Três recordes. Vinte e dois triunfos consecutivos. Trezentos e cinquenta vitórias na carreira. Quando o árbitro anunciou o match point desta sexta-feira (1º) em Madri, Jannik Sinner já havia transformado mais uma semifinal numa obra-prima de precisão e domínio. O italiano de 24 anos desmontou o francês Arthur Fils em sets diretos — 6/2 e 6/4 — com aquela elegância fria que já o coloca, com crescente inevitabilidade, no panteão dos imortais do tênis mundial.

Um recorde que transcende gerações

O feito desta sexta-feira não é apenas uma estatística bonita de guardar num arquivo: Sinner se tornou o tenista mais jovem da história a alcançar a final em todos os nove Masters 1000 do circuito ATP — Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madri, Roma, Canadá, Cincinnati, Xangai e Paris. Nenhum jogador havia chegado a esse marco em tão tenra idade. Antes dele, apenas dois nomes tinham conseguido algo análogo, e esses nomes pesam como troféus de mármore: Roger Federer e Rafael Nadal. Sinner agora se iguala aos dois como o terceiro tenista da história a alcançar a final dos quatro primeiros Masters 1000 da temporada — Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Madri — numa mesma campanha.

O detalhe que amplia ainda mais a dimensão do feito: Sinner foi campeão nos três primeiros torneios desta sequência. Caso conquiste o troféu no domingo (3) na capital espanhola, o italiano se tornará o primeiro tenista da história a vencer os quatro primeiros Masters 1000 de uma mesma temporada. Uma fronteira que nem Federer nem Nadal jamais cruzaram.

Como Fils foi desmontado ponto a ponto

O primeiro set foi uma lição de leitura de jogo. O backhand cruzado de Sinner cortou o ar com precisão milimétrica, encontrando as linhas com aquela cadência que transforma devolução em ataque. Fils, número 20 do mundo, mal conseguiu se instalar nas trocas de base — e quando tentou forçar o ritmo, esbarrou nos reflexos rápidos do italiano, que construiu break points como quem orquestra uma sinfonia. O 6/2 foi devastador na frieza, não na brutalidade.

O segundo set, como o próprio Sinner reconheceu, trouxe um equilíbrio diferente. O saque de Fils ganhou mais profundidade, e os aces do francês passaram a ser um fator real. O italiano, porém, elevou o nível nos momentos decisivos — uma característica que separa campeões de bons jogadores. O 6/4 final selou a vaga com autoridade.

"Estou feliz por poder jogar outra final; nunca tinha chegado a essa fase antes. No primeiro set, me senti muito confortável na devolução. No segundo, as coisas ficaram mais difíceis porque ele sacou melhor. No fim do torneio, sempre tento elevar meu nível, e hoje as condições foram um pouco diferentes das quartas, mas me adaptei muito bem", declarou Sinner após a partida.

A construção silenciosa de uma lenda

Há algo de arquitetônico na carreira de Sinner. Cada tijolo colocado no lugar certo, sem pressa, sem excesso. O italiano não chegou ao topo com um Grand Slam relampejante e depois oscilou — construiu uma consistência que, conforme levantamento do SportNavo, é praticamente sem paralelo entre os tenistas da sua geração: 22 vitórias consecutivas no circuito, o 350º resultado positivo da carreira aos 24 anos. Para efeito de comparação, Federer tinha 22 anos quando conquistou seu primeiro Wimbledon. Sinner, na mesma idade, já acumulava títulos de Grand Slam e agora reescreve os livros dos Masters 1000.

A trajetória do italiano também revela um aspecto muitas vezes subvalorizado no tênis de alto nível: a adaptabilidade. Sinner joga com a mesma convicção no saibro de Monte Carlo, na quadra dura de Cincinnati e no piso rápido de Xangai. Não há superfície favorita — há apenas uma forma de jogar que se dobra ao contexto sem perder a identidade.

O que esperar da final de domingo

Na final do domingo (3), Sinner aguarda o vencedor do outro duelo de semifinal, disputado entre Alexander Zverev e Alexander Blockx. O alemão Zverev, ex-número 2 do mundo e campeão do Masters de Madri em 2021, seria o adversário de maior tradição na Caixa Mágica — mas Blockx, jovem belga de 21 anos, surpreendeu o torneio ao avançar até este estágio. Independentemente do adversário, Sinner entrará em quadra na condição de número 1 do mundo, com 22 vitórias nas costas e a história ao alcance do próximo drop shot.