Seis ataques em 48 horas — esse é o número que resume a escalada mais violenta já registrada no Estreito de Ormuz desde a Guerra dos Petroleiros, entre 1984 e 1988, quando o Irã e o Iraque destruíram mais de 400 embarcações comerciais ao longo de quatro anos de conflito. Naquela época, o mundo levou meses para sentir o impacto no preço do barril. Agora, em 2026, os mercados reagem em horas.
O gargalo que move um quinto do petróleo do planeta
Os dados são implacáveis: cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo passa pelo Estreito de Ormuz, a faixa de mar de aproximadamente 54 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Para se ter a dimensão do que está em jogo, basta comparar com outro momento crítico da história recente — em 2019, quando drones atacaram as instalações da Aramco na Arábia Saudita e derrubaram temporariamente metade da produção saudita, o preço do barril do tipo Brent disparou 15% em um único pregão. A sequência atual de incidentes é estruturalmente mais grave: não atinge uma plataforma, mas a rota inteira.
O levantamento feito pelo SportNavo a partir dos registros da UKMTO (United Kingdom Maritime Trade Operations) mostra a progressão dos incidentes: um navio graneleiro tailandês, o Mayuree Naree, foi atingido a 11 milhas náuticas ao norte da península de Musandam, em Omã, na madrugada de quarta-feira (11 de março). No mesmo dia, outras duas embarcações relataram ter sido atingidas. Na quinta-feira (12), um sexto navio de carga foi atacado por um projétil desconhecido a 35 milhas náuticas ao norte de Jebel Ali, principal porto da região, próximo a Dubai.
Petroleiros em chamas e o custo que já chegou às seguradoras
A sequência de ataques não se limitou a danos materiais pontuais. Dois petroleiros estrangeiros foram incendiados em águas iraquianas após um ataque iraniano, resultando em pelo menos uma morte e no resgate de 38 tripulantes. Um cargueiro britânico sofreu um pequeno incêndio após ser atingido por drones a cerca de 23 milhas náuticas a nordeste de Doha, no Catar — incidente classificado pelo Ministério das Relações Exteriores catariano como "escalada perigosa e inaceitável, que ameaça a segurança das rotas marítimas".
"A força naval do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica identificou e interceptou, no Estreito de Ormuz, dois navios infratores", afirmou o comando militar iraniano em comunicado oficial, alegando que as embarcações não teriam autorização para percorrer a rota e teriam manipulado sistemas de navegação.
Para as seguradoras, a conta já está aberta. Empresas de navegação e resseguradoras globais começaram a revisar as apólices de guerra para embarcações que transitam pelo Golfo Pérsico, elevando os prêmios de forma expressiva — um movimento que, historicamente, precede o encarecimento do frete e, por consequência, do preço final dos derivados de petróleo nos mercados consumidores, incluindo o Brasil.
O HMS Dragon e a resposta militar que tenta reabrir a passagem
Em resposta direta à escalada, o Reino Unido anunciou no sábado (9 de maio) o deslocamento do destruidor HMS Dragon, então no Mediterrâneo, para o Oriente Médio. A missão, co-liderada com a França, tem como objetivo explícito garantir a segurança da navegação comercial no estreito — fechado pelo Irã há dois meses como represália aos ataques coordenados de EUA e Israel que mataram o líder supremo Ali Khamenei em 28 de fevereiro.
"Garantir a segurança do estreito, quando as condições permitirem", declarou o Ministério da Defesa britânico ao justificar o envio do navio de guerra, descrevendo a decisão como parte de um esforço de "planejamento rigoroso" dentro da coalizão internacional.
Os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait também ativaram suas defesas aéreas no domingo (10 de maio), abatendo drones atribuídos ao Irã sem registrar feridos. Os EAU afirmaram formalmente que Teerã é responsável pelo ataque em seu território — uma acusação que, se confirmada diplomaticamente, pode ampliar o escopo da coalizão militar já em formação.
O preço do barril e o que vem a seguir para o comércio global
A comparação histórica mais precisa para o momento atual remete à crise do Canal de Suez em 1956, quando o bloqueio da rota forçou navios a contornar toda a África, encarecendo o transporte de energia em mais de 30% e gerando uma recessão setorial que durou 18 meses. O Estreito de Ormuz, diferentemente do Canal de Suez, não tem rota alternativa viável para o volume de petróleo que escoa por ali — o que torna cada dia de bloqueio ou instabilidade diretamente proporcional a pressão sobre os preços.
Com o HMS Dragon a caminho e a coalizão franco-britânica em fase de organização, o cenário mais imediato aponta para uma tentativa de reabertura supervisionada da rota ainda no segundo trimestre de 2026. A Guarda Revolucionária iraniana, no entanto, já sinalizou que pode atacar "navios inimigos" caso seus próprios petroleiros continuem sendo interceptados — e os EUA inutilizaram dois deles no Golfo de Omã na sexta-feira (8 de maio). Seis ataques em 48 horas transformaram o Estreito de Ormuz num campo aberto.








