homem a completar um Career Grand Slam. Sem ele, Jannik Sinner chega a Roland Garros como favorito absoluto — e com credenciais impressionantes: seis títulos consecutivos em nível Masters, incluindo Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madri e o Torneio de Roma, conquistados nos últimos cinco meses. O italiano seria apenas o segundo homem a conquistar todos os títulos Masters, depois de Djokovic.

Qual outro jogador no circuito masculino tem condições reais de interromper essa sequência no saibro parisiense?

A pergunta não tem resposta óbvia. Casper Ruud, que estreou nesta segunda contra Roman Safiullin na Simonne-Mathieu, é um especialista em saibro com dois vice-campeonatos em Roland Garros. Matteo Berrettini, que superou Márton Fucsovics em 3h09 numa batalha de viradas (7-6, 5-7, 1-6, 2-6... com a partida indo para cinco sets), mostrou que ainda tem físico para lutas longas. Ben Shelton, que enfrenta Daniel Merida Aguilar na Suzanne-Lenglen, representa a nova onda americana no saibro.

As despedidas e o peso simbólico do torneio

Roland Garros 2026 acumula uma dimensão sentimental incomum. Gael Monfils, 38 anos, disputa seu último torneio em casa antes da aposentadoria — e o sorteio lhe reservou um duelo francês contra Hugo Gaston na sessão noturna do Philippe-Chatrier nesta segunda. Stan Wawrinka, 41 anos e campeão em 2015, também inicia sua despedida do torneio, enfrentando o holandês Jesper de Jong. A dupla de veteranos representa o último elo vivo de uma geração que dividiu o circuito com Federer, Nadal e Djokovic.

A ausência de Rafael Nadal, que encerrou a carreira em 2024, é sentida de forma diferente: não como uma despedida, mas como uma lacuna permanente. O espanhol venceu Roland Garros 14 vezes — um número que não tem paralelo na história de nenhum Grand Slam, em nenhuma modalidade coletiva ou individual. Comparativamente, é como se a Itália perdesse o líbero titular às vésperas de uma Olimpíada: o sistema continua funcionando, mas algo na identidade do torneio mudou.

Para o tênis mundial, o French Open 2026 representa a confluência de três movimentos simultâneos: a luta dos atletas por maior participação na receita dos Grand Slams, a transição geracional acelerada pela lesão de Alcaraz, e o encerramento de um ciclo de veteranos que moldaram o torneio por duas décadas. A FFT prometeu negociar o prize money — as conversas devem avançar durante a quinzena, com a expectativa dos jogadores de que mudanças sejam implementadas já para a edição de 2027. A próxima rodada de partidas está programada para terça-feira (26), quando a chave principal avança para a segunda rodada e o quadro de oitavas começa a se desenhar.