O silêncio de uma festa de confraternização em Goiás durou até o momento em que Gilson Trennepohl, 65 anos, cruzou o portão de casa na cidade de Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul. Do lado de dentro, havia criminosos esperando. Nas 48 horas seguintes, o vice-prefeito e empresário do setor de máquinas agrícolas virou moeda de troca num cativeiro erguido no meio de uma área de mata, no município de Marau, a 270 quilômetros de Porto Alegre. Três estados. Três casos distintos. Um padrão que as forças de segurança reconhecem cada vez mais rápido — e que ainda custa caro demais para conter.
Como os sequestradores escolhem o alvo em Não-Me-Toque e no DF
O caso gaúcho é manual. Gilson é figura pública e dono de uma grande empresa. Segundo a polícia, os criminosos monitoraram a vítima antes de agir: sabiam que ele estaria na festa e calcularam o momento do retorno para casa. Quando ele chegou, foi rendido imediatamente. Os sequestradores levaram o empresário para uma casa alugada no interior da mata — o que especialistas chamam de cativeiro de baixo perfil, estrutura improvisada que dificulta rastreamento por vizinhos ou câmeras. Pessoas próximas à vítima receberam vídeos comprovando o sequestro e exigindo resgate. A polícia localizou um dos criminosos junto com a vítima na mata; Gilson aproveitou a aproximação dos agentes para se afastar do suspeito, que fugiu para o mato. Um dos envolvidos foi preso em flagrante na noite de domingo (21). O segundo foi detido na manhã seguinte, escondido em meio a uma plantação de milho.
No Distrito Federal, o modelo é diferente, mas igualmente calculado. Dois suspeitos foram presos após sequestrarem e roubarem um homem em Taguatinga na última segunda-feira (10). O delegado Mauro Aguiar informou que o carro roubado durante a ação foi recuperado no mesmo dia e que os suspeitos são investigados por outros crimes. Esse formato — vítima abordada, levada por curto período, despojada de bens e liberada — é o que a polícia classifica como sequestro relâmpago: duração de minutos a poucas horas, foco em dinheiro, cartões e veículo, baixo investimento logístico pelos criminosos.
O caso de Goiás e o que os números revelam sobre violência de gênero
Na cidade de Goiás, no noroeste do estado, o crime teve outra camada. Uma mulher trans foi colocada no porta-malas de um carro na última terça-feira (5) e levada até um beco. Lá, dois homens a espancaram com pauladas enquanto um filmava e o outro instigava a violência — o vídeo foi divulgado na internet. Segundo a delegada Brunna Karla Dias Melo, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), os suspeitos alegaram agir a mando de proprietários de uma mercearia local, motivados por um furto de aproximadamente R$ 1.000 praticado pela vítima dias antes.
"Foi dinheiro do caixa. Aproximadamente R$ 1.000. Ela furtou na madrugada do dia 30 e foi presa nesse dia. E foi solta no dia seguinte", disse a delegada Brunna Karla Dias Melo ao g1.
A vítima havia sido presa em flagrante, passado por audiência de custódia e liberada pela Justiça. Cinco dias depois, foi capturada e torturada. Conseguiu fugir e buscar atendimento médico. Os dois suspeitos foram presos e responderão por lesão corporal, sequestro e ameaça. As investigações sobre o envolvimento dos alegados mandantes prosseguem. O estado de Goiás registrou mais de 32 mil queixas de violência contra a mulher até agosto do ano passado — número que, para ter dimensão, equivale a uma denúncia a cada 18 minutos durante meses consecutivos, uma frequência comparável à distância em quilômetros entre Manaus e Salvador percorrida em passos de violência diária.
O que esses três casos cobram das estratégias de segurança pública
Os três episódios revelam perfis de vítima radicalmente distintos: um político e empresário com alta visibilidade no interior gaúcho, um cidadão comum num bairro da capital federal e uma mulher em situação de vulnerabilidade social num município do interior goiano. A diversidade de alvos expõe um problema estrutural: as quadrilhas não operam com um único protocolo. Elas se adaptam ao ambiente, ao recurso disponível e ao grau de impunidade percebido.

O que une os três casos é a velocidade de resposta policial — em todos, houve prisões em dias ou horas. No RS, os dois suspeitos foram detidos em menos de 48 horas após a libertação da vítima. No DF, o carro roubado foi recuperado no mesmo dia. Em Goiás, os agressores foram localizados logo após o registro do boletim de ocorrência. A Deam de Goiás segue investigando a cadeia de comando por trás da agressão, buscando identificar se os proprietários da mercearia efetivamente encomendaram o crime — o que, se confirmado, enquadra o caso como associação criminosa com agravante de violência de gênero.








