Os alto-falantes do Soccer City, em Johanesburgo, ainda vibravam com o apito final quando Shakira subiu ao palco para encerrar a Copa do Mundo de 2010. Era 11 de julho, Espanha havia derrotado a Holanda por 1 a 0 na prorrogação, e a voz da colombiana ecoou para uma audiência televisiva estimada em 700 milhões de pessoas ao redor do planeta. Aquele momento não era acidente — era o terceiro ato de uma construção que começaria dezesseis anos antes do halftime show histórico anunciado para 19 de julho de 2026.

A construção de um vínculo que atravessa quatro edições do torneio

A presença de Shakira na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, com "Hips Don't Lie" na cerimônia de abertura, foi o primeiro capítulo. Em 2010, a FIFA escalou a artista como voz do tema oficial: "Waka Waka (This Time for Africa)" tornou-se o single de Copa do Mundo mais vendido da história, superando 10 milhões de cópias digitais nos meses seguintes ao torneio. Em 2014, no Brasil, ela retornou para a cerimônia de encerramento no Estádio do Maracanã com "La La La", composta em parceria com Carlinhos Brown. Três edições consecutivas, três músicas que marcaram gerações de torcedores — uma consistência que nenhum outro artista atingiu no período.

Agora, para 2026, a FIFA anunciou oficialmente que Shakira integrará o primeiro halftime show da história da final do torneio, ao lado de Madonna e do grupo sul-coreano BTS. A apresentação acontecerá no MetLife Stadium, em Nova Jersey, e será produzida pela organização sem fins lucrativos Global Citizen, com curadoria de Chris Martin, vocalista do Coldplay. A receita do evento será direcionada ao Fundo de Educação Global Cívica da FIFA, iniciativa que tem como meta arrecadar 100 milhões de dólares para crianças ao redor do mundo durante o torneio.

O peso histórico de 'Waka Waka' como fenômeno cultural e musical

Analisar "Waka Waka" apenas como música de Copa seria reduzir seu alcance. A faixa, baseada no ritmo camaronês afrobeat e adaptada do canto tradicional "Zangalewa", permaneceu por 12 semanas no topo das paradas europeias em 2010 e foi o tema mais transmitido em rádios do continente africano naquele ano. Para efeito comparativo: "Un'estate italiana", de Gianna Nannini e Edoardo Bennato, tema oficial da Copa de 1990, vendeu 3 milhões de cópias em três meses — menos de um terço do desempenho de "Waka Waka" em plataformas digitais duas décadas depois.

"Uma música de Copa do Mundo precisa carregar a emoção de quem nunca jogou futebol mas que, naquele momento, pertence ao torneio tanto quanto qualquer atleta em campo", disse um produtor musical veterano com experiência em eventos da FIFA, em análise sobre o legado musical do torneio.

A trajetória de Shakira no torneio também reflete uma mudança na estratégia da FIFA em relação ao entretenimento. Até 2006, as cerimônias de abertura e encerramento eram eventos relativamente modestos, com artistas locais e atrações folclóricas. A partir da Copa da Alemanha, a entidade passou a investir em nomes de alcance global — e Shakira, com mais de 80 milhões de álbuns vendidos ao longo da carreira, tornou-se a referência central dessa política.

Shakira, Madonna e BTS num palco que o futebol nunca viu

O formato halftime show — consagrado pelo Super Bowl desde 1991, quando New Kids on the Block se apresentaram no Rose Bowl, na Califórnia — chegará à Copa do Mundo 56 anos após a primeira edição do torneio a ser televisionada globalmente. A escolha do MetLife Stadium, casa com capacidade para 82.500 espectadores, é estratégica: o estádio já sediou a final do Mundial de Clubes da FIFA em 2025 e testou o formato de intervalo estendido.

Na avaliação do SportNavo, a escala do evento de 2026 vai além da soma dos três artistas. Madonna acumula 335 milhões de discos vendidos em quatro décadas de carreira; o BTS, com mais de 32 bilhões de streams no Spotify, representa a maior audiência jovem do K-pop em território norte-americano. Colocá-los ao lado de Shakira — que em junho de 2024 já havia se apresentado no intervalo da final da Copa América, no Hard Rock Stadium, em Miami — cria uma combinação de alcance demográfico sem precedente em eventos esportivos.

Além do show, Shakira também assinou o hino oficial da Copa do Mundo de 2026: "Dai Dai", com lançamento confirmado para esta quinta-feira, 14 de maio, às 21h no horário de Brasília. Será a terceira vez que a artista interpreta o tema oficial do torneio — 2010, 2014 e agora 2026.

O legado que nenhuma estatística de gols consegue dimensionar sozinha

Gianni Infantino, presidente da FIFA, resumiu a aposta em uma publicação no Instagram: "Este será um momento histórico para o Campeonato do Mundo da FIFA e um espetáculo à altura do maior evento desportivo do mundo." A declaração ecoa o mesmo discurso de grandiosidade que acompanhou a expansão do torneio de 32 para 48 seleções, formato que estreia justamente em 2026, com jogos distribuídos entre Estados Unidos, México e Canadá, entre 11 de junho e 19 de julho.

A final do dia 19 de julho, portanto, reunirá pela primeira vez na história da Copa do Mundo um halftime show de escala global, um hino interpretado pela mesma artista que esteve no torneio em 2010, 2014 e 2024 — e uma audiência projetada em bilhões de espectadores. Shakira leva ao MetLife Stadium não apenas músicas, mas dezesseis anos de memória afetiva acumulada em quatro continentes. Esse tipo de legado funciona como uma catedral: não se constrói em uma única temporada, mas pedra por pedra, Copa por Copa, até que a estrutura sustente o peso de tudo que veio antes.