A última vez que o Barcelona disputou um clássico decisivo sem sua maior joia e mesmo assim conquistou o título foi em maio de 2010, quando Pep Guardiola mandou a campo um time sem Zlatan Ibrahimović — afastado por desentendimento tático — num confronto com o Real Madrid que terminou com a taça de La Liga nas mãos catalãs. Desta vez, a ausência é de Lamine Yamal, 16 anos recém-completados, com 12 gols e 8 assistências na temporada 2025/2026 — números que fariam corar qualquer meia criativo dos anos 90. A lesão no joelho confirmada pelo clube na quinta-feira transforma o clássico de domingo, 10 de maio, às 16h (de Brasília), no Camp Nou, num laboratório tático urgente.
O título que espera há onze pontos de distância
O Barça entra em campo com 11 pontos de vantagem sobre o rival na tabela, líder isolado com a 36ª rodada como palco para uma festa antecipada. Um empate já basta para selar o 29º título espanhol da história do clube. Para ter noção do peso histórico: quando o Real Madrid de Zidane acumulou três Champions consecutivas entre 2016 e 2018, o Barcelona respondia com três títulos de La Liga no mesmo período — essa rivalidade vive de ciclos, e o ciclo atual é azul-e-grená com vantagem de dois dígitos. Hansi Flick, que chegou em 2024 com a missão de reconstruir após o caos financeiro pós-pandemia, tem hoje uma equipe que marca em média 2,4 gols por partida na liga.
O que Yamal faz que ninguém no elenco replica
O problema tático de Flick não é simples de resolver. Yamal não é apenas um ponta direita veloz — ele é o mecanismo que força os laterais adversários para dentro, abrindo espaço para as sobreposições de João Cancelo. Nos últimos oito jogos de La Liga, 60% dos ataques do Barça pelo lado direito passaram pelos pés do jovem catalão. Sem ele, o corredor direito vira terra de ninguém. Segundo fontes próximas ao clube, citadas pela imprensa catalã, Flick testou três configurações diferentes nos dois treinos que antecederam o clássico — sinal de que a solução ainda não é óbvia.
Três nomes, três estilos, três apostas diferentes
Raphinha é o favorito para começar na direita, mas isso significa tirá-lo da esquerda, onde tem sido devastador nesta temporada com 14 gols e 10 assistências em todas as competições. O brasileiro carrega a experiência de clássicos — foi ele quem marcou o gol que deu a vitória ao Barça no último El Clásico da temporada passada — e tem personalidade para o momento. Ferran Torres, por sua vez, oferece uma opção mais física e de pressão alta, característica que combina com o pressing que Flick exige desde a saída de bola adversária. Já Ansu Fati, que voltou ao clube após empréstimo, é a carta de velocidade pura — mas com apenas 340 minutos disputados na temporada, a falta de ritmo é um risco real numa partida deste calibre. Na avaliação do SportNavo, Raphinha na direita com Dani Olmo caindo pelo lado esquerdo é o cenário que melhor preserva a largura ofensiva que Flick construiu ao longo do ano.
O Real Madrid que chega ao Camp Nou em frangalhos
Do outro lado, o Real Madrid de Álvaro Arbeloa atravessa uma crise que vai além do campo. Fede Valverde, um dos pilares do meio-campo merengue, está fora do clássico após sofrer traumatismo craniano numa briga com Tchouaméni durante o treino — episódio que expõe a ruptura interna de um vestiário que, segundo a imprensa espanhola, já viu Mbappé envolvido em outros casos de indisciplina nesta temporada. Para o Real, vencer no Camp Nou é a última oportunidade de evitar que o rival levante a taça na própria casa — algo que aconteceu apenas três vezes na história da liga espanhola, a última em 1999, quando o Barça de Louis van Gaal comemorou com os jogadores do Deportivo derrotados ao fundo.

O Barcelona joga na segunda-feira seguinte, caso o clássico termine sem título definido, contra o Getafe, mas tudo indica que a festa acontece antes. Se Raphinha carregar o ataque no lugar de Yamal e o Barça confirmar o campeonato dentro do Camp Nou diante do rival histórico, Flick terá feito algo que Johann Cruyff, em sua segunda passagem, não conseguiu em 1996 — vencer o título com o maior adversário como plateia involuntária. Será que Ansu Fati, saindo do banco, vai aparecer como herói improvável ou Raphinha sustenta os 90 minutos com a qualidade que o momento exige?









