Sete jogos consecutivos sem vitória, um empate de 1 a 1 com o Deportivo Recoleta no Paraguai e uma notificação extrajudicial circulando nos corredores do CT Rei Pelé — esse é o inventário do Santos na primeira semana de maio de 2026. O epicentro não é tático. É disciplinar: Neymar aplicou uma rasteira e um tapa no rosto de Robinho Jr. durante o treinamento de domingo, 3 de maio, e o episódio escalou juridicamente 24 horas depois, quando os representantes do jovem de 18 anos protocolaram documento exigindo investigação, imagens do treino e reunião para discutir possível rescisão contratual.

O padrinho que virou réu no próprio treino

Há uma ironia contábil nessa situação que merece ser nomeada. Neymar e Robinho Jr. mantinham, até domingo, uma relação descrita internamente como de "padrinho e apadrinhado". O camisa 10 abriu o placar contra o Recoleta aos 41 minutos do primeiro tempo, e os dois se abraçaram na comemoração — imagem distribuída pela própria Conmebol. Dois dias antes, na mesma semana, o padrinho havia xingado, rasteirado e esbofeteado o apadrinhado em atividade supervisionada pelo próprio Cuca. Não há tragédia aqui: há contabilidade.

A notificação extrajudicial enviada ao Santos é objetiva: Neymar "proferiu xingamentos de maneira ofensiva, aplicou uma rasteira e desferiu um tapa violento no rosto" de Robinho Jr. O estafe do jovem pede acesso às imagens do treino, manifestação formal do clube sobre as providências adotadas e uma reunião para avaliar rescisão. O Santos, por sua vez, confirmou a abertura de sindicância interna. Isso não é um desentendimento de vestiário abafado na hora do jantar — é um processo com potencial de virar litígio trabalhista.

Cuca nomeia o prejuízo sem poupar ninguém

Cuca foi diretamente ao ponto na coletiva após o empate no Paraguai. Questionado sobre o episódio, o treinador não distribuiu isenções.

"O que passou lá não é legal. Não pode passar pano. Fui eu que apitei o treino. Isso acontece no futebol, apesar de acontecer no futebol, são coisas que podem ser evitadas."

Mas foi na frase seguinte que o técnico entregou o diagnóstico real do clube:

O padrinho que virou réu no próprio treino Sete jogos sem vencer e uma briga que
O padrinho que virou réu no próprio treino Sete jogos sem vencer e uma briga que
"Sinceramente, do coração, quem está certo na história? Ninguém. Então, se todo mundo perde numa história dessa, na verdade o único que perde realmente é o Santos. Tem o nome ventilado em coisas ruins."

Quem defende Neymar nesse contexto costuma argumentar que brigas em treino fazem parte da cultura do futebol de alto rendimento — e que a intensidade é sintoma de competitividade. O problema com esse argumento é que ele ignora a assimetria de poder entre um jogador de 34 anos, capitão e maior salário do elenco, e um garoto de 18 anos que ainda constrói sua posição no grupo. Intensidade competitiva não precisa de rasteira e tapa no rosto para existir.

O efeito cascata na Sul-Americana e no Brasileirão

O Santos está na lanterna do Grupo D da Copa Sul-Americana com três pontos em quatro rodadas, enquanto o Recoleta — adversário desta terça-feira — chegou a quatro pontos e ocupa a terceira colocação. A equipe dominou mais de 70% da posse de bola na partida no estádio Monumental Río Parapití, no Paraguai, mas não converteu. Neymar acertou a trave em cobrança de falta na segunda etapa; Igor Vinícius parou no goleiro Nelson Ferreira. O empate veio aos minutos finais, com Galeano aproveitando cruzamento de Cardozo.

Segundo apuração do SportNavo, o calendário que vem pela frente agrava o cenário. Antes do próximo jogo pela Sul-Americana — contra o San Lorenzo, na Vila Belmiro —, o Santos ainda enfrenta Red Bull Bragantino e Coritiba pelo Brasileirão, além de novo duelo com os paranaenses pela Copa do Brasil. São quatro compromissos em sequência com um elenco que, do ponto de vista da coesão interna, está claramente fraturado.

A situação de Gabigol adiciona outra camada ao problema. Cuca cobrou publicamente o atacante por ter deixado o banco de reservas após ser substituído na partida contra o Recoleta. "Ele deveria ter ficado no banco junto com os companheiros e será cobrado por isso", declarou o treinador. Um jogador saindo do banco durante a partida e um capitão sendo alvo de notificação extrajudicial na mesma semana não são episódios isolados — são sintomas do mesmo ambiente.

Quem absorve o custo quando o vestiário racha

A tese de que o abraço no campo encerrou o capítulo é reconfortante, mas empiricamente fraca. Robinho Jr. e seus representantes não retiraram a notificação extrajudicial após a comemoração do gol. O Santos não arquivou a sindicância. O pedido de acesso às imagens do treino continua na mesa. O abraço foi uma fotografia; o documento jurídico é um processo.

Cuca resumiu o sentimento da torcida com precisão cirúrgica: "O torcedor do Santos quer ganhar jogos, conquistar títulos, ver o time jogar bem, fazer gols. Ele não quer ver sempre notícia ruim como estamos fazendo para ele. Temos que achar solução." A solução, no entanto, não aparece num horizonte imediato. A sindicância interna precisa ser concluída, a relação entre Neymar e Robinho Jr. precisa ser gerenciada com critério — e o campo precisa dar respostas que o vestiário está incapaz de dar sozinho.

O Santos recebe o San Lorenzo na Vila Belmiro pela quinta rodada da Copa Sul-Americana precisando de vitória para sair da lanterna do Grupo D — o elenco tem os nomes para isso, falta o ambiente para sustentar.