A última vez que o Brasil chegou a uma Copa do Mundo sem seu principal jovem ofensivo foi em 2002, quando Ronaldinho Gaúcho — recém-saído de uma temporada irregular no PSG — entrou na lista quase como coadjuvante e acabou sendo o passe decisivo para o gol do pentacampeonato. A situação de Estêvão em 2026 é diferente, e de um modo que dói mais: ele não foi preterido por escolha técnica, mas consumido por uma ruptura de grau 4 na coxa direita, diagnosticada em 22 de abril, que encerrou qualquer debate antes que ele sequer pudesse travar. A pré-lista de 55 nomes entregue à Fifa nesta segunda-feira, 11 de maio, carrega o peso desse nome ausente em cada linha que tenta compensá-lo.
A cronologia de uma ausência que a seleção já sabia de cor
Reparemos no detalhe que diz muito sobre como as federações modernas administram crises de imagem: a CBF ficou semanas em silêncio calculado, deixando o Chelsea — clube com quem Estêvão tem contrato — conduzir a comunicação sobre a lesão. O clube inglês nunca divulgou oficialmente o diagnóstico; quem o revelou foi uma apuração de bastidores do The Athletic, do New York Times. Enquanto isso, o estafe do jogador travou uma queda de braço com o Chelsea sobre o tratamento: o clube queria cirurgia imediata, o jogador queria uma tentativa conservadora para manter vivas as chances de Mundial. Estêvão chegou a viajar ao Brasil e se apresentar ao Palmeiras, mas internamente, mesmo lá, o ceticismo era a tônica. A seleção, que tinha acesso às informações médicas, já o considerava fora há semanas — a pré-lista apenas formalizou o que os bastidores sussurravam desde o fim de abril.
O número que contextualiza a perda é este: cinco gols em 417 minutos com a camisa brasileira sob Ancelotti — uma média de um gol a cada 83 minutos, ritmo que nenhum outro atacante da geração atual chegou perto de replicar na era do técnico italiano. Para ter um paralelo europeu, é a taxa de eficiência que Thierry Henry mantinha pelo Arsenal entre 2002 e 2004, quando o francês chegou a marcar em seis jogos consecutivos na Premier League. Perder um jogador com essa consistência a dois meses de uma Copa não é reposição de peça — é revisão de projeto.
Os cinco que mais sentem o vazio no esquema de Ancelotti
O primeiro nome da lista é Pedro, do Flamengo, que aparece na pré-lista de 55 e que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo o mais beneficiado e o mais prejudicado pela ausência de Estêvão. Beneficiado porque ganhou espaço que talvez não tivesse; prejudicado porque, no esquema que Ancelotti desenhava, Estêvão funcionava como o criador de espaço que Pedro precisaria para finalizar. Sem o drible curto e a progressão pelo lado direito do jovem do Chelsea, o centroavante flamenguista vai receber bolas em condições mais fechadas e com marcação mais concentrada.
Neymar, que retorna à lista após longa ausência por lesão e aparece entre os 55 nomes confirmados, é o segundo da relação. Aos 34 anos, Neymar não é mais o Neymar de 2014 que carregava a seleção nas costas — é um jogador que precisa de um parceiro com velocidade e imprevisibilidade para dividir a atenção defensiva adversária. Estêvão era exatamente esse parceiro. A comparação histórica que vem à mente é a de Romário em 1994: funcionou porque tinha Bebeto do lado, não apesar disso.
Rodrygo é o terceiro afetado. Sem Estêvão para ocupar o corredor direito com naturalidade, o jogador do Real Madrid pode ser empurrado para uma posição que não é a sua favorita, ou ser sobrecarregado com responsabilidades de criação que dividia com o companheiro mais jovem. Na temporada 2025/2026, Rodrygo acumula números abaixo do esperado no Real Madrid — e chegar a uma Copa com a pressão extra de ser o único fio condutor ofensivo é um peso que pode travar, não liberar.
Raphinha, o quarto nome, vive situação curiosa: tecnicamente, é o jogador com perfil mais próximo de Estêvão no elenco, mas a diferença de idade e momento físico entre os dois é significativa. O camisa 11 do Barcelona tem 28 anos e está em boa fase na temporada europeia, mas o estilo de jogo de Estêvão — mais vertical, mais explosivo no um contra um — não é replicável de forma direta. Raphinha tende a acumular função e perder especificidade quando assume papéis que não são exatamente os seus.
O quinto nome é o mais surpreendente: Savinho, do Manchester City, que na pré-lista representa a aposta de Ancelotti num perfil jovem para o corredor. O problema é que Savinho ainda não tem a consistência de entrega que Estêvão já demonstrava — e numa Copa do Mundo, consistência vale mais do que potencial. O SportNavo acompanhou a evolução dos números de ambos nas últimas duas datas-Fifa, e a diferença de aproveitamento em situações de pressão era notável: Estêvão convertia, Savinho ainda oscilava.
O que a Bósnia e a Argentina ensinam sobre ausências que definem grupos
Enquanto o Brasil administra a dor da ausência, a Bósnia e Herzegovina entrou para a história nesta segunda-feira como a primeira das 48 seleções a anunciar sua convocação final para a Copa do Mundo. O técnico Sergej Barbarez reuniu a imprensa em Sarajevo e foi direto:
"Escolhemos as pessoas certas para representar o bósnio e o espírito de nossa nação."A lista tem Edin Dzeko, do Schalke 04, aos 40 anos, como capitão — o maior artilheiro da história do país, que esteve na Copa de 2014, no Brasil, a única participação anterior dos bósnios num Mundial. Ao lado dele, o lateral-esquerdo Kolasinac, da Atalanta, é o outro remanescente daquela geração. Os jovens Bajraktarevic, do PSV, e Alajbegovic, do Red Bull Salzburg, representam a renovação. A Bósnia, que eliminou a Itália nos pênaltis por 4 a 1 na repescagem europeia, está no Grupo B com Canadá, Suíça e Catar, e estreia em 12 de junho em Toronto.
A Argentina, por sua vez, divulgou pré-lista com 55 nomes que inclui Lionel Messi em sua sexta Copa, além de Flaco López e Agustín Giay, ambos do Palmeiras — uma curiosidade que o futebol sul-americano vai saborear por meses. Cristian Romero, do Tottenham, aparece com participação em dúvida após lesão no ligamento colateral do joelho direito em abril; ou seja, os argentinos também convivem com a sombra de uma ausência importante. A diferença é que Scaloni tem profundidade de elenco para absorver a perda de Romero sem alterar a identidade do time. O Brasil de Ancelotti, sem Estêvão, precisa reinventar uma identidade que ainda estava sendo construída.
O que acontece agora até 18 de maio
A convocação definitiva de Ancelotti, com os 26 jogadores que estarão de fato na competição, está marcada para 18 de maio — uma semana depois da entrega da pré-lista à Fifa. Os nomes que estão nos 55 têm chance real de Copa; os que ficaram de fora, entre eles Estêvão, já não podem mais disputar o torneio. O atacante, que ainda não se submeteu à cirurgia recomendada pelo Chelsea, deve tomar uma decisão sobre o procedimento nas próximas semanas — e a recuperação pós-operatória, dependendo da técnica escolhida, pode levar de três a cinco meses. A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 está prevista para o grupo que Ancelotti vai apresentar ao mundo em menos de 40 dias, com ou sem o jogador que era, até 22 de abril, sua maior certeza ofensiva.










