O cheiro de fumaça ainda pairava sobre o Atanásio Girardot quando a Independiente Medellín já sabia que havia perdido muito mais do que um jogo. Era quinta-feira, 7 de maio, e o que deveria ser uma tarde de Copa Libertadores virou um cenário de guerra urbana: sinalizadores cruzando o céu da Colômbia, pedras voando em direção ao gramado, cinegrafistas com roupas em chamas e nove pessoas presas. A partida durou exatamente um minuto antes de ser paralisada — e nunca mais recomeçou.
O que o regulamento da Conmebol diz quando a segurança colapsa
A leitura mais direta do Código Disciplinar da Conmebol aponta para um caminho sem curvas. O artigo 24.2 é categórico: quando uma equipe for considerada responsável pela suspensão definitiva, cancelamento ou abandono de uma partida, será aplicado o WO e o adversário declarado vencedor por 3 a 0. O Flamengo e sua comissão técnica leram esse artigo com atenção — e saíram de Medellín confiantes, não derrotados.
"Na minha opinião, não há outra solução senão nos dar os três pontos", afirmou o diretor esportivo José Boto em coletiva nesta sexta-feira (8/5), no Hotel Hilton, em Porto Alegre.
O técnico Leonardo Jardim reforçou a leitura institucional, mas com uma ressalva de timing que revela o quanto a situação o incomodou. Segundo ele, a arbitragem demorou tempo demais para tomar uma decisão que, dadas as circunstâncias, era óbvia. A paralisação durou cerca de 1h15 antes do cancelamento oficial — uma janela que, para quem estava no estádio sob bombas e laser nos olhos, pareceu eterna.
"Não havia segurança no estádio para os envolvidos, nem para que os torcedores pudessem assistir de forma segura. Meu espanto é terem demorado tanto tempo para a decisão", disse Jardim.
A versão que desafia a leitura fácil do caso
Antes de decretar que o Flamengo já tem os três pontos no bolso, um detalhe muda o tom da análise: a raiva da torcida do Medellín não era contra o clube carioca. Era contra o próprio time da casa. A crise interna do clube colombiano, que atravessa uma fase difícil na temporada, virou combustível para uma rebelião nas arquibancadas — e o Flamengo simplesmente estava lá no meio. Boto foi preciso ao descrever a situação no vestiário: "Eles não tinham nada contra o Flamengo, mas estávamos ali no meio. Arremessaram sinalizadores, pedras e ferros. Não havia condição alguma de segurança. Nós nos sentimos ameaçados, claro."
Esse contexto não muda o desfecho jurídico, mas complica a narrativa de que houve uma hostilidade premeditada contra o visitante. A repórter Lilly Nascimento, da ESPN, que estava no Atanásio cobrindo o jogo, relatou que os torcedores já vaiavam o próprio Medellín na entrada dos jogadores — e que o clima hostil antecedeu em muito o apito inicial. Ela própria teve equipamento atingido por sinalizadores, e o cinegrafista que a acompanhava sofreu queimaduras antes de a partida sequer começar.
O saldo material da noite, divulgado pela Polícia Metropolitana de Medellín, é da dimensão de um pequeno desastre civil: 9 pessoas detidas, sendo um menor de idade, 113 assentos arrancados, 13 pias e 9 vasos sanitários destruídos. O general Henry Yesid Bello, comandante da corporação, confirmou prisões por dano ao patrimônio público e agressão a funcionários. A prefeitura de Medellín, dona do estádio municipal, já avalia punições ao clube além das que virão da Conmebol — uma pressão do tamanho da distância entre Manaus e Salvador, que vai muito além do campo esportivo.
Precedente, punição e o calendário que pressiona a Conmebol
A entidade continental já navegou por águas semelhantes. Em 2025, a Conmebol declarou o Fortaleza vencedor sobre o Colo-Colo após o cancelamento de um jogo no Chile, interrompido aos 24 minutos do segundo tempo com duas mortes registradas do lado de fora do estádio. O precedente existe, o regulamento é claro — e o SportNavo apurou que a tendência nos bastidores da Conmebol é de resolução rápida, já que a próxima rodada do Grupo A da Libertadores está marcada para 20 de maio, sem margem para burocracia prolongada.
Além do WO e dos três pontos ao Flamengo, o Independiente Medellín deve receber multa pesada e punição de portões fechados em partidas da Conmebol. O caso está sendo investigado pelo Comitê de Paz e Convivência no Futebol da Colômbia, e a prefeitura de Medellín pode restringir o uso do Atanásio Girardot para jogos internacionais enquanto o processo corre.
Do lado rubro-negro, a delegação seguiu direto de Medellín para Porto Alegre, sem treino, com quatro ou cinco horas de sono mal aproveitadas num avião. Jardim admitiu preocupação com a carga fisiológica do grupo — não física, já que o jogo não aconteceu, mas o estresse da noite cobrou seu preço. O Flamengo enfrenta o Grêmio no domingo, dia 10 de maio, na Arena Grêmio, em Porto Alegre. A decisão formal da Conmebol sobre o placar e as punições ao Medellín deve sair antes de 20 de maio — mas o tribunal disciplinar da entidade tem até essa data para fechar o expediente.









