A última vez que um goleiro de clube brasileiro acumulou tamanha influência em disputas de pênaltis dentro de uma mesma temporada foi em 2006, quando Dida, então no Milan, voltou ao Brasil para a Copa do Mundo e impressionou a todos com sua frieza nas penalidades — mas era seleção, era Copa, era outro contexto. O que Éverson está fazendo pelo Atlético-MG em 2026 pertence a uma categoria própria: sete cobranças defendidas e um gol marcado em três competições diferentes, em questão de meses.

O número que define uma temporada histórica

Três competições, três séries de pênaltis, três classificações. Na Supercopa do Brasil contra o Flamengo, Éverson defendeu três cobranças — incluindo a sexta tentativa rubro-negra, que encerrou a disputa — e converteu a sua própria na sequência, garantindo o título ao Galo. Na semifinal do Campeonato Mineiro contra o América-MG, o camisa 22 parou duas cobranças e bateu o pênalti decisivo que selou o 4 a 2 e a vaga na final, disputada na Arena Independência. Na Copa do Brasil, contra o Ceará na quinta fase, repetiu a dose: duas defesas e mais um gol, desta vez num cenário em que o Atlético havia flertado abertamente com a eliminação por quase 90 minutos.

Esses números não existem por acaso. O próprio goleiro revelou a equação após a classificação sobre o Bucaramanga, na Copa Sul-Americana, onde também foi decisivo:

"Tudo é estudo, mas tem a intuição também do goleiro. Do momento que o batedor vai bater, a situação que ele tá dentro do placar..." — Éverson, em entrevista à ESPN.

Como cada decisão foi construída nos pênaltis

Contra o Flamengo na Supercopa, o contexto tornava a pressão ainda maior: era o 101º jogo de Éverson pelo clube, num duelo que havia saído do controle atleticano no segundo tempo, quando Bruno Henrique e Gabigol viraram o placar. O empate conseguido por Hulk levou a decisão para as penalidades, onde o goleiro foi soberano — defendendo três cobranças e convertendo a sua com precisão no canto. Contra o Ceará pela Copa do Brasil, o cenário foi ainda mais dramático: o Galo havia perdido a vantagem construída no jogo de ida em menos de cinco minutos, jogou a maior parte da partida com dez homens após expulsão de Cissé e só empatou aos 45 do segundo tempo, com gol de Pascini, para forçar os pênaltis. Nos 90 minutos regulamentares, foi Éverson quem segurou o time de ir a zero com defesas cruciais.

Quantos goleiros, no futebol brasileiro atual, seriam capazes de transformar uma derrota técnica em classificação com tanta regularidade?

No Mineiro, o clássico contra o América terminou em 0 a 0 depois de 90 minutos travados na Arena Independência. Com a bola parada, Hulk abriu a série para o Galo, Éverson defendeu a cobrança de Eduardo Person, Renan Lodi ampliou, Gabriel Barros descontou — e, no momento mais tenso, o goleiro voltou a intervir antes de bater o pênalti decisivo que carimbou a vaga na final.

Estudo, intuição e o peso de um elenco que aprendeu a contar com ele

No Brasil, diz o ditado que "quem não tem cão caça com gato" — mas o Atlético-MG tem o seu cão guardião, e ele usa luvas. Numa temporada marcada por turbulências administrativas, incluindo atrasos salariais que geraram tensão no vestiário, Éverson se tornou o porto seguro técnico e emocional do grupo. Após a classificação sobre o Bucaramanga na Sul-Americana, ele pediu apoio da torcida e declarou:

"Com essa vitória, esperamos colocar o trem no trilho. Seguir na sinergia muito boa entre nós jogadores junto com a nossa torcida."

O impacto vai além das estatísticas. Num clube que atravessa um processo de reconstrução sob Eduardo Domínguez, ter um goleiro que decide séries de pênaltis com estudo e frieza é o diferencial que separa eliminações precoces de campanhas consistentes. O Atlético-MG retorna a campo pela Copa do Brasil nas oitavas de final, onde enfrentará o Godoy Cruz, da Argentina, com datas previstas para 13 e 20 de agosto — e, se a história de 2026 se repetir, o adversário já sabe: se a decisão for nos pênaltis, o Galo chega ao confronto com vantagem antes mesmo de qualquer cobrança ser batida.