Há exatamente um ano, Arne Slot conduzia o Liverpool ao título da Premier League com uma demolição de 5 a 1 sobre o Tottenham em Anfield. Hoje, o mesmo técnico acumula seis derrotas nos últimos sete jogos, uma eliminação nas quartas da Champions League para o PSG e uma torcida que já canta músicas pedindo sua saída. O paradoxo não é poético — é contábil.

O campeão que desmoronou antes do inverno acabar

A temporada 2025/26 começou com o Liverpool sendo apontado como favorito a reter o título. O clube havia investido £450 milhões em reforços na janela de verão, incluindo nomes como Florian Wirtz e Alexander Isak. A lógica era simples: se Slot ganhou com o elenco de Klopp, imagine com dinheiro novo. A lógica falhou.

A sequência de seis derrotas em sete jogos — incluindo um humilhante 4 a 0 para o Manchester City na FA Cup e uma eliminação em casa para o PSG na Champions — praticamente enterrou qualquer chance de título. O Arsenal levou a Premier League 2025/26. O Liverpool, que chegou a liderar a tabela no início do ano, terminou brigando pela quarta colocação e uma vaga na próxima Liga dos Campeões.

O talkSPORT resumiu bem o clima: "A pressão aumenta sobre Arne Slot após o Liverpool sair sem nenhum título depois de gastar £450 milhões." Não há tragédia aqui — há contabilidade.

O que os dados revelam sobre o colapso tático

Para quem acompanha futebol com métricas, o declínio de Slot tem assinatura clara. Três números explicam o problema melhor do que qualquer manchete:

O campeão que desmoronou antes do inverno acabar Slot ganhou a Premier League e
O campeão que desmoronou antes do inverno acabar Slot ganhou a Premier League e
  • xG (expected goals) contra: O Liverpool passou a conceder mais chances de alta qualidade por jogo do que na temporada passada — o que indica que o bloco defensivo ficou menos compacto e o posicionamento em transição piorou substancialmente.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): Um PPDA alto significa que o time pressiona pouco. O Liverpool de Slot na segunda temporada pressionou com menos intensidade do que em 2024/25, permitindo que adversários construíssem com mais conforto — o oposto do que se espera de uma equipe que gastou £450 milhões para ser mais dominante.
  • Progressive passes: A capacidade de avançar a bola em direção ao gol com passes progressivos caiu, especialmente no meio-campo. Com Wirtz ainda em fase de adaptação e o desgaste de Mac Allister, o Liverpool perdeu fluidez na transição ofensiva — o que explica as partidas travadas e sem criatividade que irritaram a torcida.

Em outras palavras: o time ficou mais passivo sem bola e menos vertical com ela. Para um clube que gastou essa quantia, é um retrocesso técnico difícil de justificar.

O caso Salah como catalisador da crise

A tensão entre Slot e Mohamed Salah adicionou uma camada extra de ruído. O egípcio, que encerrará sua passagem por Anfield ao fim desta temporada, demonstrou insatisfação ao ser mantido no banco em partidas decisivas. Suas postagens nas redes sociais, segundo o The Telegraph, continuaram a "minar" a posição do técnico publicamente. É difícil manter autoridade num vestiário quando o maior ídolo da torcida está de saída e não esconde o descontentamento.

A diretoria que não decide — e o que isso revela

O FSG, dono do Liverpool, está numa posição desconfortável que lembra o episódio Brendan Rodgers em 2015. Naquela ocasião, o clube manteve o técnico após uma temporada ruim, bancou contratações caras como Christian Benteke por £32,5 milhões e Roberto Firmino por £29 milhões — e demitiu Rodgers no início da temporada seguinte, em outubro. O substituto foi Jurgen Klopp. O resto é história.

Agora, os sinais apontam para permanência de Slot, ao menos por enquanto. O jornalista Ben Jacobs, do GiveMeSport, foi categórico:

"Não acho que essa narrativa de que o Liverpool reavaliará a situação no verão tenha muita credibilidade em relação ao futuro de Arne Slot. O clube e o FSG apoiam Slot e têm um grande verão pela frente."

Fabrizio Romano confirmou que haverá uma revisão de fim de temporada envolvendo todos os setores do clube, mas ponderou que nenhuma decisão seria tomada antes do encerramento do campeonato. O The Telegraph acrescentou um sinal concreto de confiança institucional: o FSG aprovou a contratação de Etienne Reijnen, especialista em bolas paradas e aliado de longa data de Slot desde os tempos de Feyenoord, onde conquistaram a Eredivisie juntos em 2023. Reijnen havia tentado seguir Slot para Anfield em 2024, mas problemas com visto impediram a mudança. Agora, o caminho está livre.

Didi Hamann, ex-meio-campista do Liverpool, resumiu o dilema da torcida com precisão:

"Provavelmente pela primeira vez em muito tempo, os torcedores do Liverpool estão divididos. É uma torcida muito experiente, e o Liverpool normalmente não demite treinadores. Mas geralmente, quando a torcida se volta contra, é uma questão de tempo até que o treinador tenha que sair."

O efeito cascata e o que vem a seguir

A saída confirmada de Salah, a possível partida de Andy Robertson e a necessidade de integrar um elenco que custou £450 milhões sem ter entregado resultados — tudo isso vai para o colo de Slot na próxima janela. O nome de Xabi Alonso circula nos bastidores como alternativa, mas a BBC aponta que não há indicações concretas de que o FSG planeja uma troca imediata.

O que está claro é que a temporada 2026/27 será o verdadeiro julgamento de Arne Slot. Com Reijnen chegando, elenco reformulado e sem a pressão de um Salah descontente no vestiário, o técnico terá condições — e desculpas — esgotadas. O Liverpool encerra a Premier League 2025/26 no domingo contra o Everton, no estreante Estádio Hill Dickinson, precisando de um resultado positivo para confirmar a vaga na próxima Champions League. Para Slot, é o mínimo aceitável numa temporada que prometia muito mais.