Quando Sebastian Sawe cruzou a linha de chegada na Maratona de Londres neste domingo (26), o cronômetro marcava 1h59min30s — e o atletismo mundial nunca mais seria o mesmo. Aos 30 anos, o queniano se tornou a primeira pessoa na história a completar os 42 km de uma maratona abaixo das duas horas em uma prova oficial, derrubando o recorde que pertencia ao compatriota Kelvin Kiptum (2h00min35s), registrado na Maratona de Chicago em outubro de 2023.
Uma tarde que o atletismo não vai esquecer
A tarde londrina entregou mais do que um recorde isolado. O etíope Yomif Kejelcha cruzou em segundo lugar com 1h59min41s — tempo que, por si só, também superaria o antigo recorde mundial de Kiptum. Jacob Kiplimo, de Uganda, completou o pódio em 2h00min28s, ficando a apenas sete segundos da marca histórica que pertenceu ao queniano falecido. Em uma única tarde, Londres viu dois atletas fazerem o que nenhum ser humano havia conseguido em uma prova homologada.
Sawe não escondia a emoção ao falar sobre o feito logo após cruzar a meta.
"Estou me sentindo bem. Eu achava que era possível. É um dia que vou lembrar para sempre", disse o maratonista queniano.
O bicampeão olímpico Eliud Kipchoge, que em 2019 havia corrido os 42 km em 1h59min40s no projeto Ineos 1:59 Challenge — prova não oficial e não homologada — também reagiu à conquista do compatriota e de Kejelcha com palavras que refletem a grandeza do momento.
"É um dia histórico para as maratonas! Ver dois atletas quebrarem a barreira mágica das 2 horas na Maratona de Londres é a prova de que estamos apenas no começo do que é possível quando talento, progresso e uma crença inabalável no potencial humano se unem. Que essa conquista inspire a próxima geração e lembre a todos no mundo que nenhum ser humano tem limites", declarou Kipchoge.
O que explica uma performance dessa magnitude
Correr uma maratona em menos de duas horas exige sustentar um ritmo de aproximadamente 2min50s por quilômetro durante toda a prova — uma velocidade que a maioria dos corredores amadores sequer consegue manter por 400 metros. A ciência por trás dessa façanha combina múltiplos fatores: genética voltada para o metabolismo aeróbico de elite, anos de altitude de treinamento no Quênia, estratégia de pacing milimetricamente calculada e tecnologia de ponta nos calçados.
A trajetória de Sawe até este domingo reforça a consistência que grandes marcas exigem. Esta foi sua quarta maratona consecutiva vencida, incluindo o título da própria Maratona de Londres em 2025, quando completou a prova em 2h02min27s. Em menos de um ano, o atleta reduziu seu tempo em quase três minutos — uma evolução que vai além do treinamento convencional e aponta para um pico atlético cuidadosamente planejado.
Na avaliação do SportNavo, a combinação entre o percurso de Londres — considerado um dos mais rápidos do circuito mundial por seu traçado plano e o suporte logístico de lebres profissionais — e as condições climáticas favoráveis desta edição criaram o ambiente ideal para que Sawe executasse a estratégia perfeita: saída controlada, aceleração progressiva e reta final dominante sobre Kejelcha, que foi ultrapassado apenas nos quilômetros finais da disputa.
A sombra de Kiptum e o contexto emocional do recorde
O recorde que Sawe quebrou carrega um peso emocional particular. Kelvin Kiptum tinha apenas 24 anos quando estabeleceu a marca de 2h00min35s em Chicago, em outubro de 2023. Quatro meses depois, em fevereiro de 2024, ele morreu em um acidente de carro no Quênia, levando consigo o que prometia ser uma das carreiras mais dominantes da história do atletismo. Sawe, portanto, não superou apenas um número — ele avançou sobre um legado ainda aberto e doloroso para o atletismo queniano.
A Maratona de Londres, palco do feito, é uma das mais tradicionais do mundo e reúne mais de 50 mil atletas correndo pelas ruas da capital britânica, passando por pontos icônicos da cidade. O prestígio da prova e sua estrutura de alto nível contribuem para que o circuito atraia os melhores especialistas do planeta a cada edição.
Prêmios, homologação e o próximo passo
A dimensão financeira do recorde também é histórica. Sawe receberá US$ 55 mil pelo primeiro lugar, acrescidos de bônus por três conquistas distintas: US$ 25 mil pelo recorde do percurso de Londres, US$ 125 mil pelo recorde mundial e US$ 150 mil por ter completado a prova abaixo de 2h02min. O total chega a US$ 355 mil — aproximadamente R$ 1,8 milhão na cotação atual.
O tempo de 1h59min30s ainda aguarda confirmação oficial da World Athletics, a Federação Internacional de Atletismo, para ser formalmente homologado como recorde mundial. De acordo com o SportNavo, a tendência é que a ratificação ocorra nas próximas semanas, sem obstáculos, uma vez que a prova de Londres segue todos os protocolos exigidos pela entidade. Quando oficializado, Sawe figurará nos livros de história ao lado de nomes como Roger Bannister — o britânico que, em 1954, foi o primeiro a correr uma milha abaixo de quatro minutos, marca que também parecia intangível até o dia em que deixou de ser.









