Todo mundo sabe que o Flamengo viajou para a Bolívia com um grupo desfalcado. O que pouca gente dimensiona direito é o tamanho do buraco que ficou no Rio de Janeiro: sete titulares fora da lista, entre eles Pedro e Arrascaeta, os dois jogadores que mais vezes definiram jogos pelo clube nos últimos anos. A narrativa que circula é a de um time gerenciando desgaste e poupando peças para o Brasileirão. A realidade é mais dura — e mais reveladora sobre os limites estruturais do futebol brasileiro quando o assunto é altitude.
A lista de ausentes que transforma o Flamengo num time diferente
Há uma diferença entre poupar e desfalcar. O clube comunicou, pouco antes do embarque na terça-feira, que sete atletas ficaram fora da viagem para Santa Cruz de la Sierra: Varela, Ayrton Lucas, Erick Pulgar, Arrascaeta, Pedro, Allan e Léo Pereira. Os cinco primeiros foram decisão da comissão técnica. Os dois últimos têm razões médicas específicas — e é nesse ponto que a conversa sobre altitude deixa de ser logística e vira fisiologia.
Léo Pereira enfrentava um quadro viral que o impedia de viajar. Allan, por sua vez, carrega um traço falcêmico — condição genética em que uma parcela das hemácias tem formato alterado — que compromete diretamente sua capacidade de rendimento em ambientes com baixa concentração de oxigênio. Em cidades como La Paz, a 3.640 metros acima do nível do mar, a pressão parcial de oxigênio é cerca de 35% menor do que no litoral brasileiro. Para qualquer atleta, isso já representa esforço adicional. Para alguém com traços falcêmicos, o risco é fisiologicamente documentado e não negociável.

"O atleta Allan apresenta traços falcêmicos que podem prejudicar a alta performance em altitude", informou o Flamengo em comunicado oficial publicado nas redes sociais em 23 de abril.
Santa Cruz de la Sierra como escudo contra o ar rarefeito boliviano
A solução adotada pelo departamento médico rubro-negro não é nova no futebol sul-americano — mas ainda é subestimada quando se fala em estratégia de viagem para a Bolívia. Ficar em Santa Cruz de la Sierra, cidade localizada a pouco mais de 400 metros de altitude, e só se deslocar para La Paz no dia da partida é uma prática que clubes europeus adotaram há décadas para jogos em Bogotá ou Quito. O Bayern de Munique, quando enfrentou o The Strongest em 2015 pela fase de grupos da Champions League, usou protocolo semelhante — chegada no dia, aquecimento adaptado, saída logo após o apito final.
O problema é que essa estratégia minimiza os efeitos agudos, mas não os elimina. Estudos publicados no British Journal of Sports Medicine indicam que exposições curtas à altitude elevada — entre 12 e 24 horas — ainda produzem redução mensurável na capacidade aeróbica, especialmente em esforços de alta intensidade como o pressing alto que equipes sul-americanas costumam impor em casa. O Bolívar, que joga regularmente no Estádio Hernando Siles, sabe exatamente como explorar esse desequilíbrio.
O que a ausência de Arrascaeta revela sobre dependências táticas
Sem o uruguaio, o Flamengo perde mais do que um meia criativo — perde o jogador com maior taxa de criação de chances por 90 minutos no elenco. A comparação com o que se vê na Premier League ou na La Liga é inevitável: quando o Manchester City perdeu Kevin De Bruyne por lesão em 2021, Guardiola precisou de oito jogos para redistribuir responsabilidades de criação. O Flamengo chega a La Paz sem esse tempo de adaptação e sem um substituto de perfil equivalente no grupo que viajou.
Pedro, por sua vez, é o referencial de área que organiza a linha defensiva adversária. Sem ele, o time perde profundidade e o espaço para os meias chegarem em segunda linha. No tiki-taka adaptado que o Rubro-Negro tenta praticar em jogos de posse, a ausência do centroavante desfaz a geometria do ataque. Varela e Ayrton Lucas, os dois laterais titulares, também ficaram em casa — o que significa que toda a largura do campo precisará ser construída com opções de menor rodagem no sistema.
"Arrascaeta e Pedro também não viajarão para a Bolívia", confirmou o clube no mesmo comunicado, sem detalhar as razões técnicas por trás das ausências dos dois atacantes.
O Flamengo entra em campo contra o Bolívar, em La Paz, com um grupo que é, na prática, uma segunda linha. Não um time alternativo por opção, mas por acúmulo de circunstâncias — condição médica, quadro viral, decisão técnica. A partida integra a fase de grupos da Copa Libertadores, competição em que cada ponto tem peso específico para a classificação às oitavas. Com o elenco que embarcou para Santa Cruz de la Sierra, o clube terá menos de 24 horas em altitude elevada antes do apito inicial — e 90 minutos para transformar limitação em resultado.








