É um relojoeiro que guarda a peça mais cara no cofre enquanto o relógio ainda funciona. Ståle Solbakken, técnico da Noruega, sentou Erling Haaland no banco de reservas diante da França — que venceu por 4 a 1 e fechou a liderança do Grupo I — e fez o mesmo com Martin Odegaard, o meia do Arsenal. A decisão foi pragmática, calculada e, para quem acompanha o futebol escandinavo há décadas, absolutamente coerente com a filosofia que Solbakken construiu desde que assumiu a seleção norueguesa em 2021.
O diagnóstico do treinador foi direto: cinco ou seis jogadores chegaram ao jogo contra a França com níveis críticos de desgaste físico, consequência direta da partida contra o Senegal, vencida pela Noruega por 3 a 2 em um duelo de altíssima intensidade. Preservar Haaland não foi capricho — foi cálculo de risco aplicado a um torneio de eliminação direta, onde cada partida pode ser a última.
A lógica de Solbakken e o que ela revela sobre a Noruega desta Copa
Solbakken deixou claro, em coletiva de imprensa, que Haaland tinha uma janela para entrar em campo caso o placar permitisse uma reação.
"A partir da última parada para hidratação, caso a partida estivesse equilibrada e o resultado ainda nos permitisse buscar algo", explicou o treinador.O 4 a 1 construído pelos franceses fechou essa janela antes mesmo de ela se abrir de verdade.
Quem acompanha a trajetória de Haaland sabe o peso dessa ausência para o público. O centroavante do Manchester City chegou a esta Copa do Mundo com números que poucos atacantes da história norueguesa ousariam imaginar: mais gols do que jogos pela seleção, uma média que rivaliza com a de Gerd Müller nas eliminatórias europeias dos anos 1970. Ver esse jogador no banco enquanto a França marcava quatro vezes foi, para os torcedores presentes, uma tortura. Mas Solbakken não cedeu à pressão das arquibancadas.
"Não podemos ser o país ingênuo que vem aqui apenas para entreter. Estamos aqui para chegar o mais longe possível. Por isso precisamos tomar as decisões que julgamos corretas. Claro que penso nos torcedores. Mas não me arrependo da decisão e não tenho nenhuma dúvida de que fizemos o certo", afirmou o técnico.
Essa postura remete a uma tradição de gestão escandinava no futebol que tem precedentes históricos. A Suécia de 1958, finalista da Copa disputada em casa, alternava titulares com frequência durante a fase de grupos sem perder a coesão tática. A Dinamarca campeã da Eurocopa de 1992 — convocada de última hora após a exclusão da Iugoslávia — também demonstrou capacidade de poupar e adaptar em momentos críticos. Solbakken parece ter estudado esses modelos.
A Costa do Marfim que Solbakken respeita mais do que admite
Quando perguntado sobre um possível duelo com o Brasil nas oitavas de final, o técnico norueguês adotou cautela que beira o protocolo diplomático.
"Acho que ainda falta muito tempo para falar disso. O Brasil pode pensar nisso. Nós ainda temos um jogo muito difícil contra a Costa do Marfim. Acho que eles são uma equipe muito boa. Fisicamente, são uma das seleções mais fortes do torneio. Vimos isso contra Equador e Alemanha. Quanto ao nosso jogo contra a Costa do Marfim, vejo como algo totalmente equilibrado, 50 a 50. Precisaremos fazer nossa melhor partida para vencer", disse Solbakken.
A Costa do Marfim não é adversário para subestimar. A seleção marfinense, que conta com jogadores rodando nas principais ligas europeias, apresentou intensidade física nos confrontos da fase de grupos que impressionou até mesmo analistas mais céticos. A diferença de impacto físico entre a Costa do Marfim e a Noruega, medida em duelos aéreos ganhos e sprints por jogo, é da ordem de 12 a 15% favorável aos africanos — uma margem que, no futebol de Copa do Mundo, equivale à distância entre Recife e São Luís: pequena no mapa, enorme quando você precisa percorrê-la a pé.
A partida está marcada para a próxima terça-feira, dia 30 de junho, às 14h (horário de Brasília). O Brasil enfrenta o Japão um dia antes, no mesmo horário, em Houston. O vencedor do confronto entre brasileiros e japoneses aguarda o classificado entre noruegueses e marfinenses nas oitavas.
O que a história das Copas diz sobre seleções que poupam estrelas na fase de grupos
Poupar titulares na última rodada da fase de grupos não é novidade no futebol de Copa do Mundo, mas os resultados são ambíguos. A Espanha de 2010 perdeu para a Suíça na estreia e chegou ao título com uma gestão impecável de elenco. A Alemanha de 2014 poupou jogadores na última rodada do grupo e manteve ritmo até a final, vencida por 1 a 0 sobre a Argentina com gol de Mario Götze na prorrogação. Por outro lado, a França de 2002 — então campeã mundial e europeia — entrou em campo sem Zidane lesionado, foi eliminada na fase de grupos sem marcar um único gol e voltou para casa antes do previsto.
A Noruega não tem o histórico das grandes potências. A última participação do país em uma Copa do Mundo havia sido em 1998, na França, quando a seleção eliminou o Brasil por 2 a 1 na fase de grupos — resultado que ainda hoje é citado como um dos maiores azarões da história do torneio. Naquele jogo, em Marselha, Tore André Flo e Kjetil Rekdal, de pênalti, derrubaram a seleção de Zagallo que tinha Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos. Vinte e oito anos depois, a Noruega voltou à Copa com Haaland no lugar de Flo e Odegaard no lugar de Rekdal — e com ambos no banco contra a França.
O risco real de enfrentar o Brasil nas oitavas
Se a Noruega superar a Costa do Marfim na terça-feira, o encontro com o Brasil nas oitavas deixa de ser hipótese e vira realidade. A seleção brasileira, sob o comando de Carlo Ancelotti, chega a essa fase com a geração mais talentosa desde a Copa de 2002: Vinicius Jr., Rodrygo, Endrick e Raphinha formam um quarteto ofensivo com velocidade e criatividade que poucos defensores do mundo conseguem controlar por 90 minutos.

Haaland, se estiver 100% fisicamente, representa a maior ameaça individual que o Brasil pode encontrar nesta fase do torneio. O centroavante tem 6 centímetros a mais do que a média dos zagueiros brasileiros convocados, joga com as costas para o gol com eficiência que lembra o Ronaldo Fenômeno da Copa de 1998 — ironia que não escaparia a nenhum torcedor norueguês. Mas para que esse confronto aconteça, Solbakken precisa primeiro resolver o problema marfinense. E ele sabe disso melhor do que ninguém.
Em matéria do SportNavo, os dados de aproveitamento da Noruega nesta Copa mostram que a seleção venceu apenas um dos dois jogos disputados, com saldo de gols negativo (-2). Contra o Brasil, esse saldo precisaria ser radicalmente diferente. A pergunta que fica para os próximos dias é: se Haaland entrar em campo descansado e a Noruega eliminar a Costa do Marfim, Ancelotti vai mudar o esquema de marcação para isolar o centroavante — ou vai apostar que a velocidade do ataque brasileiro resolve antes de a bola chegar nos pés do camisa 9?










