Se um diurético tivesse sido administrado a Diego Maradona nas horas que antecederam sua morte, o diagnóstico seria outro. Essa é a afirmação do intensivista Mario Schiter, que depôs por quase cinco horas na décima audiência do julgamento realizado em San Isidro, 30 quilômetros ao norte de Buenos Aires. A declaração não é especulação clínica vaga — é o diagnóstico retrospectivo de um médico que atendeu o craque no início dos anos 2000 e depois participou como observador na autópsia realizada em 25 de novembro de 2020, data da morte do campeão mundial de 1986.

A resposta ao hipotético, neste caso, tem nome e prazo. Schiter foi categórico: com a administração correta do medicamento, Maradona "deveria estar francamente melhor em aproximadamente 48 horas". O quadro clínico que ele descreveu — acúmulo de líquido no pericárdio, na pleura e no abdômen — é, segundo o especialista, rotina em unidades de terapia intensiva. A diferença, segundo ele, é que Maradona não estava numa UTI.

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O quadro clínico que os médicos ignoraram em novembro de 2020

O acúmulo de edemas identificado na autópsia de Maradona não surgiu de forma súbita. Schiter descreveu uma condição compatível com insuficiência cardíaca congestiva descompensada — um diagnóstico que, em ambiente hospitalar adequado, tem protocolo bem estabelecido. O especialista foi direto ao comparar com casos que trata diariamente:

"Nós os descarregamos de volume com diuréticos e depois de 12 horas já estão em casa", afirmou Schiter durante o depoimento em San Isidro.

O testemunho de Schiter se somou ao de uma dezena de especialistas ouvidos ao longo do julgamento, todos convergindo para a mesma conclusão: Maradona tinha "água por toda parte" no momento da morte. A causa oficial registrada foi edema pulmonar associado a parada cardiorrespiratória. O ex-jogador passava por uma internação domiciliar após uma neurocirurgia realizada três semanas antes, sem complicações relatadas no procedimento em si.

Os sete réus e a hierarquia de responsabilidades no processo

O principal acusado no julgamento é o neurocirurgião Leopoldo Luque, médico particular de Maradona e responsável pela internação domiciliar. Ao lado dele, outros seis profissionais de saúde enfrentam acusações por homicídio com dolo eventual — o que, na legislação argentina, implica que os réus tinham consciência de que suas ações poderiam levar à morte. A pena máxima prevista é de 25 anos de prisão.

O quadro clínico que os médicos ignoraram em novembro de 2020 Se Maradona tivess
O quadro clínico que os médicos ignoraram em novembro de 2020 Se Maradona tivess

A audiência desta semana, no entanto, foi marcada por um episódio que interrompeu os trabalhos abruptamente. Luque reproduziu o vídeo da autópsia de Maradona sem qualquer aviso prévio sobre o conteúdo das imagens. Na sala estava presente Gianinna Maradona, filha do ídolo, que não conseguiu se retirar a tempo. Ao ver o corpo do pai projetado na tela, ela correu em direção à saída gritando: "Você é um filho da puta!" A sessão foi suspensa em seguida.

Os sete réus e a hierarquia de responsabilidades no processo Se Maradona tivesse
Os sete réus e a hierarquia de responsabilidades no processo Se Maradona tivesse
"Ele tinha líquido no pericárdio, na pleura, no abdômen", descreveu o intensivista Mario Schiter ao tribunal, sintetizando o estado clínico de Maradona no momento da morte.

Segundo apuração do SportNavo, a exibição sem aviso prévio fere um protocolo informal estabelecido nas audiências anteriores: os advogados costumavam alertar Gianinna com antecedência sempre que imagens sensíveis seriam apresentadas, permitindo que ela se retirasse. Desta vez, isso não aconteceu — e a responsabilidade pelo episódio recai diretamente sobre a defesa de Luque.

O que o julgamento revela sobre o padrão de cuidado médico ao redor de Maradona

A análise do depoimento de Schiter aponta para uma falha sistêmica, não apenas individual. Um paciente com sinais evidentes de insuficiência congestiva — edemas generalizados, comprometimento pleural e pericárdico — estava sendo monitorado em regime domiciliar sem acesso imediato a recursos de terapia intensiva. A pergunta que o julgamento tenta responder é objetiva: quem sabia, o que sabia, e quando.

Errou.

Esse é o núcleo da acusação por dolo eventual: os profissionais envolvidos não precisavam ter a intenção de matar para serem responsabilizados. Basta que tenham assumido o risco de que suas omissões ou decisões equivocadas resultassem em morte. O depoimento de Schiter reforça a tese da acusação ao demonstrar que o tratamento correto existia, era acessível e tinha eficácia documentada — e não foi aplicado.

Gianinna, o vídeo e o peso humano de um julgamento histórico

O julgamento de Maradona não é apenas um processo técnico sobre padrões de cuidado médico. É também um evento de altíssima carga emocional para a família do ex-jogador. Gianinna Maradona, que comparece com frequência às audiências, se tornou involuntariamente o símbolo mais visível do impacto humano do caso — e o episódio desta semana, com a exibição não anunciada do vídeo da autópsia, expôs a brutalidade processual que envolve o caso.

A morte de Diego Armando Maradona, em 25 de novembro de 2020, ocorreu quando ele tinha 60 anos. O julgamento que apura as responsabilidades por essa morte segue em curso, com a próxima audiência programada para San Isidro. Até o momento, oito profissionais de saúde respondem ao processo — sete por homicídio com dolo eventual e uma oitava acusada em categoria distinta. O tribunal argentino ainda não fixou data para o encerramento da fase de depoimentos.