É um mastro firme numa tempestade de meio-campo — mas com a tensão de quem sabe que pode quebrar se mal posicionado.
Samú Costa, o volante português de 185 cm que veste a camisa 12 do Mallorca, não chegou ao futebol europeu de alto nível pela porta larga dos grandes clubes ibéricos. Chegou pela rota menos glamourosa e, por isso mesmo, mais honesta: construindo reputação em silêncio numa ilha mediterrânea enquanto o mundo olhava para Madrid e Barcelona. Nascido em 27 de novembro de 2000, completou 25 anos no final de 2025 — e a data chegou carregada de um significado que vai além do calendário.
O dia em que tudo mudou
12 de outubro de 2024. Essa data já não pertence só ao Mallorca.
Foi num jogo da Liga das Nações da UEFA contra a Polônia, com Portugal vencendo por 2 a 1, que Samuel de Almeida Costa pisou pela primeira vez num gramado como internacional absoluto. A entrada foi como substituto de Bernardo Silva — um dos meias mais completos da geração europeia pós-2010, referência no Manchester City de Guardiola e na seleção das quinas. Substituir Bernardo não é tarefa para jogadores comuns. É um teste de temperamento antes de ser um teste técnico. Samú passou, ainda que em doses homeopáticas de minutagem.
Para entender o peso daquele momento, vale o paralelo histórico: em 1986, quando Paulo Futre estreou pela seleção portuguesa com 19 anos, o futebol ibérico ainda não tinha a densidade tática que conhecemos hoje. A geração de Rui Costa, nos anos 90, carregava um romantismo ofensivo que o futebol moderno foi sistematicamente eliminando. O volante de hoje — posição em que Samú opera — é uma criação quase industrial do século XXI: precisa ser atleta, organizador, destruidor e distribuidor ao mesmo tempo. Estrear nessa função pela seleção portuguesa, num contexto competitivo como a Liga das Nações, não é detalhe de currículo.
Antes do divisor de águas
O Mallorca não é clube de vitrines, e essa é exatamente a sua virtude formativa.
Fundado em 1916 e com uma história marcada por oscilações entre a Primeira e a Segunda Divisão espanhola, o clube balear tem uma identidade curiosa no mapa do futebol europeu: sobrevive com inteligência de mercado onde outros sobreviveriam apenas com dinheiro. Nos anos 90, chegou a disputar a Copa da UEFA com nomes como Dani e Stankovic no elenco. Nos 2000, foi semifinalista da Copa do Rei com regularidade. Hoje, segura-se na elite da La Liga pela coesão coletiva — e é nesse ambiente que Samú Costa foi lapidado.
O percurso do volante antes da convocação portuguesa é, pelos dados disponíveis, marcado pelo trabalho contínuo no clube de Maiorca. Não há troféus listados, não há transferências de impacto midiático, não há capítulos de San Siro ou Bernabéu. O que existe é uma trajetória construída na consistência — o tipo de currículo que os olheiros de seleções europeias modernas aprenderam a valorizar depois que o modelo de recrutamento baseado apenas em marcas de clube mostrou suas limitações. Roberto Martínez, técnico de Portugal, tem histórico de valorizar jogadores que funcionam em sistemas bem definidos, independente do tamanho do clube. Samú Costa é, nesse sentido, um produto coerente com a filosofia do selecionador.
Como o futebol mudou ao redor dele
A posição de volante passou por uma revolução silenciosa entre 2010 e 2026 — e Samú Costa existe exatamente nessa transformação.
Nos anos 80, o médio defensivo era quase um sinônimo de brutalidade controlada. Graeme Souness no Liverpool, Lothar Matthäus no Bayern, Mauro Tassotti na Itália — jogadores que intimidavam pelo físico e pela presença. Nos 90, com a consolidação do 4-4-2 e depois do 4-3-3, a função ganhou camadas: Roy Keane no Manchester United era agressivo mas também organizador; Deschamps na Juventus era o "portador de água" que Cantona ridicularizou e a história reabilitou. Nos 2000, Makélélé redefiniu o papel no Real Madrid de Zidane e Ronaldo Fenômeno a ponto de a posição ganhar seu nome informal.

Hoje, em 2026, o volante moderno precisa sair da linha de pressão, participar da construção pelo terceiro homem e ainda cobrir os espaços deixados pelos laterais em progressão. Com 185 cm, Samú Costa tem a estatura física para disputar bolas aéreas num campeonato tão físico quanto a La Liga atual — onde o Athletic Club, o Atlético de Madrid e o próprio Mallorca exigem robustez nos duelos de meio-campo. Conforme registrado pelo SportNavo em coberturas anteriores da temporada espanhola, o Mallorca tem sido um dos times com maior intensidade de pressão alta na liga, o que coloca o volante no centro de um sistema exigente.
A temporada 2025/2026 ainda está em construção para Samú — com apenas uma partida disputada até o momento, os números não permitem conclusões definitivas sobre forma ou protagonismo. O que os dados indicam é que ele segue no grupo, disponível, parte do plano. Em futebol, presença no elenco de um clube da La Liga aos 25 anos, com convocação pela seleção portuguesa no currículo, já é uma coordenada relevante no mapa de uma carreira.
O próximo capítulo já começou
Aos 25 anos, Samú Costa está na idade em que volantes europeus costumam dar o salto definitivo — ou ficam presos no limbo dos "bons jogadores de segundo escalão".
A história do futebol ibérico é generosa em exemplos dos dois caminhos. Sergio Busquets tinha 21 anos quando Guardiola o colocou como titular absoluto no Barcelona de 2008/2009 — o time que fez 87 pontos na La Liga e revolucionou o futebol mundial. Marcos Llorente, por sua vez, demorou até os 25 anos para encontrar sua função definitiva no Atlético de Madrid de Simeone, migrando do volante para o meia-atacante com uma naturalidade que surpreendeu até os analistas mais atentos. O ponto comum entre os dois: ambos precisaram de um contexto tático específico para florescer. Samú Costa ainda está buscando o seu.
A convocação de outubro de 2024 abriu uma porta. Portas abertas em futebol, no entanto, se fecham com a mesma velocidade com que se abrem — especialmente quando a concorrência na posição inclui jogadores de clubes com maior visibilidade europeia. A sequência da temporada 2025/2026 no Mallorca será, portanto, o termômetro mais honesto do que vem pela frente: mais minutos, mais regularidade, mais argumentos para Roberto Martínez mantê-lo na lista dos convocados.
O relógio suíço com pavio curto mencionado no início desta matéria tem um prazo claro para mostrar do que é feito.
25 anos. O tempo ainda joga a favor.













