A última vez que a Juventus perdeu pontos em casa para um time na zona de rebaixamento da Serie A por erro individual na saída de bola foi na temporada 2019/20, quando o então técnico Maurizio Sarri tentava, sem sucesso, implantar seu futebol posicional em um elenco construído para o pragmatismo de Allegri. Seis anos depois, Luciano Spalletti enfrenta o mesmo diagnóstico estrutural: zagueiros de alto nível individual, incapazes de funcionar como primeiro nó da construção de jogo.

O passe que colocou Bremer na berlinda da Juventus

No empate por 1 a 1 com o Hellas Veronapenúltimo colocado da Serie A 2025/26 — no Allianz Stadium, Gleison Bremer errou um passe simples durante uma saída de bola curta próxima à própria grande área. O lance originou diretamente o gol de empate adversário. O tipo de erro que Spalletti não tolera: não foi um duelo perdido, não foi velocidade insuficiente. Foi uma falha de leitura posicional e técnica de passe, exatamente o fundamento que o treinador italiano mais exige de seus zagueiros.

Em coletiva pós-jogo, Spalletti não poupou clareza:

"Existem certas características que criam uma estrutura para os jogadores: temos Bremer e Kelly, dois grandes zagueiros com qualidades individuais, que se destacam nos duelos, na força e na defesa. Mas talvez lhes falte algo na construção de jogo, na capacidade de sair jogando e criar jogadas. Essa não é a característica deles, e temos que conviver com isso."

A frase "essa não é a característica deles" é uma declaração técnica com consequências diretas de mercado. Spalletti não disse que Bremer é ruim. Disse que Bremer não é o que ele precisa.

O que os dados revelam sobre o perfil defensivo atual da Juventus

O sistema de Spalletti exige que os zagueiros participem ativamente da fase de construção: saídas em três ou quatro, progressão com a bola, pressão alta sincronizada com a linha defensiva compacta. É o modelo que ele aplicou no Napoli campeão italiano em 2022/23 — aquela equipe tinha Kim Min-jae, zagueiro sul-coreano com índice de passes progressivos acima de 4,2 por 90 minutos, segundo dados do FBref.

Bremer opera em outro registro. Seu valor está na marcação individual, na disputa de bola aérea (média de 4,7 duelos aéreos ganhos por 90 minutos na Serie A) e na capacidade de cobrir espaços em transição defensiva. São atributos de elite — e completamente diferentes do que Spalletti precisa para organizar sua linha de pressão alta.

Lloyd Kelly, o inglês que divide a zaga com o brasileiro, tem perfil similar: físico, agressivo, limitado na saída de bola. A análise do SportNavo sobre os dados de passe da dupla confirma o que Spalletti verbalizou: menos de 3% dos passes de Bremer e Kelly na temporada atual foram classificados como progressivos a partir do terço defensivo.

O número central desta história é esse: 3%. É a taxa de passes progressivos saindo da zaga bianconera. Para comparação, zagueiros construtores de elite — como Rúben Dias no Manchester City ou Alessandro Bastoni na Inter de Milão — operam entre 8% e 12% nesse índice. A Juventus de Spalletti está a quilômetros de distância do padrão que o técnico considera mínimo.

Bremer negociável e o que a Juventus busca no mercado

Contratado junto ao Torino na temporada 2022/23, Bremer tem contrato com a Juventus até junho de 2029 e salário de 5 milhões de euros por temporada. A multa rescisória fixada é de 58 milhões de euros — cerca de R$ 337 milhões na cotação atual. Segundo o jornal italiano Tuttosport, o zagueiro de 29 anos está na lista de negociáveis da diretoria bianconera.

A janela de transferências do verão europeu de 2026 representa, provavelmente, a última oportunidade de a Juventus recuperar valor próximo ao da cláusula. Com 30 anos no início da próxima temporada e histórico de lesão grave no joelho direito — ruptura do LCA em outubro de 2024 —, o preço de mercado de Bremer só tende a cair a partir daqui.

O perfil buscado pela Juventus para substituí-lo ou complementá-lo é oposto: zagueiro com saída de bola apurada, confortável sob pressão, capaz de iniciar jogadas em espaços reduzidos. Nomes como Alessandro Buongiorno — do Napoli, ex-Torino — e Edmond Tapsoba, do Bayer Leverkusen, têm sido associados ao clube nas últimas semanas pela imprensa italiana, embora nenhuma negociação esteja confirmada.

A urgência também vem do calendário. A Juventus ocupa a quarta posição na Serie A com três rodadas restantes — uma vitória separa o clube da vaga direta na Champions League 2026/27. Empatar com o Hellas Verona, 19º colocado, em casa, por falha na saída de bola, é exatamente o tipo de resultado que acelera decisões de mercado.

O próximo jogo da Juventus é fora de casa, contra a Lazio, no Estádio Olímpico de Roma, no fim de semana. Uma derrota pode abrir caminho para que Milan ou Atalanta ultrapassem os bianconeri e compliquem a classificação europeia — o que tornaria ainda mais premente a reformulação que Spalletti já sinalizou publicamente.