Os casacos Burberry já estavam distribuídos entre os companheiros quando Shai Gilgeous-Alexander subiu ao palco no domingo. Era o segundo troféu de MVP da NBA em dois anos — e a cena dizia muito sobre o tipo de atleta, e de pessoa, que o guarda do Oklahoma City Thunder se tornou. O canadense de 27 anos encerrou a temporada 2025-26 com médias de 31.1 pontos, 4.3 rebotes e 6.6 assistências em 68 jogos, tornando-se o 14º jogador da história a vencer o prêmio de forma consecutiva.

O que os números de Shai revelam sobre o MVP mais eficiente da era moderna

Eficiência não é estatística de fantasy — é o que separa um candidato de um vencedor.

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Shai Gilgeous-Alexander foi o primeiro armador na história da NBA a combinar médias acima de 30 pontos com aproveitamento superior a 55% nos arremessos em uma mesma temporada. Para contextualizar essa marca: nas últimas duas décadas, jogadores como Allen Iverson e Russell Westbrook dominaram o quesito pontuação, mas nunca com esse nível de aproveitamento. O Thunder, com 64 vitórias na temporada regular, construiu boa parte dessa campanha sobre o início avassalador do camisa 2 — 32.8 pontos, 6.4 assistências e apenas 1.7 turnovers por jogo nos primeiros 23 jogos, quando Oklahoma City abriu 22 vitórias em 23 partidas.

O título de Clutch Player of the Year, conquistado pela primeira vez na carreira, reforça o argumento técnico. Shai não apenas acumulou volume estatístico — ele produziu nos momentos em que o placar estava em aberto e o jogo exigia protagonismo real. Além disso, estendeu para 140 jogos consecutivos sua sequência marcando ao menos 20 pontos, ingressando em companhia de Wilt Chamberlain (1961-62 e 1963-64) e Elgin Baylor (1961-62) como únicos jogadores a atingir esse patamar em todos os jogos de uma temporada.

A contra-leitura justa sobre Nikola Jokic e Victor Wembanyama como finalistas

Dois finalistas com argumentos legítimos tornaram esse MVP o mais disputado em anos.

A narrativa que consagra Shai não pode ignorar a resistência que ela enfrentou. Nikola Jokic, do Denver Nuggets, é o único jogador vivo que já venceu três MVPs, incluindo dois consecutivos entre 2020 e 2022. A régua histórica que ele estabeleceu é alta o suficiente para questionar qualquer repetição que não seja igualmente dominante. Victor Wembanyama, dos San Antonio Spurs, por sua vez, apresentou números que redefiniriam a conversa em praticamente qualquer outra temporada — e ainda assim ficou em terceiro lugar na votação, o que revela o quanto Shai se afastou do pelotão.

Segundo apuração do SportNavo com base nos critérios históricos de votação, o MVP consecutivo raramente é concedido quando há um candidato de posição diferente com estatísticas comparáveis. Giannis Antetokounmpo venceu em 2018-19 e 2019-20 com domínio físico e bidirecional. Stephen Curry levou o prêmio em 2014-15 e 2015-16, com o segundo troféu sendo unânime. O padrão comum entre todos os bi-MVPs recentes é simples: o time deles foi o melhor da liga, e eles foram a razão mais visível disso.

"Há uma razão pela qual você tem sucesso quando passa por esse programa, por essa cidade", disse Gilgeous-Alexander na coletiva de imprensa. "Desde os torcedores, o amor que eles dão, até a diretoria, o técnico jogando o basquete certo. A forma como as coisas funcionam nessa organização cria sucesso — e não é coincidência."

O que o bi-MVP de Shai significa para o projeto econômico e esportivo do Thunder

Franquias constroem décadas em torno de jogadores como ele — e Oklahoma City sabe disso melhor do que qualquer cidade.

Oklahoma City não é uma metrópole de mercado grande. Com população de pouco mais de 680 mil habitantes, a cidade compete por atenção nacional com franquias de Los Angeles, Nova York e Chicago. A eleição consecutiva de Shai como MVP representa, do ponto de vista econômico, um ativo de marketing que vai muito além do basquete: aumenta o valor de mercado da franquia, eleva o engajamento digital do Thunder — que registrou crescimento expressivo em seguidores nas redes sociais durante a temporada 2025-26 — e fortalece a narrativa de que pequenos mercados podem competir de igual para igual quando a construção de elenco é feita com critério.

O general manager Sam Presti, presente na coletiva ao lado do técnico Mark Daigneault e do chairman Clay Bennett, representa exatamente esse modelo: paciência na construção, apostas em jovens e lealdade ao processo. O Thunder foi campeão na temporada passada, com Shai vencendo também o MVP das Finais, e agora está com 8 vitórias e 0 derrotas nos playoffs de 2025-26, aguardando o início da final da Conferência Oeste contra os Spurs de Wembanyama a partir desta segunda-feira.

"O círculo interno é algo que as pessoas esquecem", afirmou Shai na cerimônia. "Eu fico em quadra por duas horas e meia toda noite, e o resto do meu dia, vocês fazem minha vida parecer fácil."

Os presentes que distribuiu aos companheiros — relógios Audemars Piguet e casacos Burberry — são, ao mesmo tempo, gesto de gratidão e símbolo de uma liderança que se constrói fora das câmeras. O Thunder enfrenta os Spurs na final do Oeste a partir desta segunda-feira, buscando o bicampeonato com Shai Gilgeous-Alexander como o décimo quarto nome de uma lista que inclui Jordan, Magic, LeBron e Jokic — e que agora repete o MVP com a mesma convicção de quem nunca tratou o prêmio como destino garantido.