Se a temporada do Real Madrid terminasse nesta quinta-feira, 7 de maio, o clube mais vitorioso da Europa encerraria o ciclo sem Copa do Rei, sem Champions League e fora da briga pelo título de La Liga. A realidade, porém, é ainda mais cruel: a temporada não terminou, e o domingo traz um Clásico contra o Barcelona que pode consagrar o rival campeão no próprio Camp Nou.
Uma La Liga que o Real Madrid perdeu antes de perder
Quem acompanhou o ciclo de Fabio Capello no Real Madrid dos anos 90 sabe que elencos milionários podem implodir com velocidade assustadora. Capello ganhou La Liga em 1996-97 com 92 pontos — um recorde à época — e foi demitido meses depois. O padrão se repete: quando o vestiário racha, o técnico é sempre o primeiro a pagar a conta. Álvaro Arbeloa, ex-lateral da própria casa, vive exatamente esse roteiro em 2026, com a diferença de que nem chegou perto dos títulos que justificariam alguma clemência da torcida.
A eliminação precoce na Copa do Rei e na Champions, combinada ao distanciamento na tabela de La Liga, criou um vácuo de autoridade que Arbeloa não conseguiu preencher. Segundo o jornal espanhol Marca, o clima no CT de Valdebebas é descrito internamente como "extremamente delicado", com o presidente Florentino Pérez tentando conter a tensão nos bastidores sem sucesso visível.
Valverde, Tchouaméni e o vestiário que virou campo minado
O episódio mais grave da semana envolveu Federico Valverde e Aurélien Tchouaméni. Segundo o Marca, os dois já haviam se desentendido em treino na véspera, mas o conflito escalou nesta quinta-feira a um ponto descrito pela publicação como "muito grave". Valverde teria se recusado a cumprimentar o francês antes do treino — um gesto pequeno que, num vestiário já fraturado, funciona como faísca em depósito de pólvora. A discussão terminou com o uruguaio sofrendo um corte acidental, atendimento hospitalar e uma reunião de emergência na sede do clube, com possibilidade de medidas disciplinares contra ambos.
Há um paralelo histórico desconfortável aqui. O Inter de Milão de 2010, aquele que conquistou a tríplice coroa com Mourinho, tinha tensões internas parecidas — mas Mourinho era exatamente o tipo de figura que canalizava o conflito para dentro de campo. Arbeloa, até agora, não demonstrou essa capacidade. Lembra um pouco o Mourinho do segundo ciclo no Chelsea, em 2015, quando o vestiário virou contra ele sem que ninguém conseguisse identificar o momento exato em que tudo desandou — como na cena de Succession em que o patriarca percebe que perdeu o controle da empresa, mas ainda finge que não.
A petição de Mbappé e o peso de 41 gols que não bastam
Kylian Mbappé lidera a artilharia da Champions League nesta temporada e acumula números ofensivos expressivos em La Liga. Ainda assim, torcedores organizaram uma petição pedindo sua saída do clube — um fenômeno raro no futebol europeu, onde artilheiros raramente viram alvo de mobilização popular contrária. O problema de Mbappé, segundo veículos espanhóis como Onda Cero e The Athletic, não é técnico: é de vestiário, de postura e de encaixe num grupo que já não acredita no projeto coletivo.
O SportNavo acompanhou a evolução desse impasse ao longo da temporada, e o que chama atenção é a velocidade com que a narrativa virou: em agosto de 2025, Mbappé era o símbolo da renovação merengue; em maio de 2026, é o nome que divide a torcida ao meio.
Alaba sai, folha alivia e o Real começa a reconstrução pelo domingo
David Alaba representa, talvez, o capítulo mais melancólico dessa crise. O austríaco chegou em 2021 para ocupar a vaga deixada por Sergio Ramos, herdou o salário do ídolo — 25 milhões de euros brutos anuais, aproximadamente R$ 145 milhões — e na temporada de estreia ajudou o Real a conquistar La Liga e a Champions de 2021-22 ao lado de Éder Militão. Depois veio a ruptura do ligamento cruzado anterior, o desgaste de cartilagem e uma recuperação que nunca o devolveu ao nível anterior. Nesta temporada, acumula pouco mais de 400 minutos em campo. O jornal As aponta que sua saída está encaminhada, sem destino definido e sem aparições públicas — uma despedida silenciosa para um jogador que merecia outra cerimônia.
A liberação do salário de Alaba dará ao Real Madrid margem orçamentária para buscar um zagueiro no mercado de verão. Mas o problema imediato é outro: no domingo, às 16h (horário de Brasília), o clube chega ao Camp Nou com um vestiário rachado, um técnico sem autoridade e a possibilidade concreta de ver o Barcelona levantar o troféu de La Liga diante de seus olhos. O Real Madrid de Florentino Pérez já sobreviveu a crises maiores — mas nenhuma delas chegou a um Clásico com jogadores se machucando nos próprios treinos. São 7 os pontos que separam os dois clubes na tabela.








