— Você acreditou que ia ganhar hoje?
— Honestamente? Fui torcer por empate.
— Pois é. E aí veio 2 a 0 fora de casa.
Quando o árbitro encerrou o jogo no Fluminense, no Estádio Luso Brasileiro, neste sábado (9), o Santos feminino havia construído algo que vai além do placar: reconstruiu uma narrativa que vinha se desmanchando rodada a rodada ao longo de sete semanas sem vitória no Brasileirão Feminino. Evelin Bonifacio, aos oito minutos do segundo tempo, e Laryh, aos 46, anotaram os gols que fizeram as Sereias da Vila voltarem a existir na tabela — 14 pontos, 11ª colocação — e que devolveram ao grupo algo que nenhum dado estatístico consegue quantificar com precisão: a sensação de que ainda há tempo.
O peso de sete rodadas sem vencer no Brasileirão Feminino
Sete jogos sem vitória não é apenas uma sequência negativa no sentido técnico. Para um clube como o Santos, que carrega uma das maiores histórias do futebol feminino brasileiro e que, segundo dados da CBF, figura entre os dez clubes com maior investimento histórico na modalidade no estado de São Paulo, essa marca representa também uma crise de identidade institucional. O modelo de futebol feminino no Brasil ainda depende, de forma desproporcional, de resultados imediatos para justificar orçamentos junto a patrocinadores e departamentos financeiros dos clubes — um paradoxo que pesquisadoras como a economista Thais Morrone já identificaram em estudos sobre governança esportiva de gênero. Nesse contexto, uma sequência de sete rodadas sem ganhar não é só uma estatística: é um argumento que aparece em reuniões de diretoria.
O Fluminense, que chegava ao confronto com 15 pontos e na nona posição, entrou em campo com a vantagem do mando e o histórico favorável recente. A primeira etapa, equilibrada, não deu sinais do que viria — o Santos voltou do intervalo com outra postura, mais agressivo na pressão e mais preciso nas transições ofensivas.
Como Evelin Bonifacio e Laryh resolveram o jogo no segundo tempo
A jogada que abriu o placar resumiu bem a proposta do Santos na etapa final. Eudimilla avançou pela direita com velocidade e cruzou na medida para Evelin Bonifacio, que apareceu livre na área e cabeceou firme — um gol que exigiu tanto qualidade técnica individual quanto organização coletiva para criar o espaço. A partir daí, as Sereias administraram com mais confiança, algo que havia faltado nas rodadas anteriores.
Nos acréscimos, já aos 46 minutos, Laryh encerrou a discussão com um voleio preciso no canto direito da goleira adversária após novo cruzamento. O lance teve a estética dos gols que ficam — e, funcionalmente, fechou qualquer possibilidade de reação do Fluminense. Nas palavras do coletivo que se expressou em campo, foi a atuação mais completa do Santos feminino em semanas.
14 pontos e a aritmética que ainda pode salvar a temporada
Com 14 pontos em dez rodadas, o Santos ocupa a 11ª colocação numa tabela em que as distâncias ainda são administráveis. O Brasileirão Feminino — Série A1 — tem formato que pune o descuido acumulado, mas raramente condena equipes com elenco qualificado a partir de uma virada de chave. A questão central não é matemática: é se o grupo consegue transformar este resultado em padrão de comportamento, e não em exceção.
O calendário de maio exige resposta rápida. Antes da próxima rodada do Brasileirão, o Santos enfrenta o Palmeiras pelo Paulistão Feminino — segunda rodada —, no dia 14 de maio, às 19h30. Clássico estadual contra um dos clubes com maior estrutura no futebol feminino brasileiro, com orçamento estimado pelo próprio clube em R$ 12 milhões anuais para a modalidade. Será o primeiro teste real sobre se a vitória sobre o Fluminense representa uma inflexão ou apenas um intervalo na crise.

O que a vitória revela sobre o modelo do Santos feminino
Há uma dimensão estrutural que a análise do resultado isolado tende a obscurecer. O Santos feminino opera em um modelo de sustentabilidade intermediária — não tem o aporte do Corinthians ou do Palmeiras, mas mantém uma base de jogadoras contratadas com regularidade. A instabilidade de sete rodadas sem vencer sugere menos um problema de elenco e mais uma questão de consistência tática e gestão emocional do grupo — variáveis que dependem de comissão técnica estável e de um calendário que não sobrecarregue fisicamente um plantel enxuto.
A vitória por 2 a 0 no Rio, construída com organização defensiva na primeira etapa e agressividade cirúrgica na segunda, indica que o potencial existe. Se ele será convertido em campanha consistente, a resposta começa a se esboçar já na rodada seguinte ao clássico paulista — quando o Santos volta ao Brasileirão Feminino. Até o encerramento do primeiro turno da competição, previsto para meados de julho de 2026, o clube terá ao menos seis confrontos diretos com rivais na mesma faixa de pontuação. Esses jogos dirão mais sobre o que esta vitória sobre o Fluminense realmente significa.









