Se a negociação tivesse avançado mais um passo, o Corinthians estaria entrando no Brasileirão com um meio-campo diferente — mais vertical, com mais qualidade de passe entre linhas, exatamente o perfil que Dorival Júnior pediu à diretoria desde que assumiu o cargo. A realidade, porém, é que Alisson permanece no São Paulo após o Timão recusar pagar os R$ 1,5 milhão exigidos pelo empréstimo do jogador.

O técnico confirmou o encerramento das tratativas em entrevista coletiva realizada após a derrota por 2 a 1 para o Bahia, na Vila Belmiro, na estreia do Corinthians no Brasileirão 2026. A fala de Dorival foi direta e revelou o impacto da ausência do jogador no planejamento tático da equipe.

"Não me frustra. Eu sinto, porque é um garoto que tem qualidade, tem muita lenha para poder queimar. Para mim, comigo, foi muito importante. É uma característica que eu precisava, não aconteceu. Sinto muito. É uma pena, vamos olhar para frente e buscar o que for do nosso alcance"

A frase "é uma característica que eu precisava" não é retórica. Alisson, de 27 anos, acumula passagens pelo Internacional e pelo próprio São Paulo, onde tem se firmado como um meia com capacidade de progressão de bola e chegada à área — justamente o perfil que falta ao meio-campo corintiano, atualmente composto por Matheus Pereira, contratado nesta janela, e por nomes que não entregam a mesma dinâmica ofensiva.

Os números que explicam o interesse de Dorival em Alisson

Alisson disputou a maior parte de sua carreira profissional entre Internacional e São Paulo, clubes onde foi formado e desenvolvido. No São Paulo, o meia acumula participações diretas em gols em competições nacionais e internacionais, com capacidade de atuar tanto como meia central quanto como segundo volante de saída — versatilidade que amplia as opções táticas de qualquer treinador. Dorival Júnior já trabalhou com perfis semelhantes ao longo da carreira e tem preferência por meias que combinem volume de corrida com qualidade técnica no terço final. A ida de Alisson ao CT Joaquim Grava, sede de treinamentos do Corinthians, sinalizou que o acordo estava avançado — o jogador já conhecia as instalações e havia conversado com a comissão técnica antes de a negociação travar.

O que para o argentino é o "enganche" — o meia criativo que conecta setores e define o ritmo do jogo — para o português é o "médio criativo", aquele que distribui e aparece na área. Alisson reúne características dos dois arquétipos: tem a leitura de jogo do enganche sul-americano e a disciplina posicional do médio europeu. Esse equilíbrio é raro no mercado interno brasileiro e explica por que Dorival foi categórico ao pedir o jogador à diretoria.

A estrutura financeira que travou o negócio com o São Paulo

O São Paulo estruturou a proposta de empréstimo em três camadas: R$ 1 milhão à vista no momento da assinatura, R$ 500 mil no segundo semestre de 2026 e um bônus adicional de R$ 1,5 milhão caso Alisson atuasse por pelo menos 45 minutos em 20 partidas ou mais ao longo da temporada. O valor fixo total chegava a R$ 1,5 milhão, com potencial de dobrar se as metas de desempenho fossem atingidas.

O presidente Osmar Stabile resistiu a comprometer o caixa corintiano com essa estrutura. O Corinthians atravessa um momento de restrição financeira severa — os quatro reforços anunciados até agora nesta janela (o zagueiro Gabriel Paulista, o meio-campista Matheus Pereira, o lateral-direito Pedro Milans e o atacante Kaio César) já representam um esforço considerável de captação. Absorver mais R$ 1 milhão à vista, sem garantia de retorno imediato em campo, foi o ponto de ruptura da negociação.

"Naquele dia eu só falei porque estava tudo quase encerrado e finalizado", explicou Dorival, reconhecendo que a antecipação pública da contratação foi feita por acreditar que o acordo estava praticamente concluído.

A transparência do técnico ao admitir o erro de comunicação é relevante: ao confirmar publicamente o interesse em Alisson antes da assinatura, Dorival expôs a fragilidade do processo decisório interno do clube — uma negociação que chegou ao ponto de o jogador visitar o CT sem que a diretoria tivesse garantido os recursos necessários para fechá-la.

O vazio tático que Alisson deixa no planejamento de Dorival

Com a saída de Alisson da equação, o Corinthians inicia o Brasileirão 2026 com um meio-campo que ainda não demonstrou entrosamento suficiente. A derrota por 2 a 1 para o Bahia na estreia — resultado que já coloca o time em desvantagem na tabela desde a primeira rodada — evidenciou a falta de um jogador capaz de criar entre as linhas e conectar a saída de bola com o ataque.

Matheus Pereira, contratado nesta janela, tem características mais voltadas para a construção de jogo a partir de posições mais recuadas, o que o diferencia do perfil de Alisson, que prefere receber em zonas adiantadas. A ausência de um meia com esse perfil obriga Dorival a buscar soluções dentro do elenco atual — ou a retornar ao mercado em busca de alternativas viáveis dentro das restrições financeiras do clube.

O Corinthians tem pela frente uma sequência intensa no Brasileirão, competição em que a consistência no meio-campo é determinante para o aproveitamento de pontos. O próximo compromisso do Timão no campeonato será uma oportunidade para Dorival testar combinações e encontrar a dupla de meio-campo que entregue o que Alisson entregaria — tarefa que, com o elenco disponível, exige criatividade tática e paciência com o processo.

Se a negociação tivesse avançado mais um passo, o Corinthians estaria entrando no Brasileirão com um meio-campo diferente — mas a realidade é que o Timão perdeu a chance de contratar o jogador que o próprio técnico pediu, e agora precisa encontrar respostas dentro de casa.