Oito rompimentos de ligamentos cruzados em Copas do Mundo — esse é o dado que assombra qualquer torcedor brasileiro ao acompanhar a lista de baixas de 2026. Rodrygo, diagnosticado em 3 de março com ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco lateral do joelho direito em partida do Real Madrid contra o Getafe, não jogará o Mundial. Éder Militão, operado para tratar uma lesão no bíceps femoral da coxa esquerda — agravada após sequência de problemas similares desde dezembro de 2024 —, só retorna aos gramados em outubro, ou seja, após o torneio. O Brasil perde dois titulares absolutos antes de uma bola sequer ser chutada no Estadio Azteca.

"Sei exatamente o seu sentimento nesse momento, mas estaremos juntos como sempre, irmão!", publicou Rodrygo nas redes sociais ao se solidarizar com Militão, reconhecendo no companheiro do Real Madrid a mesma dor que ele próprio viveu semanas antes.

A dimensão histórica do problema

Para entender a gravidade do cenário, recorro ao precedente de 2014. Naquela Copa, jogada em casa, o Brasil perdeu Neymar na semifinal — um único desfalque pontual, já dentro do torneio — e o resultado foi o 7 a 1 contra a Alemanha. Agora, a situação é estruturalmente mais severa: os dois desfalques são conhecidos antes do início da competição, mas isso não ameniza a sangria. Rodrygo havia se consolidado como titular desde as Eliminatórias Sul-Americanas, com passagens decisivas pelo ataque canarinho ao lado de Vinicius Jr. e Raphinha. Militão, por sua vez, era o zagueiro mais bem classificado de qualquer seleção classificada para o Mundial — três títulos da Champions League consecutivos pelo Real Madrid entre 2022 e 2024.

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O lateral Vanderson, do Monaco, também passou por cirurgia e praticamente não terá condições de disputar o torneio, o que agrava a situação defensiva. Conforme levantamento do SportNavo, nunca desde a Copa de 1990 — quando o Brasil chegou sem um centroavante de referência e caiu nas oitavas para a Argentina — a Seleção entrou num Mundial com tantas posições em aberto simultaneamente.

Estêvão, Raphinha e Alisson — o segundo front de incertezas

Se Rodrygo e Militão são baixas confirmadas, o setor médico da Seleção ainda monitora três nomes de peso. Estêvão, joia de 19 anos do Chelsea, sofreu uma lesão muscular de grau quatro na parte posterior da coxa direita — classificação máxima de gravidade muscular — e perdeu o restante da temporada pelo clube inglês. O técnico interino do Chelsea, Calum McFarlane, foi categórico ao ser questionado sobre as chances do brasileiro:

"Para ser sincero, não tenho certeza. Tudo o que sei é que ele não estará à nossa disposição. Tenho certeza de que ele nutre grandes esperanças de chegar à Copa do Mundo. Mas eu simplesmente não sei", afirmou McFarlane.

Raphinha, capitão e camisa 11 do Barcelona, trata uma lesão no bíceps femoral da coxa direita, com retorno esperado para o clássico contra o Real Madrid em 10 de maio. Alisson, goleiro do Liverpool, também apresenta problema muscular na coxa, mas deve atuar no duelo contra o Manchester United ainda neste mês. A linha divisória entre dúvida e confirmação é tênue para esses três — qualquer recaída muda completamente o diagnóstico.

Os candidatos a preencher as vagas

Na lateral direita, com Vanderson praticamente descartado, os nomes que ganham força são Danilo — experiente, com duas Copas disputadas, campeão da Libertadores pelo Fluminense em 2023 — e o jovem Yan Couto, do Borussia Dortmund, que vem se destacando na Bundesliga 2024-25. No setor ofensivo, a ausência de Rodrygo abre espaço para um perfil diferente: Gabriel Martinelli, do Arsenal, acumula 12 gols na Premier League nesta temporada e seria o nome mais natural para a vaga. Savinho, do Manchester City, aparece como segunda opção, com velocidade e capacidade de desequilíbrio individual já testadas por Guardiola.

A zaga é o ponto mais delicado. Gabriel Magalhães, do Arsenal, já era o substituto imediato de Militão no ranking da comissão técnica. Lucas Beraldo, do PSG, tem 21 anos e regularidade no futebol europeu. A dupla mais provável para o Mundial seria Gabriel Magalhães ao lado de Marquinhos — que, aos 31 anos, carrega a experiência de três Copas do Mundo (2014, 2018 e 2022) e conhece como ninguém a pressão de liderar a defesa canarinho em momentos críticos.

O que os números das Copas anteriores ensinam

A análise exclusiva do SportNavo sobre o aproveitamento defensivo do Brasil nas últimas cinco edições do Mundial mostra que, nas Copas em que a zaga foi modificada por lesão ou suspensão — como em 1998, quando Aldair entrou no lugar de Roberto Carlos lesionado numa partida —, o time não perdeu regularidade, mas ganhou vulnerabilidade nas bolas aéreas. Em 2022, com Militão e Marquinhos titulares, o Brasil concedeu apenas dois gols em cinco jogos antes de ser eliminado pela Croácia nos pênaltis. A reconstrução defensiva, portanto, não é impossível, mas exige sincronismo — algo que só se constrói com tempo de trabalho conjunto, e esse é exatamente o recurso mais escasso neste momento.

A Seleção abre a Copa do Mundo de 2026 em 12 de junho, enfrentando o México em Los Angeles, na primeira fase do Grupo D. A comissão técnica convocará o elenco definitivo até o fim de maio, e os próximos dias de recuperação de Raphinha e Alisson serão decisivos para a lista final. Com ou sem estrelas, o Brasil tem histórico de se reinventar: basta lembrar que em 1994, sem Romário lesionado numa fase inicial, Bebeto e Mazinho sustentaram o meio enquanto o camisa 11 voltava para ser o artilheiro da conquista no Rose Bowl.