"Não se trata de perturbar o tênis, mas de salvá-lo para as futuras gerações."A frase é da PTPA — associação sindical fundada por Novak Djokovic em 2020 — e chegou ao público nesta segunda-feira, 4 de maio, embutida em um comunicado assinado por 20 tenistas liderados por Jannik Sinner, Aryna Sabalenka e Coco Gauff. O documento aponta Roland Garros como epicentro de uma crise de governança que o tênis profissional acumula há pelo menos uma década.
O diagnóstico do momento
Os números apresentados pelos jogadores constroem um argumento difícil de rebater. Em 2025, Roland Garros faturou 395 milhões de euros — crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A premiação, no mesmo período, subiu apenas 5,4%. Para a edição de 2026, marcada para começar em 24 de maio, a organização anunciou premiação recorde de 61,6 milhões de euros, alta de 9,5% — mas a fatia dos jogadores sobre o bolo total, em vez de crescer, regrediu: caiu de 15,5% em 2024 para uma projeção de 14,9% nesta temporada. Os signatários do comunicado exigem que esse percentual suba para 22%, patamar já praticado pelos circuitos ATP e WTA em seus torneios regulares.
A tensão não nasceu esta semana. Em março de 2025, os quatro órgãos dirigentes do tênis — ATP, WTA, ITF e ITIA — foram formalmente acusados pela PTPA de manter um sistema descrito como "abusivo e ilegal". A associação já sinalizou disposição de levar a disputa aos tribunais caso o diálogo não avance antes do início do torneio.

"Enquanto outros esportes modernizam sua gestão, os Grand Slams resistem à mudança. A falta de consulta aos jogadores reflete um sistema que ignora quem é fundamental para o sucesso do espetáculo", afirmam os signatários do comunicado.
Os fatores que explicam o quadro
Para entender por que Roland Garros concentra a insatisfação, a análise comparativa do SportNavo mostra que o Grand Slam francês deve encerrar a temporada 2026 como o de menor premiação entre os quatro majors. O Australian Open, em janeiro, anunciou aumento que o levou a 11 dígitos em dólares australianos, consolidando sua posição de referência na questão salarial. Wimbledon e o US Open historicamente acompanham ou superam o patamar do Open da Austrália. Paris, apesar do recorde nominal de 61,6 milhões de euros, permanece atrás na proporção receita-premiação.
O paralelo com outros esportes coletivos é inevitável — e constrangedor para o tênis. Na NBA, o Collective Bargaining Agreement garante aos jogadores aproximadamente 49% das receitas da liga. No vôlei, a Superliga italiana e as ligas geridas pela CEV operam com modelos de repasse que, embora menos formalizados, incluem mecanismos de participação nos direitos de transmissão. O tênis, ao concentrar poder decisório nas federações nacionais que controlam os Grand Slams — em vez de em uma liga unificada —, criou uma estrutura onde o atleta é o produto central, mas não o sócio do negócio. Seria exagerado chamar esse modelo de feudalismo esportivo — mas é uma hierarquia feudal em escala global.
A pauta do comunicado vai além do percentual de lucros. Os jogadores cobram melhorias em planos de pensão e assistência médica, dois pontos que revelam a fragilidade estrutural de uma carreira no tênis: não existe vínculo empregatício formal, e o atleta que se lesiona gravemente arca com custos que, em esportes coletivos de grande porte, seriam cobertos pelo clube ou pela franquia. O tênis masculino e feminino somam, no ranking ATP/WTA, atletas de mais de 90 países — um contingente que a ATP Cup, a Billie Jean King Cup e os próprios Grand Slams mobilizam sem a contrapartida de uma rede de proteção social equivalente.
Os cenários possíveis daqui
A Federação Francesa de Tênis (FFT), organizadora de Roland Garros, ainda não respondeu formalmente ao comunicado. O prazo tácito é curto: o torneio começa em 24 de maio, e uma greve ou boicote simbólico — mesmo que improvável dado o peso financeiro individual de cada participação — geraria um precedente sem antecedente na história dos Grand Slams.
O caminho mais provável, conforme levantamento do SportNavo com base no histórico de negociações similares no esporte mundial, é uma rodada de mediação conduzida pelo Conselho de Jogadores da ATP e da WTA antes da primeira semana do torneio. Em 2016, os quatro Grand Slams cederam à pressão coletiva e elevaram a premiação em conjunto — mas sem alterar a estrutura de governança. A PTPA, desta vez, parece disposta a exigir mudanças estruturais, não apenas numéricas.
Se a disputa chegar aos tribunais, o precedente mais próximo é o caso Freeman vs. NFL de 2011, nos Estados Unidos, que resultou em um lockout de 136 dias antes de um novo CBA ser firmado. O tênis, sem liga centralizada e com atletas juridicamente independentes, enfrentaria um processo ainda mais complexo. Sinner, número 1 do mundo, e Sabalenka, número 1 do ranking WTA, emprestar seus nomes ao comunicado não é detalhe: é o equivalente a Erling Haaland e Alexia Putellas assinarem uma petição contra a UEFA — o peso simbólico muda a natureza da negociação.
A FFT tem até 24 de maio para apresentar uma contraproposta concreta. Uma receita que cresce 14% ao ano enquanto o ingrediente principal — o atleta — recebe uma fatia decrescente não é uma fórmula sustentável: é um prato que, mais cedo ou mais tarde, perde o sabor que o tornou famoso.








