Quando Thiago Scuro ligou para Filipe Luís, o Monaco já havia descartado ao menos um perfil mais conservador. O clube do Principado terminou a temporada 2025/26 fora da Champions League — e, por isso, disputará as fases preliminares da Conference League em agosto. O acerto verbal entre as partes, confirmado pelo L'Équipe, coloca o ex-lateral esquerdo do Flamengo num posto que apenas seis outros brasileiros ocuparam nas cinco principais ligas europeias desde 2000. Sébastien Pocognoli, que pagou o preço pela campanha irregular, está fora.
O sétimo brasileiro — e o peso que esse número carrega
A lista é curta, mas significativa. Ricardo Gomes treinou o Lyon no início dos anos 2000. Vanderlei Luxemburgo chegou ao Real Madrid em 2004, herdando um elenco de Galácticos já em dissolução — ficou 13 meses. Luiz Felipe Scolari comandou o Chelsea em 2008/09, foi demitido em fevereiro com o clube em quarto lugar na Premier League. Leonardo passou pelo Milan e pela Internazionale em funções técnicas. Abel Braga chegou ao Olympique de Marseille em 2017 e deixou o cargo em novembro do mesmo ano. Sylvinho assumiu o Lyon em 2019, com Juninho Pernambucano como diretor, e foi dispensado antes de completar cinco meses. Nenhum deles chegou a completar uma temporada completa no cargo.

Filipe Luís será, portanto, o sétimo nome dessa lista — ou o oitavo, dependendo de como se contam as passagens de Leonardo, que acumulou funções. Seria injusto chamar de maldição — mas é uma maldição em escala estatística. A média de permanência desse grupo específico não ultrapassa oito meses. O jornalista Romain Lantheaume, do Top Mercato FR, resumiu o ambiente ao saber do acerto: classificou a temporada recente do Monaco como "caótica" e alertou que a janela de transferências será "turbulenta". A surpresa de Lantheaume com o aceite de Filipe Luís não é pequena — e merece ser levada a sério.
O que a Ligue 1 já fez com técnicos estrangeiros ambiciosos
A história da Ligue 1 com treinadores vindos de fora da França tem um padrão que os anos 90 e 2000 ensinaram bem. Arsène Wenger saiu de Nancy e Mônaco para construir uma dinastia no Arsenal — mas o Monaco de 1987-1994 era um projeto de Estado, com Ettore Cordova como mecenas e orçamento incompatível com o restante do campeonato. O Monaco de 2026 não é esse Monaco. Desde a saída de Leonardo Jardim em 2018, o clube já passou por Thierry Henry (demitido após 20 jogos), Leonardo Jardim de volta, Robert Moreno, Niko Kovač, Philippe Clement e Adi Hütter — cada um deixando o clube mais confuso do que encontrou.
Para fins de comparação histórica, que é o que a análise do SportNavo considera relevante aqui: o Monaco de Jardim que chegou à semifinal da Champions League em 2016/17 terminou aquela temporada com 80 pontos na Ligue 1, saldo de gols de +53 e um ataque construído ao longo de três janelas de mercado. O Monaco que Filipe Luís receberá terá Conference League como teto europeu imediato — uma competição que, paradoxalmente, pode ser mais vantajosa do ponto de vista pedagógico para um técnico em sua primeira experiência no continente. O calendário menos sobrecarregado permite treinar.
O que Filipe Luís ainda precisa resolver antes de estrear
Há um detalhe burocrático que antecede tudo: Filipe Luís ainda não possui a Licença PRO da Uefa, exigência formal para assinar as súmulas como técnico principal nas competições europeias. A solução provisória, já adotada por outros treinadores em situação semelhante, é ter o auxiliar técnico Ivan Palanco como responsável legal pelos documentos até que a licença seja obtida. Não é uma anomalia — Unai Emery dirigiu o Arsenal durante meses com licença temporária em 2018 — mas é um ponto de vulnerabilidade administrativa que o Monaco precisará administrar.
A chegada de Scuro ao clube, ele próprio com passagem pelo Red Bull Bragantino, foi o fator decisivo para que o nome de Filipe Luís chegasse à mesa. O Bayer Leverkusen também tinha o brasileiro em seu radar para a próxima temporada — o que indica que a reputação construída no Flamengo, onde foi demitido em março de 2026 após resultados ruins no Brasileirão, na Recopa Sul-Americana e na Supercopa do Brasil, não apagou o crédito acumulado no vice da Copa Intercontinental diante do PSG. Esse vice, aliás, é o único currículo europeu que Filipe Luís leva na mala — ter perdido uma final para o clube mais rico do país onde vai trabalhar.
A estreia oficial do Monaco na Conference League está prevista para o final de julho, nas fases preliminares. É ali, e não no Campeonato Francês, que Filipe Luís terá sua primeira prova real como técnico fora do Brasil — contra adversários de ligas menores, em jogos de ida e volta que exigem gestão de elenco e leitura tática de contextos desconhecidos. Se passar, o grupo da fase de liga começa em setembro.









