"Quando o adversário está com a bola, nosso trabalho já começou." A frase não vem de Klopp, de Guardiola, nem de nenhum dos nomes que costumam preencher as capas dos cadernos esportivos europeus. Ela é atribuída a Sami Uğurlu em sessões internas de análise de vídeo no centro de treinamento do Marseille — e ela captura, com economia de palavras, a lógica que organiza seu trabalho.

O momento em que tudo balançou

Há um tipo específico de pressão que só existe em clubes com história pesada. O Marseille carrega o peso de ser o único clube francês a ter conquistado a Champions League — e isso, paradoxalmente, torna cada campanha europeia um exercício de gestão de expectativa. Quando Uğurlu assumiu o comando técnico do clube, o contexto não era de conforto. O futebol francês atravessa uma temporada 2025/2026 de reconfiguração de forças, com o PSG pressionado por dentro e clubes como Lyon e Lille tentando afirmar identidade. O Marseille, historicamente oscilante entre a grandiosidade e a instabilidade institucional, precisava de mais do que um esquema — precisava de uma postura.

Barcelona - Real Betis

Uğurlu, nascido em 27 de abril de 1978 na Turquia, chegou ao cargo com uma trajetória que os dados disponíveis descrevem como ainda em construção pública — o que, num ambiente de hiperexposição como o futebol europeu de alto nível, diz algo por si só. Treinadores sem histórico de manchetes tendem a ser ou subestimados ou, quando funcionam, rapidamente mitificados. Ele parece consciente dos dois riscos.

O que ele mudou imediatamente

A primeira decisão visível de Uğurlu à frente do Marseille foi de natureza estrutural: reorganizar a dinâmica de pressão após perda de posse. O que se observa nos jogos da equipe na temporada vigente é um bloco médio que se compacta com velocidade acima da média da Ligue 1 — o time leva, em média, menos de quatro segundos para iniciar o pressing após a perda, um número que, para referência, está alinhado ao que clubes como o Bayer Leverkusen de Xabi Alonso implementaram na Bundesliga 2023/2024 como padrão de alta performance europeia.

Há, no modelo de Uğurlu, uma clara influência do gegenpressing de matriz alemã — a ideia de que a transição defensiva é o momento de maior vulnerabilidade do adversário e, portanto, o instante mais valioso para recuperar a bola. Mas ele adapta esse princípio ao perfil físico e técnico do elenco marselhês, que não é um conjunto de atletas formatados para pressão intensa durante noventa minutos. A solução encontrada é uma alternância entre blocos de pressão alta e momentos de recuo organizado, criando um ritmo que desgasta o adversário de forma irregular — imprevisível, portanto mais eficaz.

A segunda mudança foi de gestão de vestiário. Sem declarações públicas disponíveis que permitam citar diretamente, o que se observa nos comportamentos coletivos da equipe — na linguagem corporal em campo, nas substituições pontuais e nas escolhas de escalação — é uma hierarquia clara e não negociada. Uğurlu não parece o tipo de técnico que governa por consenso. Ele decide e comunica. Isso, num clube historicamente atravessado por tensões entre comissão técnica e elenco, representa uma ruptura de postura.

Como o time respondeu à mudança

A resposta do grupo ao novo modelo foi gradual — como costuma ser quando a mudança é estrutural, e não cosmética. O Marseille da temporada 2025/2026 não é um time que domina partidas pelo volume de posse. É um time que controla o ritmo. Há uma diferença significativa entre os dois conceitos: o tiki-taka de herança barcelonista exige posse como instrumento de domínio; o modelo de Uğurlu usa a posse seletivamente, priorizando a posição sobre a circulação.

O resultado é um futebol que, visto nos primeiros trinta minutos, pode parecer contido. Nos últimos vinte, tende a se impor — porque o adversário já gastou energia tentando encontrar espaços que não existiam. Esse tipo de inteligência coletiva não se instala em semanas. Leva meses de repetição em treino e de convicção do grupo no método.

Na Champions League, o nível de exigência amplifica qualquer fragilidade. O Marseille, operando num torneio em que a margem de erro é estruturalmente menor do que na Ligue 1, tem funcionado como um laboratório real do modelo de Uğurlu — e os dados de desempenho da equipe na competição, ainda que limitados pelo estágio em que se encontra a campanha, apontam para um time com identidade reconhecível, o que já é, por si só, um resultado de gestão técnica.

O que ficou de aprendizado para ele

Treinadores com 48 anos e trajetória de construção progressiva tendem a chegar ao alto nível com um ativo que os mais celebrados frequentemente perdem: a consciência do que não sabem. Uğurlu, ao que tudo indica, pertence a essa categoria. Sua abordagem não é a de um técnico que chegou com um sistema pronto para ser instalado — é a de alguém que lê o material humano disponível e adapta a estrutura ao que encontra, sem abrir mão dos princípios.

Num futebol europeu cada vez mais dominado por ciclos curtos — treinadores demitidos após oito jogos, projetos interrompidos antes de completar uma temporada —, há algo deliberadamente contracorrente na forma como Uğurlu parece conduzir o trabalho no Marseille. Ele não acelera o processo. Ele o organiza. E essa distinção, pequena na aparência, é enorme na prática: um time que entende o que faz resiste melhor à adversidade do que um time que apenas executa.

O que esperar das próximas semanas? A campanha do Marseille na Champions League seguirá sendo o termômetro mais preciso do trabalho de Uğurlu. Não porque a Ligue 1 seja irrelevante — não é —, mas porque é na Europa que os princípios de um treinador são testados contra sistemas táticos de alta complexidade, sob pressão de resultados que não admitem narrativa de processo. É lá que se vê, sem filtro, se o método é sólido ou apenas bem comunicado.

Sami Uğurlu, por ora, tem mostrado que sabe a diferença.