Sete gols e sete assistências em 18 partidas pelo Lyon. Esses são os números que transformaram o empréstimo de Endrick à Ligue 1 — lido por muitos como um recuo na trajetória do atacante de 19 anos — em um dos argumentos mais concretos da briga por uma vaga na lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026. Com o Mundial a pouco mais de um mês, o que parecia uma temporada de transição virou a mais importante da carreira do jovem revelado pelo Palmeiras.

O ciclo de dificuldades no Real Madrid

A chegada de Endrick ao Real Madrid em julho de 2024 foi cercada de expectativa máxima, mas o roteiro dos primeiros meses fugiu ao script. Ainda durante a pré-temporada, declarações suas em entrevistas sobre ídolos e referências do futebol geraram polêmica no Brasil — o ex-jogador e apresentador Neto, por exemplo, chamou o atleta de "coachzinho" e disparou que ele "não entende nada de futebol" após Endrick citar Bellingham entre os cinco melhores da história, omitindo Pelé e Messi da lista. Na estreia oficial pelo clube espanhol, uma vitória por 3 a 0 sobre o Valladolid, o primeiro gol com a camisa merengue trouxe alívio — mas também revelou o peso acumulado.

"As pessoas me criticavam e criticavam minha família também, criticaram até minha namorada... Passamos muitas coisas juntos, então viver esse momento agora é maravilhoso", disse Endrick após marcar na estreia pelo Real Madrid.

Com a chegada de Xabi Alonso ao comando do clube na temporada seguinte, o espaço encolheu de vez. Em seis meses sob o novo técnico, foram apenas três jogos — período que incluiu uma lesão muscular na coxa que o afastou por cerca de três meses. O pai do jogador, Douglas Sousa, expôs publicamente a frustração da família em publicação no Instagram: "Eles não sabem quem realmente você é, o brilho que você tem. A sua dedicação, humildade e foco mostrarão o quanto foram injustos com você". Diante da falta de sequência, o empréstimo ao Lyon na janela de inverno tornou-se inevitável.

A virada nos gramados franceses

No Lyon, Endrick encontrou o que o Real Madrid não pôde oferecer naquele momento: regularidade. Os 14 gols diretos somados entre gols e assistências nas primeiras 18 partidas colocaram o atacante entre os brasileiros com melhor rendimento nas cinco principais ligas europeias na temporada. A consistência dos números chamou a atenção do próprio Ancelotti, que em março deste ano havia declarado publicamente que via Endrick como "um jogador para o futuro, não para o presente" — frase que soou como uma sentença para muitos observadores.

A resposta veio em campo. Num amistoso do Brasil contra a Croácia em Orlando, Endrick entrou aos 15 minutos do segundo tempo com o placar em 1 a 0. O Brasil cedeu o empate logo após sua entrada, mas o desfecho foi diferente do esperado: o atacante sofreu o pênalti que resultou no segundo gol e deu a assistência para Martinelli fechar o 3 a 1. A partida virou argumento concreto de permanência na briga.

"Foi uma noite de dúvidas e de senso de urgência. Eu sabia que poderia ser minha última chance. Rezei muito. Sabia que aquele dia poderia ser um divisor de águas para mim", admitiu Endrick ao jornal britânico The Guardian.

O peso da família e a maturidade forçada

A trajetória de Endrick nunca foi estritamente técnica. Desde os 17 anos, quando participou do programa Conversa com Bial ao lado da então namorada Gabriely Miranda e da mãe, Cíntia Sousa, a vida pessoal do jogador esteve sob escrutínio público. Cíntia, que acompanhou o filho desde a seleção para o sub-11 do Palmeiras e esteve ao lado dele na mudança para a Espanha, publicou uma mensagem sobre "dias difíceis" nas redes sociais logo após o filho ficar no banco em jogo do Brasil contra a Colômbia pelas Eliminatórias — partida para a qual Endrick havia sido convocado apenas porque Neymar se lesionou. A mensagem, enigmática na forma, foi direta no conteúdo: a família sente cada escolha do técnico tanto quanto o atleta.

O próprio jogador já havia descrito, em entrevista ao longo de 2023, como as críticas aos 16 anos chegaram a gerar "ódio no coração". A maturidade que ele demonstra hoje — inclusive ao falar abertamente sobre o medo durante a recuperação da lesão na coxa — é, em parte, produto forçado de uma exposição precoce. Hoje, Endrick espera o nascimento do primeiro filho enquanto luta por uma vaga no maior torneio do planeta.

O ciclo de dificuldades no Real Madrid Sete gols e sete assistências no Lyon re
O ciclo de dificuldades no Real Madrid Sete gols e sete assistências no Lyon re

O que os números significam para a Copa do Mundo

A análise do SportNavo mostra que Endrick chega à reta final da temporada europeia com médias que poucos atacantes brasileiros jovens atingiram em sua primeira experiência contínua no futebol europeu: aproximadamente um gol ou assistência a cada 77 minutos pelo Lyon. Na Seleção Brasileira, seu aproveitamento histórico também sustenta o argumento — 3 gols em 339 minutos disputados, média de um gol a cada 113 minutos com a amarelinha.

O relacionamento com Bellingham no Real Madrid — o inglês foi citado por Endrick como alguém que o fez "sentir acolhido" e que tentava falar espanhol para facilitar a comunicação — representa um ativo relacional para o retorno ao clube após o empréstimo. A questão agora é outra: se Ancelotti, que assume definitivamente a Seleção Brasileira para o Mundial, convocará Endrick com base na regularidade demonstrada na França ou aguardará uma reintegração ao Real Madrid. A lista final precisa ser definida até o início de junho, e os números do Lyon tornaram a omissão do nome de Endrick uma decisão que exigirá justificativa pública.