Diz-se que o Flamengo é o time mais poderoso do Brasil neste Brasileirão. Tecnicamente, não é — ao menos não quando se olha para o interior da Arena da Baixada. O Athletico-PR acumula 19 pontos em oito jogos como mandante no Campeonato Brasileiro 2026, com 15 gols marcados e apenas cinco sofridos: melhor ataque, melhor aproveitamento, melhor fortaleza doméstica do país. O Flamengo, que soma 14 pontos em seis jogos como visitante, chega a Curitiba neste domingo (17/5, 19h30) sem o homem que mais equilibra criatividade e consistência no seu meio-campo: Lucas Paquetá, ausente desde 19 de abril.
19 pontos que explicam o que a tabela esconde
O número 19 não é coincidência — é construção. O Athletico-PR, sob pressão constante da torcida na Baixada, transformou sua Arena em um ambiente que sufoca visitantes de qualquer porte. Nesta temporada, os paranaenses marcaram média de 1,87 gol por partida em casa, enquanto o Palmeiras, segundo colocado no mesmo ranking de mandantes, também chega a 19 pontos, mas em sete jogos. A diferença é sutil no placar, mas expressiva no ritmo: o Athletico jogou oito vezes, o Palmeiras sete, e ambos têm o mesmo total — o que revela que os paranaenses desperdiçaram menos oportunidades dentro de casa. O Fluminense aparece em terceiro, com a mesma pontuação em número semelhante de partidas.
Para o Flamengo, que ocupa a segunda posição geral com 30 pontos em 14 rodadas — quatro atrás do líder Palmeiras, mas com um jogo a menos —, vencer fora de casa neste domingo não é apenas questão de ranking. É uma afirmação de que o time de Leonardo Jardim tem consistência para disputar o título em qualquer cenário, mesmo quando as peças principais estão no banco de fisioterapia.
A coxa esquerda de Paquetá e o peso de uma ausência que já dura sete jogos
Na tarde desta sexta-feira (15/5), Lucas Paquetá treinou no Ninho do Urubu com uma proteção na coxa esquerda. O gesto foi suficiente para acender esperanças, mas não para confirmar retorno. Desde que se machucou contra o Bahia, no Maracanã, em 19 de abril, o camisa 20 ficou de fora de sete partidas consecutivas. Nesta semana, realizou exercícios com a fisioterapia e a preparação física — trabalho parcial, longe da intensidade de jogo. Erick Pulgar, outro desfalque do meio-campo, seguiu rotina semelhante.

A expectativa da comissão técnica é que Paquetá possa ser relacionado já na próxima semana, em dois jogos que definem trajetórias: contra o Estudiantes, na quarta-feira (20/5), pela quinta rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, e contra o Palmeiras, no sábado (24/5), pela 17ª rodada do Brasileirão — ambos no Maracanã. Há uma chance remota de o jogador aparecer entre os relacionados para o duelo deste domingo, mas o próprio Paquetá, segundo informações do jornal O Globo, prefere não se precipitar. Com a Copa do Mundo no horizonte, ele quer voltar em condições plenas, não apenas funcionais. Desde que retornou ao Flamengo em janeiro de 2026, o meia disputou 21 partidas e marcou sete gols — média que poucos meias do continente conseguem sustentar.
O que muda quando Paquetá volta — e o que o futebol europeu já aprendeu sobre isso
Há uma distinção que o futebol sul-americano ainda processa de maneira diferente do europeu: a do jogador que organiza versus o jogador que decide. O que para o argentino é o enganche — aquele que toca, gira e dita o ritmo — para o português é o trequartista, o homem que vive entre linhas e aparece quando o jogo exige solução. Paquetá é, no Flamengo de Jardim, as duas coisas ao mesmo tempo: ele organiza a saída de bola, mas também aparece na área para finalizar. Sem ele, o Flamengo perde não apenas criatividade, mas também a capacidade de variar o tempo do jogo — ora acelerando, ora segurando a posse em zonas de pressão.
Nos sete jogos sem Paquetá, o Flamengo manteve rendimento suficiente para seguir em segundo lugar, o que demonstra que Jardim encontrou soluções coletivas. Mas a diferença qualitativa entre um meio-campo com e sem o camisa 20 é perceptível nas estatísticas de criação: com ele em campo nesta temporada, o time médio 1,4 chance clara por partida a mais do que nas partidas em que ele esteve ausente — dado que ilustra como sua presença altera a geometria do ataque.
Contra o Athletico-PR neste domingo, Jardim terá de encontrar no coletivo o que Paquetá oferece individualmente. A Arena da Baixada, com sua atmosfera comprimida e o histórico de 19 pontos em oito jogos, não perdoa imprecisões. É o mesmo cenário que o próprio Flamengo viveu em 2019, quando chegou ao segundo turno do Brasileirão sem Éverton Ribeiro lesionado e precisou vencer o Athletico justamente fora de casa para consolidar a liderança — só que agora a aposta é diferente: não é mais um jogador que faz a diferença, mas a profundidade de um elenco que precisa provar que existe além do seu nome mais valioso.









