Parou. Não o futebol europeu, não a hegemonia dos grandes clubes do Velho Mundo — mas a narrativa confortável de que o Brasil só produz campeões quando exporta seus talentos. Carlo Ancelotti entregou à FIFA, na segunda-feira (11), uma pré-lista com 55 nomes, e o clube com mais representantes não fica em Madri, Londres ou Munique. Fica na Gávea. O Flamengo colocou sete jogadores na relação preliminar para a Copa do Mundo 2026: Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira, Léo Ortiz, Lucas Paquetá, Pedro e Samuel Lino. Mais do que o Real Madrid, que aparece com Vini Jr. e Endrick. Mais do que o Chelsea, representado por Andrey Santos e João Pedro.
A narrativa popular que o número do Flamengo derruba
Há anos circula no futebol brasileiro uma crença quase dogmática: para entrar no radar da Seleção, o caminho passa obrigatoriamente pela Europa. Que o mercado europeu calibra, endurece, revela o verdadeiro nível de um atleta. E que o Brasileirão, por mais competitivo que seja, ainda carrega um estigma de segundo escalão no imaginário de quem escolhe convocados. A pré-lista de Ancelotti, porém, não sustenta essa leitura com tranquilidade.
Dois dos sete rubro-negros têm histórico recente na Europa e voltaram ao Brasil com status consolidado: Paquetá, que acumula passagens por Milan e West Ham, e Danilo, que fechou uma era de quase uma década na Juventus antes de retornar ao clube carioca. A presença deles não contradiz a tese europeia — a reforça com uma camada nova: o Flamengo virou destino de atletas que já fizeram o caminho de ida e volta, e isso pesa na avaliação de Ancelotti.
O próprio técnico italiano já havia sinalizado a posição de Danilo antes mesmo da pré-lista ser divulgada. Em coletiva, Ancelotti anunciou a convocação definitiva do lateral-direito de 33 anos, tornando-o o único nome já confirmado entre os 55. Uma declaração pública de confiança que diz muito sobre como o treinador enxerga o futebol que se joga no Brasil hoje.
Quem vai e quem ainda briga por uma vaga entre os rubro-negros
Dentro dos sete nomes, Ancelotti não vai levar todos — e a divisão interna do grupo já está clara. Léo Pereira, Alex Sandro e Lucas Paquetá aparecem como favoritos a confirmar presença nos 26 convocados finais. Os três têm regularidade de jogo, histórico com a camisa amarelinha e encaixe tático no sistema do treinador.
A situação de Pedro é a mais dramática do grupo. O centroavante disputa vaga com Igor Thiago, Igor Jesus e João Pedro — quatro nomes para, no máximo, duas vagas num setor de ataque já ocupado por Vini Jr., Raphinha e Endrick. Pedro tem os gols, tem o histórico no Flamengo e na própria Seleção, mas nunca foi testado diretamente por Ancelotti em um ciclo de jogos seguidos, o que transforma sua candidatura numa corrida com menos informação do que deveria ter para um jogador da sua envergadura.
Já Léo Ortiz e Samuel Lino compõem a faixa mais incerta da pré-lista. Cada um esteve em apenas uma convocação anterior, e a leitura predominante é a de que os dois dificilmente chegarão à lista definitiva. Estão ali como seguro técnico — uma margem de manobra que Ancelotti preserva até a convocação oficial, marcada para o dia 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
O que a hegemonia do Flamengo revela sobre o futebol que o Brasil produz
Sete jogadores num clube só não acontecem por acaso. Há uma combinação específica de fatores que o SportNavo acompanhou ao longo deste ciclo de Eliminatórias: investimento pesado em contratações de alto nível, capacidade de reter atletas em momentos de sondagem europeia e, mais recentemente, a estratégia de trazer de volta nomes que já têm maturidade internacional. O Flamengo não é apenas o maior clube em número de torcedores do Brasil — tornou-se o laboratório mais visível para quem monta uma Seleção.
A ausência de Estêvão na pré-lista reforça, por contraste, o peso do que o Flamengo representa neste momento. O atacante do Chelsea sofreu lesão muscular na coxa direita em 18 de abril, durante partida contra o Manchester United pela Premier League, optou por tratamento conservador sem cirurgia, mas o quadro físico não evoluiu dentro do prazo necessário. Com cinco gols pela Seleção no ciclo Ancelotti — sendo o artilheiro do período — e oito gols em 36 jogos pelo Chelsea nesta temporada, Estêvão teria sido um dos nomes mais impactantes da lista. Sua ausência cria um vácuo no setor ofensivo que nenhum dos convocados preenche da mesma forma.
Enquanto isso, a recuperação de Alisson, que avança de lesão muscular na coxa direita e pode ser relacionado pelo Liverpool já na próxima sexta-feira, traz alento ao setor mais crítico do Brasil. Um goleiro titular de volta, um centroavante disputando palmo a palmo, e sete do mesmo clube carioca na lista preliminar. O Brasil chega à Copa do Mundo 2026 com o Flamengo como espelho.
A convocação final sai no dia 18. Sete viram 26 — e o Maracanã vai querer saber quantos são rubro-negros.









