A sala de reuniões estava cheia de acionistas históricos do Sevilla FC quando, na última segunda-feira, 11 de maio, o homem que por décadas defendeu o Real Madrid entrou para sentar do outro lado da mesa. Sergio Ramos, 38 anos, não foi a Sevilha para relembrar títulos — foi para apresentar números, garantias e uma visão de futuro para o clube que o formou. O encontro presencial com os principais acionistas da instituição marca o momento mais concreto de uma negociação que já tem proposta formal sobre a mesa e prazo para ser concluída.

A proposta de Ramos e os números que definem o negócio

O consórcio liderado por Ramos apresentou uma oferta inicial de aproximadamente 450 milhões de euros pelo controle acionário do Sevilla, valor que já incorpora 88 milhões de euros em dívidas líquidas reconhecidas pelo clube. A estrutura do acordo inclui uma cláusula protetora para os investidores: caso o Sevilla seja rebaixado para a segunda divisão espanhola, o valor total da transação cai 25% — o que representaria uma redução de cerca de 112 milhões de euros no preço final. Esse tipo de salvaguarda é comum em aquisições de clubes com situação financeira fragilizada, mas raramente aparece de forma tão explícita em negociações de alto perfil no futebol europeu.

O período de exclusividade entre o consórcio e o clube se aproxima do fim, o que explica a urgência da reunião presencial. Sem acordo formalizado dentro da janela de exclusividade, o Sevilla ficaria livre para receber propostas de outros grupos — cenário que nenhuma das partes parece querer.

Segundo informações de mercado apuradas pelo SportNavo, as partes buscam finalizar os termos do acordo antes do encerramento do período de exclusividade, com foco em ajustar as garantias financeiras e a estrutura de governança do clube.

As feridas financeiras do Sevilla que tornam a venda inevitável

O contexto que empurra o Sevilla em direção a essa transação é grave. O clube acumulou 155 milhões de euros em perdas ao longo de três temporadas consecutivas: 19 milhões em 2022-23, 82 milhões em 2023-24 e 54 milhões em 2024-25. São números que comprometem a capacidade de investimento no elenco, a renovação de contratos e qualquer projeto de médio prazo. O que para o torcedor argentino seria uma crise pontual de gestão, para o torcedor andaluz representa uma sangria que já dura quase meia década — e que exige uma solução estrutural, não apenas um remendo orçamentário.

A saída de Monchi, o mais célebre diretor esportivo da história do clube, para o RCD Espanyol, complicou ainda mais o cenário. O executivo era cotado para integrar o projeto de Ramos como peça-chave na reconstrução esportiva. Sem ele, o consórcio precisará apresentar um nome de igual credibilidade para convencer os acionistas de que o projeto vai além do capital financeiro.

O fim de carreira que vem junto com a caneta no contrato

Há uma consequência direta e irreversível caso o negócio seja concluído: Sergio Ramos encerrará formalmente sua carreira como jogador profissional. As regulamentações da La Liga são claras — atletas em atividade não podem deter participação direta na propriedade de clubes que disputam a mesma competição. Ramos está sem clube desde dezembro de 2025, quando deixou o Rayados de Monterrey, e, segundo fontes próximas ao processo, já está concentrado exclusivamente no papel de empresário e gestor esportivo.

A transição de campo para sala de reuniões não é novidade no futebol europeu — Didier Drogba tentou algo parecido no Olimpique de Marseille, e Gerard Piqué construiu o modelo mais bem-sucedido recente com o FC Andorra, clube que saiu da quinta divisão espanhola e chegou à segunda. Ramos, no entanto, mira um clube de primeira divisão com história europeia, dívidas reais e uma torcida que não aceita projeto de médio prazo sem resultados imediatos.

Nas palavras de fontes ligadas ao consórcio, Ramos enxerga a aquisição do Sevilla não apenas como investimento financeiro, mas como legado — uma forma de devolver ao clube que o revelou uma estrutura capaz de competir novamente em alto nível.

A reunião desta segunda-feira não encerra o processo, mas representa o ponto de inflexão. Se as partes chegarem a um acordo nas próximas semanas, o Sevilla terá um novo dono pela primeira vez em décadas — e Ramos trocará definitivamente as chuteiras pelo crachá de presidente. O clube disputa a La Liga 2025/26 em situação delicada na tabela, o que torna a cláusula de rebaixamento não apenas um detalhe contratual, mas uma variável concreta que pode redefinir o valor do negócio ainda nesta temporada. É o mesmo cenário que o Málaga viveu em 2010, quando um grupo de investidores do Oriente Médio chegou com capital abundante e promessas de Champions League — só que agora a aposta é diferente: vem de dentro, com nome gravado nas arquibancadas.