Dois pênaltis convertidos, dois gols de vantagem, menos de 30 minutos de segundo tempo pela frente — e, no fim, 2 a 2. O Santos saiu da Arena Fonte Nova na noite do último sábado, 25 de maio, com o mesmo sabor de desfecho que já se tornara familiar nas últimas semanas: a vitória construída em campo, dissolvida no momento em que deveria ser apenas administrada. Luciano Juba e Willian José foram os algozes do Peixe, respondendo ao doblete de cobranças de pênalti de Benjamín Rollheiser com uma virada de jogo que não precisou de muita criatividade — bastou explorar as fraturas de uma equipe que ainda não aprendeu a fechar portas.

O roteiro que virou hábito

A 13ª rodada do Campeonato Brasileiro ficará registrada não pelo que o Santos fez, mas pelo que deixou de fazer. Rollheiser, argentino de 25 anos que tem sido um dos destaques do ataque santista, converteu os dois pênaltis com precisão e levou o time à condição mais confortável que um clube visitante poderia desejar: dois gols de frente antes do intervalo. O problema, como revelou a sequência, não estava na produção ofensiva. Estava na incapacidade de suportar o peso da vantagem.

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Não se trata de evento isolado. Conforme levantamento do SportNavo, esta foi a terceira ocasião em um curto intervalo de tempo em que o Santos abriu placar favorável e não conseguiu preservá-lo até o apito final — uma recorrência que deixou de ser acidente e passou a exigir diagnóstico. A estatística é cruel: o time somou menos pontos do que deveria em pelo menos três oportunidades recentes, comprometendo uma campanha que poderia estar sensivelmente mais sólida na tabela.

O roteiro que virou hábito Santos desperdiça 2 a 0 e Cuca enfrenta
O roteiro que virou hábito Santos desperdiça 2 a 0 e Cuca enfrenta

Cuca e o peso das palavras após o apito

O técnico Luiz Felipe Scolari — não, Cuca. O erro seria tentador, porque a cena pós-jogo tem algo de familiar: o treinador veterano diante dos microfones, buscando equilíbrio entre a autocrítica e a defesa do trabalho. Cuca não fugiu à responsabilidade, mas também não entregou a narrativa de fracasso que parte da imprensa esperava. Suas palavras foram mais cirúrgicas do que se poderia antecipar.

"Isso que é duro. Fazer uma partida como fizemos durante grande parte do jogo e ter que explicar certas situações. Se a gente não toma o gol e nós tomamos, já conversei com o Diógenes, é evitável. O canto é nosso, é nosso. Se ele acerta a gaveta no outro lado, tudo bem. Já eram 30 minutos. Pergunto: quais chances o Bahia tinha criado até então?" — afirmou o técnico.

A pergunta que Cuca lançou ao ar não era retórica. Até o primeiro gol do Bahia, o Santos havia controlado o jogo, criado chances com Rony — que desperdiçou pelo menos duas — e com Lautaro, sem que o Esquadrão de Aço oferecesse qualquer ameaça real a Diógenes. O empate não nasceu de inferioridade técnica; nasceu de um gol sofrido que desestruturou um plano que até então funcionava com disciplina.

"Lógico que eu cobro, e vou cobrar individualmente e coletivamente sobre o que vi. Mas isso internamente. Aqui não. Saímos com coisas boas. Vimos um time fazer um baita jogo. Não adianta se apegar ao resultado" — completou Cuca.

Futebol bom não paga conta

Há uma tensão clássica no discurso de Cuca que merece atenção: a defesa da qualidade do jogo como valor autônomo, descolado do resultado. Não é argumento sem fundamento — times que produzem bom futebol tendem, pela lei dos grandes números, a converter esse desempenho em pontos ao longo de uma temporada. Mas o Brasileiro é disputado em 38 rodadas, e cada empate que deveria ser vitória representa dois pontos que não voltam.

A análise do SportNavo aponta que o Santos, mesmo com bom desempenho coletivo em diversas partidas, acumula um saldo de pontos aquém do potencial demonstrado em campo. A ausência de Neymar — poupado no duelo contra o Bahia — e a suspensão de Gabriel Barbosa certamente pesaram na recomposição tática no segundo tempo, mas não explicam sozinhas a incapacidade de gerir a vantagem. Jogadores como Rony tiveram oportunidades concretas para matar o jogo antes que o Bahia respirasse, e o 3 a 0 que enterraria a partida ficou apenas na conta dos desperdícios.

O que muda daqui para frente

Cuca prometeu cobranças individuais e coletivas no ambiente interno, sem detalhar quais correções serão implementadas. A próxima oportunidade de resposta vem já na terça-feira, dia 28, quando o Santos deve contar com o retorno de Neymar e Gabriel Barbosa ao grupo disponível. A reintegração dos dois principais nomes do elenco não é garantia de resultado, mas muda o equilíbrio de forças dentro de campo — especialmente na capacidade de manter posse e ritmo quando a equipe precisa administrar uma vantagem no placar, que é exatamente onde o time tem sangrado.