Se o ciclo de Pep Guardiola no Manchester City terminasse hoje, ele encerraria com 17 títulos, seis Premier Leagues e uma Champions League conquistada em 2023 — números que nenhum treinador na história do clube jamais chegou perto. Mas os sinais que se acumulam desde março de 2026 apontam para algo diferente do que uma despedida triunfal.

A eliminação nas oitavas de final da Champions League para o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, foi o estopim mais visível. Guardiola não tentou disfarçar o impacto. Na zona mista, ele falou com uma franqueza que raramente aparece em treinadores ainda comprometidos com um projeto de longo prazo.

"Um pouco sim, fim de ciclo. As coisas não são eternas, nem tudo dura para sempre. Ganhamos seis títulos da Premier League em sete anos, e na Champions chegamos às quartas, semifinais e final em todos os anos", disse o técnico espanhol após a derrota.

O que Guardiola viveu no Barcelona e no Bayern já aconteceu antes no City

Quem acompanha a carreira de Pep sabe que esse roteiro tem precedente. No Barcelona, foram quatro temporadas — e a quinta já não veio. No Bayern de Munique, três anos e saída pela porta da frente. No City, chegou em 2016 e está na décima temporada consecutiva, o maior ciclo da sua carreira como técnico. Historicamente, quando Guardiola começa a falar em "ciclo", a contagem regressiva já começou.

O Daily Mail noticiou ainda em 2024 que o treinador planejava deixar o clube ao fim da temporada 2024/25. O contrato foi renovado até junho de 2027, mas há uma cláusula de saída que pode antecipar o desligamento. Segundo o mesmo jornal britânico, após a final da Carabao Cup contra o Arsenal, Guardiola pretendia tirar alguns dias de folga para refletir sobre os próximos passos da carreira — uma pausa que, no vocabulário de Pep, costuma preceder decisões definitivas.

Os números da temporada 2025/26 e o colapso defensivo do City

Quem olha apenas para os títulos não enxerga o que os dados da temporada atual revelam. O City registra uma média de 1,5 gols sofridos por partida em 2025/26 — a pior marca desde a chegada de Guardiola ao clube, em 2016/17. Para colocar em perspectiva com métricas modernas: times que dominam o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) costumam manter esse índice abaixo de 8,0; o City desta temporada opera bem acima disso nas fases críticas dos jogos, o que indica pressão defensiva menos eficiente e blocos mais passivos fora de casa.

Contra o Real Madrid, a leitura tática ficou ainda mais exposta. O City não conseguiu manter progressive passes consistentes no terço final, limitando a criação de xG (expected goals — a probabilidade estatística de um chute se converter em gol). Enquanto o time de Ancelotti criava situações de alto xA (expected assists — a qualidade das chances geradas por passes), o City se via preso em transições lentas e sem profundidade. O próprio Guardiola reconheceu a superioridade madridista.

"A melhor equipe ganhou hoje. Não temos o ritmo que tem o Real Madrid, em todas as áreas. É um time de ida e volta. Estiveram melhores, mais capacidade de correr, de defender em todas as zonas", admitiu o treinador na zona mista do Bernabéu.

Além disso, o City acumulou 13 derrotas na temporada até o confronto europeu — o maior número desde 2016/17, justamente o primeiro ano de Guardiola no comando. O paralelo não é coincidência: foi também em 2016/17 que o projeto ainda estava sendo construído. Agora, parece estar sendo desconstruído.

Como o SportNavo já mapeou ao longo desta temporada, times que perdem consistência nas defensive actions — o conjunto de interceptações, desarmes e pressões no campo adversário — tendem a ver seus ciclos de dominância se fragmentar rapidamente, especialmente na Champions.

A saída de Txiki e a chegada de Hugo Viana mudam tudo

Tem um detalhe que vai além dos resultados em campo e que pode ser o fator mais determinante de todos: Txiki Begiristain, diretor de futebol do City por 12 anos, anunciou que deixará o cargo após a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Ele será substituído por Hugo Viana, vindo do Sporting. Begiristain foi o arquiteto das contratações que sustentaram o projeto de Guardiola — Erling Haaland, Rodri, Jack Grealish, entre outros. Sem ele, a dinâmica de confiança entre comissão técnica e diretoria muda estruturalmente.

No futebol, quem não tem cão caça com gato — e Guardiola sempre caçou com o cão certo ao lado. A parceria com Txiki era parte essencial do modelo. Com um novo diretor de futebol chegando, o técnico precisaria reconstruir essa relação do zero, algo que, na décima temporada de um mesmo clube, poucos treinadores topam enfrentar.

Enzo Maresca já está no radar e o City não espera passivo

Nos bastidores, o Manchester City não ficou parado. O clube conversou informalmente com Enzo Maresca, ex-Chelsea, que sempre foi apontado pelo próprio Guardiola como o nome mais preparado para herdar o projeto. Não é um plano B improvisado — é uma sucessão que Pep ajudou a desenhar ao longo dos anos.

Mas quem seria Guardiola depois do City? Seleções nacionais entram como opção natural para treinadores que saem de grandes clubes após ciclos longos. A seleção brasileira, a inglesa e até a alemã são especuladas nos corredores europeus, embora nenhuma negociação concreta tenha sido confirmada até agora.

O Manchester City volta a campo pela Premier League ainda nesta semana, com o campeonato inglês fora de alcance segundo o próprio Guardiola. A Copa da Inglaterra segue como único objetivo realista para fechar a temporada — e talvez como o palco da última decisão de Pep no Etihad.