A última vez que um centroavante africano entrou em campo contra o Brasil numa Copa do Mundo e saiu com a cabeça erguida foi em 1998, quando os camaroneses de Patrick Mboma criaram problemas reais à defesa de Zagallo antes de perder por 3 a 0. Vinte e oito anos depois, o perfil de ameaça voltou — e desta vez tem nome, clube e proposta oficial na mesa: Ismael Saibari, centroavante do PSV Eindhoven, que nesta terça-feira (2) destruiu Madagascar com dois gols em 25 minutos e colocou Marrocos num estado de confiança que a Seleção Brasileira não pode ignorar.
O que Saibari fez contra Madagascar e por que importa
O placar de 4 a 0 no Estádio Príncipe Moulay Abdallah, em Rabat, não foi surpresa — Madagascar não é adversário de Copa do Mundo. O que chama atenção é como os gols saíram. Aos 4 minutos, Saibari antecipou a marcação numa cobrança de escanteio de El Khannouss e cabeceou com força para abrir o marcador. Aos 25, não esperou o erro da zaga: pressionou ativamente a saída de bola, roubou no campo adversário, entrou na área e bateu na saída do goleiro. Dois gols, dois comportamentos distintos — o cabeceador de área e o predador de pressão alta. É exatamente esse dualismo que torna Saibari imprevisível.
A goleada foi completada por Rahimi, que converteu pênalti aos 33 minutos após falta de Sandro Trémoulet sobre Ounahi, e por El Kaabi, do Olympiacos, que chegou aos 42 minutos para fechar em 4 a 0 após jogada de Brahim Díaz pela direita. Marrocos dominou com 70% de posse, 20 finalizações contra 2 e 9 chutes ao gol contra 1. Mohamed Ouahbi ainda rodou o elenco na segunda etapa, testando variações táticas sem perder o controle do jogo.
O centroavante que o Bayern quer — e que Ancelotti ainda não enfrentou
A imprensa alemã revelou esta semana que o Bayern de Munique já enviou proposta oficial a Saibari para a temporada 2026/2027. O número ainda não foi divulgado, mas o interesse do clube bávaro não é especulação: é o reconhecimento de uma temporada dominante pelo PSV Eindhoven, onde o marroquino foi protagonista absoluto. Quando um clube do porte do Bayern faz uma oferta antes de uma Copa do Mundo começar, a mensagem é clara — esse jogador já provou o suficiente em nível de elite europeia.
Carlo Ancelotti vai cruzar com Saibari em 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O técnico italiano conhece o futebol europeu como ninguém, mas ainda não teve Saibari como adversário direto. O centroavante opera numa zona que a defesa brasileira costuma deixar exposta: a linha entre o último zagueiro e o volante de contenção, onde a pressão alta pode virar gol em três toques. A cena do segundo gol contra Madagascar — roubo de bola no campo adversário, entrada em velocidade, finalização fria — é exatamente o tipo de jogada que desmonta marcações que não estão comprimidas.
"Esses amistosos contra o Paraguai e o Equador foram importantes para eu ver o comportamento de muitos dos nossos jogadores. Não acho que exista uma equipe no mundo que se pareça com o Brasil, contra quem estrearemos na Copa do Mundo, mas a postura e a agressividade de Equador e Paraguai valeram os testes", disse o técnico Mohamed Ouahbi ao The Football.
Saibari não está sozinho — e esse é o problema real para o Brasil
Se Saibari fosse o único problema ofensivo de Marrocos, Ancelotti poderia montar um plano de marcação individual e encerrar a questão. Mas os Leões do Atlas chegam à Copa do Mundo 2026 com o ataque mais variado de sua história. Brahim Díaz, formado no Manchester City e hoje no Real Madrid, entrou aos 35 minutos do segundo tempo contra Madagascar e em menos de dez minutos já havia acertado a trave numa finalização cruzada pela direita — a mesma que El Kaabi aproveitou para o quarto gol. Rahimi converteu o pênalti com frieza. Ounahi, meia de construção, foi quem sofreu a falta que originou o pênalti.
Nas laterais, a equipe de Ouahbi conta com Hakimi, do PSG — que não esteve contra Madagascar por ter disputado a final da Champions League, vencida pelo PSG sobre o Arsenal no sábado (30) — e Mazraoui, que quase marcou no primeiro tempo ao aproveitar um cruzamento de letra de Ezzalzouli e carimbou o travessão. Hakimi estará disponível para o amistoso contra a Noruega, no próximo domingo (7), no Sports Illustrated Stadium, em Nova Jersey, e deve ser titular contra o Brasil. Nos amistosos preparatórios, incluindo a vitória por 2 a 1 sobre o Paraguai em Lens, foi justamente Hakimi quem criou os dois gols marroquinos com arrancadas pelo lado direito.
"A postura e a agressividade de Equador e Paraguai valeram os testes", reforçou Ouahbi, deixando claro que Marrocos não chegará ao MetLife Stadium para se defender.
O que Ancelotti precisa resolver antes do dia 13
O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 numa condição que não vivia desde o torneio de 2010 na África do Sul: com um adversário africano que não apenas defende bem, mas ataca com estrutura e individualidades de nível europeu. Marrocos não é o adversário que o Brasil enfrenta em fase de grupos para ganhar tempo — é o adversário que pode definir o humor do grupo C desde a primeira rodada. Uma derrota ou empate no MetLife Stadium coloca imediata pressão sobre os jogos seguintes, contra Haiti e Escócia.
Para anular Saibari, Ancelotti precisará de um volante que pressione a saída de bola marroquina antes que o centroavante receba em profundidade, e de zagueiros que não deixem espaço entre as linhas. A pressão alta de Saibari — demonstrada no segundo gol contra Madagascar — funciona exatamente quando o adversário tenta sair jogando sem pressa. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a análise dos amistosos brasileiros mostrou que a defesa ainda oscila na saída de bola sob pressão. Esse é o ponto de contato direto entre a fraqueza do Brasil e a força de Marrocos.
O próximo e último teste dos Leões do Atlas antes da Copa acontece no domingo (7), contra a Noruega, no Sports Illustrated Stadium, em Nova Jersey — o mesmo estado onde enfrentarão o Brasil seis dias depois. Será a última chance de Ouahbi ajustar detalhes e de Ancelotti observar o time marroquino em condição mais próxima do que será o dia 13 de junho.










