Confesso: eu errei sobre Deiveson Figueiredo em 2024. Quando ele encerrou o ciclo no peso-mosca e subiu para os galos, escrevi que a transição seria natural — que a explosividade do paraense de Soure bastaria para compensar o ajuste de peso. Errei. Os resultados contra Cory Sandhagen e Rob Font mostraram que a divisão dos 61,2 kg exige mais do que potência: exige adaptação tática profunda. Hoje, às vésperas do UFC China, enxergo com mais clareza o que aquelas derrotas ensinaram ao lutador e por que este confronto contra Song Yadong, em Macau, é diferente de tudo que veio antes na sua jornada nos galos.

O cartel que explica a urgência de Figueiredo em Macau

Figueiredo chega ao UFC China com cartel de 23 vitórias, 4 derrotas e 1 empate, mas o recorte recente é o que importa para o ranking: 1 vitória e 3 derrotas nos últimos 4 confrontos, todos no peso galo. A derrota para Sandhagen, em outubro de 2024 em Salt Lake City, foi a segunda consecutiva e colocou o brasileiro numa posição que ele nunca havia ocupado na carreira — fora do top 5 da divisão sem perspectiva clara de retorno imediato ao título. O finish rate de Figueiredo ao longo da carreira é de 78%, um dos mais altos entre ex-campeões ainda ativos no UFC, mas nos galos esse número caiu para 50%. Isso não é coincidência: os atletas dessa divisão têm base de wrestling mais sólida e resistência ao ground and pound mais desenvolvida do que os pesos-mosca que ele finalizava com frequência.

A pesagem desta sexta-feira (29) em Macau transcorreu sem intercorrências — Figueiredo e Yadong bateram os 61,2 kg exigidos pela categoria, confirmando a luta principal do evento deste sábado. Entre os 26 atletas escalados para os 13 confrontos da noite, nenhum gerou a expectativa que o duelo principal carrega, conforme registrado pelo SportNavo ao acompanhar a cerimônia oficial.

O cartel que explica a urgência de Figueiredo em Macau Song Yadong pode ser o ma
O cartel que explica a urgência de Figueiredo em Macau Song Yadong pode ser o ma

O que os números revelam sobre Song Yadong antes do confronto

Song Yadong, 27 anos, nascido em Harbin, na China, é o tipo de atleta que os algoritmos de ranking subestimam e os técnicos de alto nível respeitam. Seu cartel de 21 vitórias e 8 derrotas esconde uma progressão técnica consistente: nos últimos três anos, o chinês melhorou seu takedown defense de 61% para 74%, o que significa que chegou ao confronto com Figueiredo como um lutador que não pode ser levado ao chão com facilidade. O striking differential de Yadong é positivo em +2,3 golpes significativos por minuto, número que coloca o chinês entre os dez melhores finalizadores de trocação da divisão. Ele acerta em torno de 52% dos seus golpes de longa distância — uma precisão que se traduz em nocautes e TKOs, com 11 vitórias por paralisação no cartel.

O perigo de Yadong está na variação de distância: ele usa o clinch para neutralizar o jogo de pernas adversário e, a partir daí, trabalha com joelhadas e cotovelos com uma fluidez que lembra a escola muay thai aplicada ao MMA moderno. Para Figueiredo, que historicamente prefere o médio alcance para encaixar o gancho de esquerda — seu golpe de maior porcentagem de nocaute —, o desafio será evitar ser preso no clinch e forçado a uma batalha de trocação curta onde Yadong tem mais experiência recente.

A estratégia que Figueiredo precisa executar para vencer

Existe uma cena em Warrior, o filme de 2011 com Tom Hardy e Joel Edgerton, onde o personagem de Hardy vence adversários tecnicamente superiores simplesmente porque ninguém consegue suportar a pressão que ele aplica. Figueiredo tem esse DNA — quando ele decide pressionar, o nível de violência do seu ground and pound é sufocante. O problema é que, nos galos, ele ainda não encontrou o timing certo para iniciar essa pressão sem se expor ao contra-ataque. A chave táctica desta luta está no sprawl: se Figueiredo conseguir defender os eventuais takedowns de Yadong e manter a luta em pé nos seus termos, a potência do brasileiro se torna determinante. Sua takedown accuracy histórica é de 44%, mas nos galos esse número caiu para 31% — o que indica que ele precisa ser mais seletivo na hora de buscar o solo.

A equipe de Figueiredo, liderada pelo técnico André Dida, trabalhou especificamente no jab longo para criar distância contra o clinch de Yadong. Nas palavras do próprio Figueiredo em entrevista à mídia credenciada no Media Day do evento,

"Eu vim para Macau para mostrar que ainda sou o mesmo lutador que dominou o peso-mosca. Aprendi muito com as derrotas e estou pronto para executar o plano."
A declaração revela consciência tática — ele não negou as derrotas, as incorporou ao processo.

O que está em jogo no ranking dos galos após esta luta

O campeão dos galos atualmente é Merab Dvalishvili, que detém o cinturão após derrotar Sean O'Malley. O georgiano tem defesa de takedown de 89% e um volume de wrestling que exige que qualquer desafiante chegue ao título com credencial técnica sólida — não apenas com uma sequência de vitórias. Uma vitória de Figueiredo sobre Yadong, especialmente por finalização ou TKO, colocaria o brasileiro diretamente no top 3 da divisão e abriria negociação concreta com o UFC para uma luta pelo cinturão. Uma vitória por decisão ainda seria relevante, mas exigiria mais uma luta de posicionamento antes do shot ao título.

Para Song Yadong, a equação é inversa: uma vitória sobre um ex-campeão com o histórico de Figueiredo seria o argumento definitivo para uma luta pelo cinturão numa arena chinesa, o que o UFC claramente tem interesse comercial em viabilizar. O evento em Macau é parte de uma estratégia de expansão da empresa para o mercado asiático, e um Yadong campeão seria um ativo de marketing sem precedentes para a organização na região. O rear naked choke ou o nocaute que definir esta luta vai reverberar muito além do octógono.

O UFC China acontece neste sábado, com a luta principal entre Figueiredo e Yadong programada para o card principal da noite em Macau. O vencedor enfrenta, nas próximas semanas, a negociação mais importante da sua carreira — provavelmente uma luta de contendores obrigatória contra o número 1 do ranking antes de chegar a Dvalishvili. É o mesmo cenário que T.J. Dillashaw viveu em 2017, quando precisou vencer três lutas seguidas fora do título para reconstruir sua posição e finalmente recuperar o cinturão — só que agora a aposta de Figueiredo é feita num octógono em solo chinês, com 38 anos no passaporte e a urgência de quem sabe que as janelas não ficam abertas para sempre.