A última vez que o Brasil precisou substituir um jogador depois da convocação oficial para uma Copa do Mundo foi em 2006, na Alemanha, quando o volante Edmílson deixou o torneio com lesão no menisco e foi substituído por Mineiro, do São Paulo. Vinte anos depois, o risco de um corte de perfil ainda mais simbólico paira sobre a Copa do Mundo de 2026: Neymar, diagnosticado com edema na panturrilha direita após a derrota do Santos para o Coritiba no dia 17 de maio, pela 16ª rodada do Brasileirão, chega à véspera da apresentação na Granja Comary como o nome mais incerto da lista de 26 convocados por Carlo Ancelotti.
O prazo que a FIFA impõe e o que a CBF ainda não confirmou
O regulamento da FIFA para o Mundial de 2026 é preciso: qualquer substituição na lista oficial só pode ocorrer até 24 horas antes da estreia da respectiva seleção, mediante laudo médico que comprove lesão grave ou enfermidade. No caso do Brasil, que enfrenta Marrocos no dia 13 de junho no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a data-limite é 12 de junho. O substituto precisa, obrigatoriamente, constar entre os 55 nomes da pré-lista enviada pela CBF à FIFA em 11 de maio. Quem entrar herda o número do cortado e passa a integrar oficialmente o grupo. A exceção vale apenas para goleiros, que podem ser trocados em qualquer fase da competição.
O presidente da CBF, Samir Xaud, foi cauteloso ao ser questionado sobre a situação de Neymar após a reeleição de Felipe Feijó para a Federação Alagoana de Futebol.
"Em relação a Neymar, acho que isso também cabe à comissão técnica. Eles que acompanham mais de perto. A gente espera é que estejam os 26 atletas bem para representarem a Seleção Brasileira na Copa do Mundo", disse Xaud.
A cautela institucional contrasta com a informação circulante nos bastidores da comissão técnica: segundo o blog do jornalista Diogo Dantas, do Globo, o edema de Neymar não é leve e pode demandar mais tempo de recuperação do que o divulgado pelo Santos. A apresentação dos jogadores na Granja Comary está marcada para 27 de maio, quando exames mais detalhados definirão o diagnóstico real.
Os nomes da pré-lista que aguardam uma convocação
Se o corte se confirmar, a escolha do substituto não será arbitrária — ela estará restrita ao universo dos 55 pré-convocados, o que já delimita o campo de análise. Dois atacantes surgem com mais frequência nas projeções: João Pedro, do Brighton, e Pedro, do Flamengo. O primeiro acumula números expressivos na Premier League 2025/2026 e ocupa posição semelhante à de Neymar no setor ofensivo esquerdo. O segundo é referência de área, perfil diferente do camisa 10, mas com histórico consolidado na seleção.
Há ainda a possibilidade de Ancelotti acionar um jogador de característica mais aberta, como Martinelli, do Arsenal, que tem atuado nas duas pontas e oferece profundidade defensiva que o técnico italiano valoriza em suas construções táticas. A lógica do treinador ao longo da temporada 2025/2026 no comando da Seleção Brasileira tem privilegiado jogadores com capacidade de pressão alta e transições rápidas — o que favorece perfis mais dinâmicos em detrimento do estilo mais individual associado a Neymar.
"Quando você perde um jogador que carrega a bola e cria desequilíbrio sozinho, você não substitui com um nome — você substitui com um sistema", observou um membro da comissão técnica de uma seleção europeia em entrevista ao SportNavo durante o período de preparação para o torneio.
O peso histórico de uma ausência que já aconteceu antes
O histórico de lesões de Neymar nas Copas do Mundo é uma variável que a análise sociológica do esporte não pode ignorar. Em 2014, o atacante deixou o torneio com fratura na vértebra L3 após choque com Camilo Zúñiga, do Colômbia, nas quartas de final. Em 2022, no Catar, sofreu entorse no tornozelo direito na estreia contra a Sérvia e perdeu duas partidas da fase de grupos. A recorrência de lesões em momentos decisivos não é apenas um dado médico — ela revela uma estrutura de dependência que o futebol brasileiro construiu ao longo de duas décadas sem desenvolver, de forma sistemática, um sucessor funcional para o camisa 10.
Desde 1970, o Brasil já realizou 16 cortes por lesão entre a convocação e a estreia em Copas do Mundo. O precedente mais dramático fora da Alemanha-2006 foi o de Emerson, em 2002, que se machucou num rachão no estádio Ulsan, na Coreia do Sul, a menos de 24 horas da estreia contra a Turquia, e foi substituído por Ricardinho, do Corinthians. O Brasil foi campeão. A ausência de um titular não é sentença — mas exige que o plano B esteja tão bem elaborado quanto o plano A.
O que os amistosos de maio ainda podem revelar
Com Neymar fora dos amistosos contra Panamá, em 31 de maio, e Egito, em 5 de junho, Ancelotti terá duas janelas para observar combinações ofensivas sem o camisa 10. Esses jogos, que seriam ensaios táticos com o grupo completo, tornam-se agora testes involuntários de adaptação. A comissão técnica precisará avaliar não apenas quem joga bem no lugar de Neymar, mas quem consegue manter a identidade coletiva que o treinador italiano vem construindo desde que assumiu o comando da seleção.
O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos no MetLife Stadium. Neymar tem exatamente 17 dias a partir desta sexta-feira para convencer a comissão médica da CBF — e, em seguida, a da FIFA — de que estará apto. Aos 34 anos, cada dia de recuperação conta de forma diferente do que contava aos 22.









