Confesso: subestimei Nico Paz quando ele apareceu no radar de Scaloni para esta Copa. Parecia um nome de conveniência, aquele tipo de convocação que serve mais para gestão de grupo do que para decisão tática real. Hoje, olhando para a escalação confirmada contra a Jordânia, neste sábado (27) em Dallas, percebo que errei a leitura — e o jogo desta noite pode ser a prova definitiva disso.
A Argentina que vai a campo não é reserva — é laboratório
A Copa do Mundo tem uma lógica que os técnicos de alto rendimento conhecem bem: a terceira rodada da fase de grupos, quando uma equipe já está classificada em primeiro lugar, é o momento mais raro e precioso da competição — um jogo oficial com baixo risco institucional. Scaloni entende isso melhor do que a maioria. A escalação confirmada para o confronto com os jordanianos preserva Lionel Messi, De Paul e Di María, mas não é uma equipe de segunda linha: é uma hipótese tática sendo testada em condições reais.
O time tem Emiliano Martínez no gol, Marcos Senesi e Tagliafico na defesa ao lado de Otamendi, e um meio-campo formado por Exequiel Palacios, Giovani Lo Celso, Leandro Paredes e Nico Paz. No ataque, Giuliano Simeone aparece pela primeira vez como titular ao lado de Julián Álvarez e Lautaro Martínez. São quatro jogadores — Senesi, Nico Paz, Giuliano Simeone e Lo Celso — que precisam de minutagem de Copa para que Scaloni tenha alternativas reais nas oitavas de final.
"Todos os jogadores do grupo são importantes para nós. Quem jogar vai ter a oportunidade de mostrar que pode ajudar", disse Scaloni em coletiva antes da partida, sem revelar detalhes sobre o plano para o mata-mata.
Giuliano Simeone e Nico Paz carregam o peso da oportunidade
Há uma cena em Moneyball — o filme de 2011 sobre o Oakland Athletics — em que o personagem de Brad Pitt explica que não está procurando o melhor jogador, mas o jogador que produz o resultado que precisa. Scaloni opera com lógica semelhante: não basta ser talentoso, é preciso ser funcionalmente adequado ao sistema. E é exatamente isso que está sendo avaliado esta noite em Dallas.
Giuliano Simeone, filho de Diego, tem 22 anos e acumula uma temporada sólida pelo Atlético de Madrid na La Liga 2025/2026, com participação direta em 11 gols entre campeonato e Champions League. Sua função no esquema argentino é diferente da do pai: não é um operário defensivo, mas um extremo com capacidade de condução e finalização. O problema é que nunca jogou uma partida oficial pela seleção principal em torneio de alto nível — e Scaloni precisa saber se ele aguenta a pressão antes de uma eventual oitava de final.
Nico Paz, do Como, na Itália, tem 20 anos e uma característica rara: consegue jogar tanto como meia quanto como segundo atacante, o que amplia as possibilidades de Scaloni em caso de necessidade de ajuste durante o mata-mata. Nas duas primeiras rodadas, ficou no banco. Esta é sua janela.

"Nico Paz tem qualidades que poucos jogadores jovens têm. Ele pensa rápido e tem personalidade para situações difíceis", afirmou Lo Celso em entrevista ao canal oficial da AFA antes da viagem para Dallas.
O que a Jordânia pode extrair desta noite para além do resultado
Do outro lado, a Jordânia chega ao AT&T Stadium — em Dallas — sem chances de classificação, mas com uma motivação específica: terminar a Copa do Mundo com ao menos um ponto, o que seria inédito na história do país no torneio. O técnico Jamal Sellami mantém a base que perdeu para Argélia e Áustria nas rodadas anteriores, com Ali Azaizeh e Odeh Fakhoury no ataque e Yazeed Abulaila no gol.
A questão sociológica que o jogo coloca é pertinente: o que significa para um país de 10 milhões de habitantes, com investimento esportivo público ainda incipiente, participar de uma Copa do Mundo sediada nos Estados Unidos? A presença jordaniana neste Mundial — conquistada em repescagem asiática — representa um avanço institucional real para a federação local, independentemente dos resultados em campo. O orçamento da Federação Jordaniana de Futebol para o ciclo 2022-2026 foi de aproximadamente US$ 18 milhões, menos de 2% do que a AFA movimentou no mesmo período.
A Argentina, por sua vez, chega ao jogo com a tranquilidade de quem já cumpriu o objetivo mínimo. O árbitro romeno Istvan Kovacs apita a partida, com transmissão ao vivo pela CazéTV, disponível no Disney+, a partir das 23h (horário de Brasília). Se Scaloni conseguir o que precisa desta noite — minutagem para Giuliano Simeone, confirmação tática de Nico Paz e uma vitória sem desgaste físico nos titulares —, a Argentina chega às oitavas de final com um plantel mais testado e, consequentemente, mais perigoso do que qualquer adversário imagina.










