A última vez que o Flamengo registrou uma densidade de derrotas tão alta em tão poucos jogos foi no primeiro semestre de 2020 — época de pandemia, calendário distorcido e um elenco ainda em fase de assimilação sob Jorge Jesus recém-partido. Naquele contexto, havia atenuantes estruturais. Em 2026, com um elenco avaliado entre os mais caros do futebol sul-americano e um treinador que ergueu a Copa do Brasil na temporada anterior, os atenuantes são mais difíceis de encontrar: em 14 partidas disputadas, o clube acumula sete derrotas — mais da metade das 11 sofridas ao longo de todo o ano de 2025.

O precedente de 2024 e o roteiro que se repete

A derrota para o Central Córdoba no Maracanã, por 2 a 1, pela segunda rodada da Libertadores, gerou imediata comparação com o episódio de 2024 em que o Peñarol eliminou o Flamengo no mesmo estádio — quebrando uma invencibilidade de cinco anos como mandante na competição. Filipe Luís, que assumiu o comando justamente para enterrar esses fantasmas, viu sua própria invencibilidade de 27 jogos evaporar diante de um adversário argentino de orçamento incomparavelmente menor. Depois, na visita a Santiago del Estero, o time voltou a empatar por 1 a 1, com Gerson acumulando sozinho dez passes errados numa noite em que o índice geral de erros técnicos comprometeu cada tentativa de construção ofensiva. Para completar o ciclo, a derrota por 1 a 0 para o Lanús no jogo de ida da Recopa Sul-Americana confirmou que o problema transcende competições e adversários.

Quando o volume ofensivo não se converte em gols

O diagnóstico mais recorrente nas análises pós-jogo aponta uma contradição estatística que define esta temporada: o Flamengo cria, finaliza e domina — mas não marca. Contra o Lanús, o clube encerrou a partida com apenas uma finalização, numa noite em que Carrascal foi escalado como falso nove em vez de Pedro ou Bruno Henrique. O jornalista Mauro Cezar, em seu canal no YouTube após a derrota na Argentina, foi direto:

"O mais grave que está acontecendo com o Flamengo é o lado autoral do técnico. É a necessidade extrema de assinar a obra. Ele coloca o Carrascal ali de falso nove. O simples não parece fazer parte do roteiro do técnico do Flamengo. Podendo colocar o Pedro de saída para jogar parte do jogo ou Bruno Henrique... O Flamengo finalizou uma vez."

A observação de Mauro Cezar dialoga com o que Filipe Luís admitiu após o empate em Santiago del Estero:

"Perdemos muita bola, tivemos muitos erros técnicos. Fisicamente não estávamos bem"
— uma confissão que, saída do próprio técnico, ilumina a dimensão do desgaste acumulado. A base do elenco cruzou o início de 2026 praticamente sem período de recuperação após uma temporada de 2025 em que o clube disputou todos os títulos disponíveis, vencendo competições relevantes e parando apenas na final do Mundial de Clubes.

Quantas vezes um elenco caro pode repetir o mesmo erro antes que o problema deixe de ser conjuntural?

A ausência de um centroavante de área não é novidade no debate interno do clube. O Flamengo perdeu para o Lanús justamente para um time cujo atacante balançou a rede três vezes no agregado — dois em impedimento, um válido —, enquanto o rubro-negro buscava soluções táticas sofisticadas para um problema que teria resposta mais objetiva no mercado. A gestão esportiva do clube, encabeçada pelo diretor Marcos Braz, segue sendo questionada pela falta de reposição cirúrgica num setor deficitário há mais de dois anos.

O que os números de 2026 revelam sobre a sustentabilidade do modelo

Sete derrotas em 14 jogos equivalem a um aproveitamento de 50% em resultados negativos — número que, projetado sobre uma temporada completa de 60 partidas, significaria algo entre 28 e 30 derrotas, volume inédito para um clube que nos últimos cinco anos raramente ultrapassou 12 revezes anuais. O impacto econômico não é desprezível: cada eliminação prematura em competições continentais representa perda de cotas da Conmebol que, na temporada de 2025, somaram cifras acima de 15 milhões de dólares apenas em fase de grupos da Libertadores. A pressão da torcida, expressa nas vaias ouvidas no Maracanã após o apito final contra o Central Córdoba, é também um indicador de capital simbólico em erosão — ativo que clubes como o Flamengo monetizam em contratos de patrocínio e renovação de sócio-torcedor.

O Flamengo volta a campo pela Libertadores na próxima rodada da fase de grupos, precisando de resultado positivo para não ver sua classificação complicar ainda mais. Na arquibancada do Maracanã, enquanto os jogadores deixavam o gramado sob gritos de protesto, um torcedor com a camisa 10 de Arrascaeta ficou parado, olhando para o placar apagado — como se tentasse entender quando exatamente o espelho quebrou.