Não foi a saída de Neymar que quebrou o Santos. A ruptura começou antes, nas planilhas de receita que nunca se converteram em elenco competitivo. O Peixe encerra a primeira metade do Brasileirão 2026 em 17º lugar, com 18 pontos em 17 jogos — quatro vitórias, seis empates e sete derrotas —, exatamente na borda do Z-4. E o dinheiro das grandes vendas, onde ele foi parar?
O vestiário que Cuca recebeu depois das transferências milionárias
Nos últimos três anos, o Santos executou um ciclo de desinvestimento que, em tese, deveria financiar reconstrução. Marcos Leonardo foi negociado com o Benfica por cerca de €12 milhões (aproximadamente R$ 65 milhões na época da transferência), com o clube retendo 50% dos direitos econômicos. Angelo deixou a Vila Belmiro rumo ao Chelsea por cifras que superaram os R$ 130 milhões em valores consolidados, incluindo bônus por metas.
Soma-se a isso a receita gerada pelo retorno e posterior gestão do contrato de Neymar — luvas, direitos de imagem e participação em receitas comerciais que, segundo estimativas do mercado, giraram na casa dos R$ 40 milhões anuais para o clube. O atacante está lesionado e já se prepara para a Copa do Mundo com a seleção brasileira, sem perspectiva de retorno ao futebol de clubes antes da parada.
Mesmo com esse fluxo de caixa positivo, o elenco entregue ao técnico Cuca carece de profundidade em posições-chave. O goleiro Gabriel Brazão acaba de receber suspensão de quatro partidas pelo STJD, com multa de R$ 4 mil. O clube deve recorrer, mas, se a punição for mantida, Diógenes assume a meta — reposição interna sem custo de transferência, mas também sem o mesmo nível técnico.
Seria injusto chamar de gestão catastrófica — mas é uma desorganização em escala suficiente para transformar receitas de elite em tabela de rebaixamento.
O campo na 18ª rodada e o gol que mudou o cenário contra o Vitória
A partida deste sábado (30) contra o Vitória, pela 18ª rodada do Brasileirão, aconteceu na Vila Belmiro a partir das 20h (de Brasília), com transmissão pelo SporTV e Premiere. O Santos não dependia apenas de si para sair do Z-4 — precisava vencer e torcer por tropeços dos concorrentes diretos na tabela.
Miguelito abriu o placar para o Santos no confronto, marcando o primeiro gol da partida. O atacante, que figura como opção titular diante das dúvidas de Rollheiser — fora dos últimos jogos por dores musculares — e de Igor Vinícius, com desconforto no pé esquerdo, aproveitou a chance para balançar as redes na Vila Belmiro.
O fator casa pesa positivamente: o Santos tem quatro vitórias e dois empates em nove jogos como mandante neste Brasileirão. O Vitória, por sua vez, chegou ao jogo em 11º lugar com 22 pontos e um jogo a menos, mas com campanha fora do Barradão que registra cinco derrotas e três empates em oito partidas — o pior desempenho como visitante entre os times do meio da tabela.
O técnico Jair Ventura, do lado baiano, tinha como objetivo pelo menos um empate para garantir entrada na Data Fifa entre os dez primeiros.
Onde foi o dinheiro das transferências, afinal?
A mesa de decisão que definirá o Santos após a parada da Copa
A análise financeira do período pós-vendas revela um padrão preocupante: o Santos priorizou quitação de passivos (dívidas trabalhistas e fiscais estimadas em valores superiores a R$ 700 milhões) em detrimento de recomposição de elenco. As receitas de Marcos Leonardo e Angelo, em vez de gerar ROI esportivo via contratações estratégicas, foram absorvidas pelo caixa operacional sem contrapartida técnica visível no plantel atual.
O valor de mercado do elenco santista, segundo estimativas do Transfermarkt, gira em torno de €28 milhões — número compatível com times de zona de rebaixamento em competições sul-americanas de nível médio, não com um clube que movimentou mais de R$ 200 milhões em transferências nos últimos 36 meses.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da temporada, o clube não executou nenhuma contratação com taxa de transferência acima de €3 milhões no janela de janeiro de 2026, priorizando empréstimos e jogadores livres no mercado.
A parada para a Copa do Mundo representa a última janela real de negociação antes que o Z-4 se consolide. Com Rollheiser e Igor Vinícius como dúvidas e Brazão suspenso, Cuca terá ao menos três semanas para reorganizar o elenco — período que a diretoria precisa usar para avaliar se a política de austeridade financeira é compatível com a permanência na Série A.
"O Vitória não venceu longe do Barradão em nenhuma das oito partidas como visitante", registraram os dados compilados antes do confronto — contexto que tornava a Vila Belmiro, ao menos em tese, território favorável ao Santos neste sábado.
O próximo compromisso do Santos no Brasileirão ocorre após a parada da Copa, na segunda quinzena de julho. A janela de transferências abre em paralelo. Se o clube encerrar a 18ª rodada ainda no Z-4, a pressão por contratações imediatas vai colidir diretamente com o limite de caixa que a diretoria impôs para 2026 — e essa equação não fecha sem escolhas difíceis na mesa de negociações.










