As luzes do Maracanã ainda estavam acesas quando a vaia rasgou o ar — não após uma derrota, não após um vexame, mas após um 2 a 1 sobre o Operário-PR que carimbou a classificação do Fluminense para as oitavas de final da Copa do Brasil. Foi nesse cenário contraditório, entre o alívio da vaga e o desconforto das arquibancadas, que José Salomón Rondón Savarino — o venezuelano de 27 anos que chegou ao Laranjeiras em 2024 — caminhou até a zona mista com algo a dizer.

Savarino na frente de todos — dentro e fora do campo

Logo nos primeiros minutos da partida, Savarino converteu o primeiro pênalti da noite e abriu o marcador para o Tricolor. Era o gol que parecia desenhar um caminho tranquilo. Mas o futebol, como qualquer drama humano, raramente segue o roteiro esperado: o Operário descontou, o placar ficou em 2 a 1 e a torcida transformou a vitória classificatória em motivo de protesto. Na zona mista, o atacante não se furtou ao confronto.

"A torcida tem todo o direito de reclamar de qualquer coisa, mas a nossa vontade dentro do campo é ganhar o jogo. O que fizemos hoje, conseguir a nossa classificação para as oitavas, foi o mais importante. Eu acho exageradas essas vaias. Tivemos ocasiões dentro do jogo, jogamos bem", afirmou Savarino.

Há um dado que reforça o argumento do venezuelano: o Fluminense criou chances suficientes para encerrar o confronto antes do gol do Fantasma, incluindo um segundo pênalti, cobrado por John Kennedy, que acertou o travessão no início do segundo tempo. Savarino explicou na zona mista que cedera a cobrança ao camisa 9 por pedido do próprio atacante — gesto que revela a dinâmica de confiança interna do elenco, ainda que o resultado concreto da penalidade tenha alimentado a ansiedade das arquibancadas.

Savarino na frente de todos — dentro e fora do campo Savarino marca, o Flu passa
Savarino na frente de todos — dentro e fora do campo Savarino marca, o Flu passa

O nó que o Fluminense ainda não desatou em 2026

O problema não é novo. Ao longo desta temporada, o Tricolor tem acumulado vitórias apertadas e sustos desnecessários — padrão que corrói a confiança mesmo quando os pontos ou as classificações chegam. Quem frequenta o Maracanã sabe que a memória afetiva da torcida tricolor carrega o peso de anos difíceis, incluindo o rebaixamento de 2024, que deixou cicatrizes difíceis de apagar com um placar favorável isolado.

Como diria o velho ditado: quem não tem cão caça com gato — e a torcida do Flu, sem a segurança de um time que "mata" os jogos com eficiência, acaba caçando conforto onde não há: nas vaias que, paradoxalmente, pressionam mais o elenco do que o adversário.

Savarino tocou exatamente nessa ferida ao dizer que "a pressão da torcida não influi dentro do campo" — afirmação que soa mais como desejo do que como certeza, dado que qualquer psicólogo esportivo diria o contrário sobre ambientes hostis em jogos de mata-mata.

O que Savarino pediu e o que o Fluminense precisa responder

Na avaliação do SportNavo, a declaração mais relevante do venezuelano não foi a crítica às vaias, mas o diagnóstico técnico que a acompanhou.

"A gente tem que matar o jogo. Estamos fechados tanto dentro, quanto fora do campo. Temos que caminhar juntos, tanto torcida e jogadores. Temos que matar o jogo e corrigir os erros quando tomamos gol também", disse o atacante.

Matar o jogo é uma expressão simples que esconde uma exigência técnica complexa: consistência na finalização, controle emocional nos momentos de vantagem e maturidade coletiva para não abrir espaços quando o resultado está encaminhado. Esses são os pontos que o Fluminense ainda não resolveu — e que, enquanto permanecerem abertos, darão combustível às vaias que Savarino tanto critica.

O Tricolor volta a campo pela Copa do Brasil nas oitavas de final, cuja tabela será definida pelo sorteio da CBF. Antes disso, o clube tem compromissos pelo Brasileirão 2026, onde a regularidade — mais do que a classificação isolada — será o verdadeiro termômetro da relação entre elenco e arquibancada.