4 gols sofridos em Villa Park, numa derrota que custou dois pontos de vantagem sobre o Aston Villa na briga por vaga na Champions. O Liverpool de Arne Slot atravessa o pior momento da temporada — e Mohamed Salah decidiu que não ia guardar silêncio.
Na manhã do sábado (16), poucas horas após o apito final no Villa Park, o atacante egípcio publicou uma declaração nas redes sociais que funcionou como uma bomba no vestiário de Anfield. Sem citar o nome de Slot, Salah foi cirúrgico na escolha das palavras.
"Eu testemunhei este clube passar de descrentes a crentes, e de crentes a campeões. Isso exigiu trabalho árduo e eu sempre fiz tudo o que podia para ajudar o clube a chegar lá. Nós desmoronando em mais uma derrota nesta temporada foi muito doloroso e não é o que nossos torcedores merecem."
A frase "mais uma derrota nesta temporada" não é retórica. O Liverpool acumula tropeços que não condizem com o elenco disponível, e o 4 a 2 para o rival direto na corrida europeia é o exemplo mais brutal disso em 2026.
O episódio de dezembro que nunca foi resolvido
Para entender por que a declaração de Salah tem peso diferente de uma crítica comum, é preciso voltar a dezembro de 2025. Foi lá que o desentendimento entre o atacante e Slot veio a público pela primeira vez — um racha que nunca foi costurado de verdade nos bastidores de Anfield.
Aquele episódio lembrou, em estrutura, o que aconteceu entre Luis Suárez e Brendan Rodgers em 2013: um jogador de elite que sente que o projeto ao redor dele encolheu, e um técnico que não consegue — ou não quer — adaptar o sistema para aproveitar o melhor do seu principal ativo. Rodgers perdeu a batalha pública. Slot corre o mesmo risco.

A diferença é que Suárez queria sair. Salah, ao menos no discurso, quer que o Liverpool volte a ser o que era — e essa distinção importa muito para ler a indireta corretamente.
"Ganhar alguns jogos aqui e ali não é o que o Liverpool deve ser. Todos os times ganham jogos", disse Salah, numa frase que resume a insatisfação com uma gestão que parece conformada com a mediocridade pontual.
O que os números dizem sobre o Liverpool de Slot em 2026
A crítica de Salah ao "heavy metal" perdido não é só nostalgia — tem respaldo estatístico concreto. Veja o que os dados desta temporada revelam:

- xG (expected goals) por jogo — o Liverpool de Klopp entre 2018 e 2020 gerava consistentemente acima de 2.0 xG por partida na Premier League. O time de Slot nesta temporada opera abaixo desse patamar em jogos fora de casa, com queda visível na criação de chances de alta qualidade.
- PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — métrica que mede a intensidade da pressão alta. Quanto menor o PPDA, mais agressivo o time pressiona. O Liverpool atual apresenta PPDA mais alto do que nos anos de domínio de Klopp, indicando uma pressão menos intensa e organizada — exatamente o oposto do "heavy metal" que Salah cobra.
- Progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. A queda nesse volume no terço médio do campo explica por que o Liverpool chega com menos velocidade nas transições, tornando o ataque previsível.
Esses três indicadores juntos contam a história que Salah verbalizou: o time perdeu a agressividade coletiva que o tornava imprevisível e temido.
A Champions na corda bamba e o que vem a seguir
O cenário na tabela é tenso. Com 59 pontos, o Liverpool ocupa a quinta colocação — a última vaga de acesso direto à Champions League pela Premier League, graças ao novo critério de coeficiente da UEFA que garantiu cinco vagas à Inglaterra. O Bournemouth, que vive a melhor temporada de sua história, está quatro pontos atrás, mas com um jogo a menos.
Isso significa que uma derrota nos próximos jogos pode colocar os Reds fora da Europa de elite pela primeira vez desde 2012. E o calendário não perdoa: os confrontos finais da Premier League chegam com adversários que também brigam por posições relevantes na tabela.
Slot, segundo fontes inglesas, deve permanecer no comando para a próxima temporada independentemente do desfecho — mas essa garantia interna não apaga o desgaste público. Um técnico campeão da Premier League na temporada passada que agora vê seu principal jogador criticar o projeto nas redes sociais está em terreno frágil, por mais que a diretoria sinalize apoio.
Salah encerra o contrato com o Liverpool ao fim desta temporada. A declaração deste sábado pode ser lida como um adeus carregado de frustração, um ultimato velado à direção, ou as duas coisas ao mesmo tempo. O que não dá para ler como é indiferença — e indiferença seria o único cenário que não moveria absolutamente nada.
O Liverpool joga a próxima rodada da Premier League com a obrigação de vencer para manter os quatro pontos de vantagem sobre o Bournemouth. Perder significa entregar a quinta vaga de Champions numa disputa que o próprio Salah já avisou que não aceita perder de qualquer jeito.
Anfield está em crise, a Champions está em risco, e Salah falou.










