1 hora, 59 minutos e 30 segundos. Esse é o número que Sebastian Sawe, de 30 anos, gravou na história do atletismo mundial no último domingo (26), ao cruzar a linha de chegada da Maratona de Londres como o primeiro atleta a completar 42,195 km abaixo de duas horas em uma prova oficial reconhecida pelas federações. O feito rendeu ao queniano uma premiação total de US$ 355 mil — aproximadamente R$ 1,8 milhão na cotação atual —, uma soma construída por quatro camadas distintas de incentivo financeiro.
Como se calcula US$ 355 mil em uma maratona
O prêmio de Sawe não veio de uma única fonte. O cheque de US$ 55 mil pela vitória representou apenas 15,5% do total recebido. O restante foi composto por bônus de performance: US$ 25 mil pelo recorde da prova de Londres, US$ 125 mil pelo recorde mundial e US$ 150 mil por completar o percurso abaixo da marca de 2h02min. A estrutura revela um modelo em que o simples ato de vencer vale menos do que superar marcas históricas — uma lógica que incentiva recordes e aumenta o espetáculo televisivo das grandes maratonas.
O recorde anterior pertencia ao também queniano Kelvin Kiptum, que havia registrado 2h00min35s na Maratona de Chicago de 2023 — antes de falecer em 2024. Sawe pulverizou esse tempo em mais de um minuto, e o contexto torna o número ainda mais impressionante: o pelotão de elite passou pela meia maratona em 1h00min29, obrigando o atleta a acelerar na segunda metade. Sawe cobriu os 21 km finais em 59min01, com o split mais decisivo entre os 30 e os 35 km registrando 13min54 — trecho em que ele e o etíope Yomif Kejelcha deixaram os demais para trás.
"Quando cheguei à linha de chegada, vi o tempo e fiquei tão animado", disse Sawe após cruzar o Mall, em frente ao Palácio de Buckingham.
Kejelcha também terminou abaixo das duas horas, com 1h59min41s — em sua estreia na distância. O ugandês Jacob Kiplimo foi terceiro em 2h00min28s. Pela primeira vez na história, os três primeiros colocados de uma maratona ficaram abaixo do antigo recorde mundial de 2h00min35s.
O atletismo paga bem — para pouquíssimos
Os US$ 355 mil de Sawe são um valor expressivo, mas a análise comparativa do SportNavo mostra que, no contexto do esporte profissional global, a cifra é modesta. Na NFL, o salário médio anual dos titulares supera US$ 2 milhões. No tênis, Novak Djokovic acumulou mais de US$ 177 milhões em prêmios de carreira até 2024. No atletismo de pista e estrada, a concentração de renda é ainda mais aguda: a elite queniana e etíope domina o circuito de grandes maratonas — as chamadas World Marathon Majors —, mas a esmagadora maioria dos atletas profissionais não sustenta uma carreira apenas com prêmios de prova.
A Maratona de Londres premia os 12 primeiros colocados tanto na categoria masculina quanto feminina. Quem termina em 12º lugar recebe uma fração ínfima do que Sawe embolsou. Para os atletas fora do pódio, o sustento financeiro depende de contratos com marcas esportivas — Nike, Adidas e On Running são as principais patrocinadoras do circuito —, bônus de patrocinadores e cachês de appearance fees pagos pelas organizações das provas para garantir a presença de nomes conhecidos.
Sawe treina onde os campeões nascem
O queniano se prepara em um acampamento de alta altitude em Kapsabet, no oeste do Quênia — mesma região que formou gerações de campeões olímpicos e recordistas mundiais. A altitude média de Kapsabet gira em torno de 1.900 metros, condição que eleva a produção de hemoglobina e é considerada fator determinante na fisiologia dos corredores de longa distância africanos. Sawe já havia vencido a Maratona de Londres anteriormente, quando registrou 2h02min27s — uma marca que, até ontem, figurava entre as melhores da prova.

A levantamento do SportNavo sobre as últimas cinco edições da Maratona de Londres aponta que atletas quenianos venceram a prova masculina em quatro delas, consolidando a hegemonia do país no circuito mundial. O Brasil, para fins de contexto histórico, não coloca um atleta no top 10 de uma World Marathon Major desde 2007 — quando Marilson dos Santos venceu a Maratona de Nova York, repetindo o feito em 2008.
O que muda para o atletismo depois de 26 de abril
A barreira das duas horas era, para o atletismo, o equivalente ao que a marca dos 100 metros abaixo de 9,5 segundos representa para o velocismo — uma fronteira considerada fisiologicamente extrema. Eliud Kipchoge cruzou esse limiar em outubro de 2019 no projeto Ineos 1:59 Challenge, registrando 1h59min40s — mas em condições controladas, com pelotão de pacer, sem validade de recorde. O feito de Sawe em Londres é diferente: aconteceu em uma prova aberta, com concorrência real, sob as regras do atletismo oficial.
A quebra do recorde deve pressionar as organizações das principais maratonas do mundo — Boston, Berlim, Chicago, Nova York e Tóquio — a revisarem suas estruturas de bônus para atrair Sawe e outros atletas capazes de ameaçar a nova marca de 1h59min30s. A próxima grande janela de oportunidade para Sawe é a Maratona de Berlim, historicamente o circuito mais favorável a recordes pelo seu perfil plano, prevista para setembro.








