Não é a lesão de Messi que assusta mais — é a densidade do problema ao redor dela. Quando Lionel Scaloni admitiu publicamente que o camisa 10 do Inter Miami provavelmente não chegará em plena forma à Copa do Mundo, ele estava descrevendo apenas a ponta de um iceberg que inclui sete nomes no departamento médico argentino a menos de um mês do início do torneio. A sobrecarga muscular na parte posterior da coxa esquerda, detectada após a vitória do Inter Miami sobre o Philadelphia Union por 6 a 4 no dia 24 de maio, desencadeou uma sequência de boletins médicos, exames complementares e declarações cautelosas que dominaram a agenda do futebol sul-americano nos últimos dias.

O que Scaloni disse e o que os exames ainda precisam confirmar

O técnico argentino foi cirúrgico ao escolher as palavras.

"Todos nós desejávamos que Messi pudesse se juntar à seleção em plena forma, mas essa não é a realidade", declarou Scaloni em entrevista à DSports. "As primeiras notícias não são de todo ruins. Agora precisamos esperar para ver como ele evolui, aguardando os resultados de exames adicionais para verificar se confirmam os primeiros laudos médicos."
A distinção entre "não é grave" e "chegará em plena forma" é exatamente o tipo de nuance que separa um diagnóstico médico de uma garantia técnica. Scaloni conhece bem essa diferença — e sabe que um jogador de 38 anos que chega à Copa com 80% da capacidade física é, taticamente, um problema diferente de um jogador que chega a 100%.

A convocação final deve ser comunicada à FIFA até 2 de junho, e nenhum dos jogadores lesionados, incluindo Messi, deve participar dos amistosos preparatórios. Isso significa que a comissão técnica argentina precisará tomar decisões de lista sem ver nenhum desses atletas em ritmo de jogo real — uma situação que lembra, de forma incômoda, o que a Alemanha viveu em 2018 quando Sami Khedira chegou ao Mundial russo com o tanque no limite e entregou exatamente o que seu físico permitia: pouco.

O histórico de Messi em vésperas de Copa e o que os números revelam

Reparemos no detalhe que a memória seletiva do torcedor tende a apagar: Messi não é um atleta que costuma chegar às Copas do Mundo em condição física impecável. Em 2014, quando a Argentina chegou à final no Maracanã, ele havia encerrado a temporada no Barcelona com dores musculares recorrentes e foi gerenciado por Alejandro Sabella em boa parte da fase de grupos. Ainda assim, marcou quatro gols e foi eleito o melhor jogador do torneio. Em 2022, no Qatar, chegou ao Mundial com 35 anos e uma temporada no PSG que incluiu períodos de afastamento por lesão — e saiu de lá com a taça nas mãos e sete gols e assistências na conta do torneio.

A diferença agora é a idade: 38 anos em junho de 2026. A fisiologia do futebol de elite tem limites bem documentados, e uma sobrecarga muscular na posterior da coxa em atletas acima dos 35 anos demora, em média, de 10 a 21 dias para resolução clínica completa — mas a janela entre "clinicamente recuperado" e "em forma de jogo" pode ser consideravelmente maior. A Argentina estreia no Grupo J contra a Argélia no dia 16 de junho, em Kansas City. Há, portanto, tempo — mas não sobra.

O campeonato de 2026 marca também uma mudança de contexto que é relevante: pela primeira vez, Messi chega a uma Copa sem ser o jogador mais determinante de um clube europeu de elite. A MLS oferece menos pressão competitiva e menos intensidade física do que a Champions League, o que pode ser uma faca de dois gumes — menos desgaste acumulado, mas também menos ritmo de alta performance.

Os coadjuvantes lesionados e os planos de Scaloni sem Messi em campo

O problema argentino vai muito além de um nome. O goleiro Emiliano Martínez, do Aston Villa, se recupera de uma fratura no dedo anelar da mão direita. O zagueiro Cristian Romero, do Tottenham, trata uma lesão ligamentar no joelho direito. Os dois laterais-direitos titulares — Nahuel Molina, do Atlético de Madrid, e Gonzalo Montiel, do River Plate — estão com lesões musculares. O meia Nico Paz, do Como, perdeu a última rodada da Serie A por problema no joelho. O atacante Nicolás González, também do Atlético de Madrid, está na fase final de reabilitação muscular.

"Muitos jogadores ainda precisam se recuperar totalmente. Nossa principal prioridade agora é a reabilitação deles para garantir que cheguem à Copa do Mundo em sua melhor forma", resumiu Scaloni.
Sete jogadores comprometidos simultaneamente é o tipo de situação que, no futebol europeu dos anos 90, teria sido tratada como catástrofe pré-Copa. Mas o levantamento que o SportNavo fez sobre campanhas históricas com elencos incompletos revela um padrão contraintuitivo: seleções que chegam ao torneio com lesões em peças importantes tendem a desenvolver coesão coletiva mais rapidamente, porque os substitutos entram sem o peso da hierarquia estabelecida.

A Espanha de 2010, por exemplo, perdeu David Villa por lesão durante a preparação e viu Fernando Torres chegar ao torneio longe da melhor forma — e ainda assim ganhou o Mundial. A diferença é que aquela equipe tinha um sistema tático tão consolidado que a ausência de um jogador não colapsava o funcionamento do conjunto. A Argentina de Scaloni, construída ao longo de cinco anos com uma identidade defensiva clara e transições rápidas, tem potencial para funcionar de maneira similar — mas depende de que o meio-campo funcione.

Sem Messi em plena forma, Scaloni provavelmente recorrerá a um esquema mais compacto, com Julián Álvarez e Lautaro Martínez dividindo a responsabilidade ofensiva com mais liberdade de movimentação. Enzo Fernández, quando saudável, tem capacidade de organizar o jogo a partir da intermediária com qualidade suficiente para reduzir a dependência do camisa 10. A Argentina enfrenta ainda a Áustria em 22 de junho e a Jordânia em 27 de junho, ambas em Arlington, Texas — dois adversários que, na teoria, permitem rotação e gestão de carga física para Messi.

A decisão de Scaloni sobre incluir ou poupar Messi nos primeiros jogos do Grupo J vai definir o tom de toda a campanha argentina. Vale acompanhar o anúncio da convocação final, previsto para até 2 de junho — é nesse momento que a Argentina mostrará se tem confiança suficiente no restante do elenco para não depender de Messi desde o apito inicial.