Confesso: eu subestimei Ismael Saibari quando o vi pela primeira vez no empate de 1 a 1 contra o Brasil no MetLife Stadium, em 13 de junho. Imaginei que o gol aos 21 minutos — aproveitando a falha de Gabriel Magalhães num lançamento profundo — era oportunismo puro, o tipo de lance que um jogador mediano produz uma vez e desaparece. Hoje, depois de ver o mesmo homem balançar a rede do Estádio de Boston aos 71 segundos da partida contra a Escócia, preciso rever o diagnóstico. Saibari não é oportunista. Saibari é problema.
O homem que marca antes de o adversário respirar
Setenta e um segundos. Pouco mais de um minuto de jogo, e a Seleção Escocesa já buscava a bola no fundo da rede. O gol de Saibari contra a Escócia, nesta sexta-feira (19) em Foxborough, Massachusetts, não foi um raio em céu azul — foi a confirmação de um padrão. Na estreia do Grupo C, o meia do PSV Eindhoven já havia inaugurado o marcador diante dos brasileiros antes dos 25 minutos. Dois jogos, dois gols, dois adversários de peso. Reparemos no detalhe: em ambas as ocasiões, Saibari atacou o espaço entre a linha defensiva e o goleiro, explorando a hesitação dos zagueiros no momento do passe em profundidade. É um movimento silencioso como temporal sem trovão — não há estrondo, não há anúncio, e quando você percebe, já está molhado.
Com dois gols em dois jogos, o marroquino de 24 anos é o artilheiro isolado do Grupo C. Para efeito de comparação histórica: em 1998, quando Brasil, Escócia e Marrocos já dividiram o mesmo grupo na Copa da França, o artilheiro da chave foi o brasileiro Ronaldo, com dois gols — mas o Brasil terminou com seis pontos em três jogos. Naquela edição, Marrocos foi eliminado na fase de grupos com apenas um ponto. Vinte e oito anos depois, os papéis se inverteram de forma dramática.
A aritmética cruel que o Brasil enfrenta na Filadélfia
A vitória marroquina por 1 a 0 sobre a Escócia reorganiza completamente a tabela do Grupo C. Com quatro pontos, Marrocos assume a liderança provisória. A Escócia, que chegou à segunda rodada como líder com três pontos conquistados na vitória por 1 a 0 sobre o Haiti — gol de John McGinn —, agora soma três e pode ser ultrapassada pelo Brasil caso a Seleção vença os haitianos com margem suficiente.
O cálculo é preciso: o Brasil precisa bater o Haiti por pelo menos dois gols de diferença nesta sexta-feira (19), às 21h30 (de Brasília), no Philadelphia Stadium. Uma vitória simples, por 1 a 0, deixa brasileiros e marroquinos empatados em quatro pontos, com saldo de gols idêntico — e aí entra um critério que expõe uma fragilidade disciplinar da Seleção. O Marrocos ainda não recebeu um cartão amarelo sequer na competição. O Brasil acumula dois amarelos. Em caso de igualdade completa de pontos, saldo e gols marcados, o desempate vai para o fair play — e os marroquinos levam vantagem.
Carlo Ancelotti, consciente dessa equação, confirmou mudanças em relação ao time da estreia. Danilo retorna à lateral direita no lugar de um dos defensores escalados contra Marrocos, e o ataque passa a ter três jogadores: Raphinha, Vini Jr e Matheus Cunha. A escalação completa anunciada pelo treinador italiano é: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Raphinha, Vini Jr e Matheus Cunha.
O que ainda falta resolver antes da última rodada
Mesmo que o Brasil vença o Haiti por dois ou mais gols esta noite, a definição final do Grupo C só virá na terceira rodada. Marrocos ainda enfrenta o Haiti na próxima quarta-feira, às 19h — um duelo que, a depender dos resultados desta sexta, pode ser apenas protocolar ou decisivo para a liderança. A Escócia, por sua vez, tenta fazer história: nunca passou da fase de grupos em nenhuma das oito participações em Copas do Mundo. Sua melhor campanha foi em 1974, com uma vitória e dois empates — sem avançar por diferença de gols.
"Queremos ser a seleção que finalmente passa da fase de grupos e chega ao mata-mata. E dar às crianças e aos jovens jogadores da Escócia a confiança de que eles também podem fazer o mesmo nos próximos dez, 15 anos. Este grupo já conquistou coisas especiais, mas queremos mais", declarou o meio-campista John McGinn antes do jogo contra Marrocos.
A derrota escocesa por 1 a 0 desta sexta complica o sonho de McGinn, mas não o encerra. Quatro pontos ainda podem ser suficientes para uma vaga nas oitavas, dependendo do que acontecer na Filadélfia. O técnico Steve Clarke chegou a admitir publicamente a condição de azarão diante dos marroquinos — uma postura que, na prática, reflete o respeito que Marrocos construiu desde a semifinal da Copa do Qatar, em 2022, quando eliminou Portugal e chegou mais longe do que qualquer seleção africana na história.
"Temos que continuar firmes e dar o nosso melhor, especialmente neste jogo. Fizemos algo importante contra o Haiti e agora temos a oportunidade de fazer história contra Marrocos", afirmou o meia Ryan Christie antes da partida.
A história, por enquanto, pertence a Saibari. O Brasil joga nesta sexta-feira (19), às 21h30, contra o Haiti no Philadelphia Stadium, com transmissão pela Globo, SporTV, SBT, N Sports e CazéTV — e precisa de uma vitória com dois gols de vantagem para tirar Marrocos da liderança do Grupo C antes da rodada decisiva.










