O apito soou. A bola rolou. E havia apenas dez tunisianos em campo. O meio-campista Ellyes Skhiri, camisa 17 da Tunísia, estava no vestiário enquanto o segundo tempo de Tunísia x Copa do Mundo já havia começado oficialmente. A árbitra Katia Itzel García levou segundos para perceber a ausência. Parou tudo. Esperou. E só então deixou o jogo continuar.
O momento em que Katia García parou o segundo tempo por Skhiri
O calor de Kansas City já pesava sobre o gramado quando García autorizou o reinício da partida. A Holanda se posicionava. A Tunísia parecia pronta. Mas algo estava errado — uma silhueta a menos na marcação. García varreu o campo com o olhar, contou os atletas tunisianos e a conta não fechava: dez, não onze. Imediatamente, levantou o braço e paralisou o duelo antes que qualquer jogada fosse iniciada.

Skhiri apareceu segundos depois, trotando pelo corredor de acesso, ainda ajustando o uniforme. A cena foi captada por câmeras da Reuters e viralizou nas redes sociais em minutos, transformando um erro de logística de vestiário no assunto mais comentado da rodada. A agilidade da árbitra evitou que a Holanda iniciasse um ataque com superioridade numérica — o que, dentro das regras da FIFA, poderia gerar questionamentos sobre a validade do lance.
"A rápida intervenção da árbitra evitou que a partida prosseguisse de forma irregular e demonstrou atenção ao desenvolvimento do jogo", registrou o portal SportNavo em cobertura da partida.
O protocolo existe exatamente para isso. As regras do jogo determinam que, ao reiniciar após o intervalo, ambas as equipes devem estar completas em campo. Qualquer irregularidade na contagem de jogadores é responsabilidade do árbitro principal — e García cumpriu o papel com precisão cirúrgica.

O que os bastidores da arbitragem revelam sobre esses atrasos
Situações como a de Skhiri são mais comuns do que parecem, mas raramente chegam ao conhecimento do público porque, na maioria das vezes, são resolvidas antes do apito. Nas décadas de 1980 e 1990, sem câmeras de transmissão em alta definição cobrindo cada ângulo do estádio, episódios semelhantes passavam despercebidos — ou eram simplesmente abafados. Na Copa de 1990, na Itália, relatos de jogadores que chegaram atrasados ao segundo tempo circularam nos bastidores sem nunca ganhar manchete. Hoje, com 40 câmeras por partida em um Mundial, não há ângulo morto.
A rotina de um árbitro principal durante o intervalo é mais intensa do que a maioria imagina. García e sua equipe passaram os 15 minutos revisando lances polêmicos do primeiro tempo com a equipe do VAR, recebendo orientações da FIFA e se preparando para o reinício. A responsabilidade de confirmar que os 22 jogadores estão em campo recai sobre os árbitros assistentes — mas a decisão final de apitar é sempre do árbitro central. Neste caso, a mexicana assumiu o controle antes que qualquer assistente sinalizasse.
"Segundo fontes da delegação tunisiana, Skhiri teria se atrasado por conta de uma questão de equipamento no intervalo — mas a federação não confirmou oficialmente a versão", informou a imprensa internacional que acompanha a seleção africana.
A estreia histórica de Katia García e o que a FIFA precisa mudar
O episódio não apagou — e não deveria apagar — o peso histórico do que aconteceu em Kansas City. Katia Itzel García tornou-se a primeira mulher latino-americana a atuar como árbitra principal em uma Copa do Mundo masculina. A mexicana chegou ao torneio com um currículo sólido: apitou a final feminina dos Jogos Olímpicos de Paris em 2024 e é considerada uma das árbitras mais experientes da CONCACAF.
A condução tranquila do incidente com Skhiri foi elogiada por analistas de arbitragem. Sem drama, sem confronto, sem perda de tempo desnecessária. García parou, esperou, retomou. A partida seguiu normalmente, com a Holanda vencendo por 3 a 1 e garantindo a classificação para as oitavas de final.
O episódio, porém, expõe uma lacuna operacional que a FIFA pode resolver com um protocolo simples: um oficial de campo designado exclusivamente para confirmar, junto às delegações, que todos os titulares escalados para o segundo tempo estão no túnel antes do apito. Algumas ligas europeias já adotam esse controle internamente. O Mundial de 2026, com 48 seleções e 104 partidas, é o ambiente ideal para tornar esse procedimento obrigatório. A próxima rodada da fase de grupos acontece já neste fim de semana, com dezenas de partidas simultâneas — e o risco de um novo Skhiri está sempre presente.








