Kento Shiogai tinha 20 anos e microfone na mão quando decidiu cutucar o animal. "Esse era o Neymar de antigamente, não é? Acho que agora estamos bem", disse o atacante japonês, em conversa com jornalistas dos veículos Football Channel, Gekisaka e Soccer Digest, durante treino da seleção do Japão. A frase circulou nas redes sociais brasileiras com uma velocidade que só o futebol explica. E chegou, pode ter certeza, ao vestiário verde-amarelo em Morristown, Nova Jersey — onde Neymar já treina normalmente com o grupo.
A provocação que o Brasil inteiro ouviu
Shiogai não tentou esconder. Nascido em 2005, o atacante que ganhou espaço nas categorias de base do futebol japonês antes de seguir para a Europa foi além da frase sobre o "antigamente". Quando perguntado sobre a imagem que tem do Brasil, respondeu com uma candura que dói mais do que a provocação direta: "Antigamente era forte, mas e agora? Tenho a imagem de que a França é forte. A Argentina também. Sobre o Brasil, não tenho ouvido muito ultimamente." Depois, fez questão de amenizar — "O Brasil continua sendo forte. Se conseguirmos vencer, vamos ganhar ainda mais embalo" — mas o estrago já estava feito.
O problema para o Japão é que Shiogai escolheu provocar exatamente o tipo de jogador que responde com o pé direito. Neymar tem histórico contra os japoneses que o jovem atacante deveria ter consultado antes de abrir a boca. Ao longo da carreira, o camisa 10 marcou diversos gols diante da seleção japonesa e é referência histórica nos confrontos entre os dois países. Não é superstição — é estatística.

Neymar em Houston — o que mudou desde a Escócia
O contexto físico é o ponto central desta história. Na estreia do Brasil, uma vitória por 3 a 0 sobre a Escócia no dia 24 de junho, Neymar entrou nos últimos 15 minutos. Apenas isso. Os dois jogos anteriores — contra Marrocos e Haiti — ele não disputou, resultado de uma lesão muscular na panturrilha descoberta nos exames da CBF quando o jogador se apresentou à seleção em 27 de maio. A lesão era mais grave do que o Santos havia anunciado inicialmente.
Agora o cenário mudou. O camisa 10, que atuou como falso 9 ao entrar no lugar de Matheus Cunha contra os escoceses, treinou normalmente com os 25 jogadores disponíveis neste sábado (27) no centro de treinamento de Columbia Park, em Morristown. Carlo Ancelotti foi direto após a classificação:
"Teve oportunidade. Merecia jogar, trabalhou bem nos treinos, teve profissionalismo. Nessa Copa do Mundo, ele pode ajudar a equipe, e acho que jogou bem nesses poucos minutos."O técnico italiano não prometeu titularidade, mas a mensagem foi clara — Neymar está dentro dos planos para o mata-mata.
A tendência é que ele entre no segundo tempo, a depender do contexto da partida. Mas o contexto agora é diferente. É mata-mata. No Estádio NRG, em Houston, com capacidade para 68.300 pessoas, não existe empate que classifica. O calor do Texas em junho é sufocante — e a pressão, ainda mais.
O que o Japão sabe e o que preferia não saber
A seleção japonesa chegou à fase de 32 avos na segunda posição do Grupo F, com cinco pontos, atrás da Holanda. No caminho, empatou por 2 a 2 com os holandeses na estreia e mostrou qualidade técnica suficiente para incomodar qualquer adversário. Há um dado que a comissão técnica brasileira não pode ignorar: o Japão venceu o Brasil por 3 a 2 no último confronto entre as equipes, um amistoso em Tóquio em outubro do ano passado. O Brasil abriu 2 a 0 no primeiro tempo com Ancelotti no comando e sofreu a virada na etapa final.
Shiogai falou em confiança na defesa japonesa e na capacidade de neutralizar o ataque brasileiro. Não é blefe vazio — é uma equipe que sabe se organizar taticamente. Mas há uma diferença entre enfrentar o Brasil num amistoso de outubro, sem pressão eliminatória, e encarar o Brasil numa segunda-feira de mata-mata na Copa do Mundo, com Neymar motivado por uma frase que já virou manchete em todo o país.
Do lado brasileiro, Raphinha é a baixa confirmada — o atacante segue em tratamento de uma lesão na coxa direita em Morristown e não viaja para Houston. Rayan, do Bournemouth, que substituiu o catalão contra a Escócia, deve ser mantido entre os 11 iniciais. Será a primeira vez que Ancelotti repete uma formação desde que assumiu o comando da seleção em maio do ano passado — 15 escalações diferentes até aqui.
O Brasil enfrenta o Japão na próxima segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), no Estádio NRG, em Houston. Neymar embarcou para o Texas carregando 15 minutos de Copa, uma lesão que ficou para trás e a frase de um japonês de 20 anos que achou que o "antigamente" era mais perigoso. Houston vai responder quem estava certo — e o relógio já está correndo como o trânsito da Avenida Paulista às 18h: sem pausa, sem piedade.










