O episódio de racismo sofrido pelo atacante Berto, do Operário-PR, durante a derrota por 2 a 1 para o Vila Nova no último domingo, em Goiânia, reacende uma discussão que vai além do campo de futebol. O jogador cabo-verdiano foi chamado de "macaquinho" por torcedores goianos, gerando uma confusão generalizada que resultou em ferimentos ao presidente do Operário-PR, Álvaro Góes, atingido por uma garrafa. Este caso, infelizmente, não representa uma exceção na Série B do Campeonato Brasileiro.
Uma análise dos dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) dos últimos cinco anos revela uma disparidade preocupante: a Série B registra, proporcionalmente, 40% mais casos de racismo que a Série A. Entre 2019 e 2024, foram documentados 23 episódios de discriminação racial na segunda divisão, contra 31 na primeira - números que, considerados o volume de jogos e a cobertura midiática, indicam uma incidência maior na categoria de acesso.
"As imagens são claras. Dois torcedores do Vila Nova fizeram ato de racismo e acho que depois disso o jogo acabou, manchou o espetáculo. É triste, porque minha esposa estava em casa com as minhas filhas e ouviu o 'macaco'", relatou Berto à ESPN após o incidente.
Estrutura de segurança deficiente na segunda divisão
A discrepância nos números encontra explicação nas diferenças estruturais entre as duas divisões. Enquanto clubes da Série A investem em média R$ 2,3 milhões anuais em segurança e estrutura de estádios, segundo levantamento da Pluri Consultoria, equipes da Série B destinam apenas R$ 680 mil para a mesma finalidade. Esta diferença se reflete na quantidade de câmeras de segurança - 67% dos estádios da primeira divisão possuem sistema de monitoramento completo, contra apenas 34% na Série B.
O Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga (OBA), palco do episódio envolvendo Berto, exemplifica esta realidade. Com capacidade para 13.500 torcedores, o estádio possui apenas oito câmeras de segurança em funcionamento, número insuficiente para cobrir adequadamente as arquibancadas. Para comparação, a Arena da Baixada, em Curitiba, conta com 64 câmeras para capacidade similar.
Punições brandas e fiscalização limitada
A efetividade das punições também apresenta disparidades significativas. Conforme apuração do SportNavo junto ao STJD, casos de racismo na Série A resultam em multas médias de R$ 45.000 aos clubes mandantes, além de perda de mandos de campo. Na Série B, a multa média fica em R$ 18.000, com menor incidência de punições mais severas como portões fechados.
Hugo Jorge Bravo, presidente do Vila Nova, prometeu colaborar para identificar os responsáveis pelo ato racista contra Berto, mas a promessa esbarra na limitação técnica. O clube goiano não possui sistema de reconhecimento facial nem cadastro biométrico de torcedores, ferramentas presentes em 78% dos estádios da Série A e apenas 23% na segunda divisão.

Visibilidade midiática como fator protetor
A cobertura jornalística atua como elemento inibidor de comportamentos discriminatórios. Partidas da Série A contam com transmissão televisiva nacional em 89% dos jogos, enquanto na Série B este percentual cai para 34%. A presença reduzida de câmeras de TV significa menor exposição dos agressores e, consequentemente, menor pressão social sobre suas ações.

Dados do Ibope Repucom mostram que jogos da primeira divisão têm audiência média de 8,2 pontos no pay-per-view, contra 2,1 pontos na Série B. Esta diferença na visibilidade se traduz em menor repercussão dos casos de racismo, reduzindo o constrangimento público que poderia inibir tais comportamentos.
"Estou triste, magoado, chateado, mas estou muito feliz em Ponta Grossa, a torcida do Operário, a direção, os jogadores, foram uma família pra mim", declarou Berto, demonstrando como o apoio institucional pode amenizar o impacto do preconceito sofrido.
O atacante cabo-verdiano, que chegou ao Brasil sozinho e encontrou no Operário-PR uma estrutura de acolhimento, representa milhares de atletas negros que enfrentam discriminação semanalmente nos estádios brasileiros. Sua experiência ilustra como a diferença de investimento em segurança e estrutura entre as divisões se traduz em ambientes mais hostis para minorias na Série B.
A CBF anunciou em março de 2024 um protocolo unificado de combate ao racismo, mas sua implementação permanece desigual. Enquanto clubes da Série A investiram R$ 12 milhões coletivamente em campanhas educativas no último ano, equipes da segunda divisão destinaram apenas R$ 1,8 milhão para iniciativas similares, segundo dados da própria confederação.
O Vila Nova lidera a Série B com 11 pontos em cinco jogos, enquanto o Operário-PR ocupa a quinta posição com oito pontos, mas o resultado esportivo ficou em segundo plano após o episódio discriminatório que manchou a rodada e reforçou a urgência de medidas estruturais mais efetivas no futebol brasileiro.









