Uma seleção campeã do mundo que precisa se reinventar sem o homem que a fez campeã — esse é o paradoxo que Lionel Scaloni carrega nos ombros às vésperas da estreia da Argentina na Copa do Mundo. E a contradição, longe de ser apenas retórica, tem uma resposta concreta sendo construída em campo: nos últimos treinos antes do confronto com a Argélia, marcado para a terça-feira, 16 de junho, o técnico argentino testou duas formações completamente distintas — uma com quatro defensores, outra com cinco — num exercício que diz menos sobre indecisão e mais sobre a amplitude tática que ele construiu nos últimos 18 meses, desde que Lionel Messi deixou a seleção albiceleste, em 2024.
O dia em que Scaloni escolheu não ter um plano fixo
Segundo informações do canal argentino TyC Sports, o treinador dividiu os trabalhos em dois momentos distintos. Na primeira configuração, com linha de quatro defensores, Scaloni alinhou Gonzalo Montiel, Cristian Romero, Nicolás Otamendi e Lisandro Martínez — uma espinha dorsal que já carrega a memória do título de 2022 no Catar. Num segundo momento, Facundo Medina substituiu Romero na lateral-esquerda, indicando que a dúvida não é apenas de sistema, mas também de peças individuais.
A segunda formação testada foi ainda mais reveladora: Scaloni esboçou um 5-3-2 com Giuliano Simeone, Romero, Otamendi, Lisandro Martínez e Nico González formando o bloco defensivo. Nesse esquema, os dois alas do Atlético de Madrid — Simeone e González — subiriam para o meio-campo na fase ofensiva, enquanto os três zagueiros permaneceriam mais fixos. A leitura tática é clara: diante de um adversário com capacidade de transição rápida como a Argélia, o técnico considera que a solidez defensiva pode ser mais valiosa do que a amplitude ofensiva nos primeiros 90 minutos do torneio.
"Scaloni não busca o time perfeito — busca o time que vai funcionar contra aquele adversário específico", observou o TyC Sports em análise publicada durante a semana de treinos da seleção.
No meio-campo, a situação é mais estável: Enzo Fernández, Rodrigo De Paul e Alexis Mac Allister têm vagas praticamente asseguradas nas duas formações testadas. A variação acontece na função de meia-atacante — se Scaloni optar pelos quatro defensores, Thiago Almada é o nome mais cotado para a posição, com Giuliano Simeone começando no banco. Nahuel Molina, lateral-direito de maior experiência no grupo, ainda não está descartado, mas segue se recuperando de lesão e não participou dos dois amistosos preparatórios.
Lautaro carrega o peso que antes era de Messi
A ausência de Messi na seleção desde 2024 reconfigurou não apenas a estrutura tática da Argentina, mas a própria identidade da equipe. Durante 17 anos, o astro do Inter Miami funcionou como o eixo gravitacional em torno do qual tudo girava — o sistema, a posse, a criação, a pressão da torcida. Com ele fora, Scaloni foi obrigado a distribuir responsabilidades que antes se concentravam num único jogador.
Lautaro Martínez, artilheiro da Inter de Milão com 24 gols na Serie A na temporada 2025/2026, emerge como o nome mais próximo de um protagonista absoluto. Ao seu lado, Julián Álvarez — que se recupera de lesão — deve começar o confronto contra a Argélia no banco de reservas, o que aumenta ainda mais a responsabilidade do camisa 22 de carregar o ataque nos minutos iniciais. A dupla que funcionou como suporte a Messi no Catar agora precisa ser o plano A, não o plano B.
"Lautaro está no melhor momento da carreira dele. Não precisamos de Messi para ganhar a Copa", afirmou um integrante da comissão técnica argentina, segundo o TyC Sports, em declaração que circulou nos bastidores durante a semana de treinos.
A comparação com o elenco que conquistou o título em 2022 é inevitável, mas não necessariamente desfavorável. Naquela campanha, a Argentina dependeu de intervenções individuais de Messi em momentos críticos — o gol contra a Holanda nas quartas, a assistência na final — para superar adversários que, taticamente, a pressionaram com eficiência. A equipe atual, ao menos no papel, apresenta maior equilíbrio coletivo: nenhum jogador concentra tanto a criação, o que pode tornar o time menos previsível para os adversários.
A Argélia como primeiro teste real do novo modelo argentino
A estreia contra a Argélia não foi escolhida ao acaso pelo calendário — ela representa, de fato, um desafio de calibre considerável para qualquer seleção. Os argelinos chegam à Copa do Mundo com Riyad Mahrez como referência técnica e uma geração de jogadores formados nas categorias de base de clubes europeus, especialmente franceses. Nos últimos dois anos, a seleção norte-africana acumulou resultados expressivos nas eliminatórias africanas, e a presença de jogadores como Ismaël Bennacer, do AC Milan, no meio-campo confere ao time uma capacidade de pressão alta que pode explorar exatamente as transições defensivas que Scaloni tenta blindar com o esquema de cinco defensores.
Conforme registrado pelo SportNavo durante a fase de preparação das seleções, a Argentina entrou na Copa do Mundo 2026 como uma das favoritas ao título, mas com a ressalva de que o processo de transição pós-Messi ainda não foi testado em jogos de eliminação direta. Os amistosos recentes — dois disputados sem Molina — deram respostas parciais, mas não definitivas sobre qual formação Scaloni prefere quando o resultado é obrigatório.
A escolha entre os quatro e os cinco defensores vai além de uma decisão tática pontual: ela sinaliza a filosofia com que a Argentina pretende disputar o torneio. Um esquema mais defensivo sugere uma abordagem de gestão de riscos, construindo a campanha sobre uma base sólida e aproveitando as transições. Quatro defensores, com Thiago Almada como peça criativa adicional, indica maior disposição para dominar o jogo e buscar a vitória com mais posse.
O que Scaloni decidir na manhã de terça-feira, 16 de junho, dirá muito sobre como ele lê a Argentina que tem em mãos — e se a seleção que chega a esta Copa é uma continuação daquela que venceu em 2022 ou algo genuinamente novo. Se a Argélia conseguir pressionar Enzo Fernández e De Paul no meio-campo e forçar a defesa argentina a trabalhar sem o suporte de um quinto homem, qual dos dois esquemas testados por Scaloni vai resistir ao primeiro grande teste desta geração?










