O silêncio. Esse foi o detalhe que Luciano Spalletti escolheu para descrever o que encontrou no vestiário da Juventus após o empate em 1 a 1 com a Fiorentina, neste domingo (17), pelo Allianz Stadium em Turim. Não era o barulho dos apupos da torcida bianconera — que vaiaram o time no intervalo — nem o grito de frustração depois do gol de McKennie ser anulado por falta em Gosens. Era o silêncio pesado de quem sabe que desperdiçou algo que não tinha o direito de desperdiçar. Com 66 pontos e a briga pelo G4 da Serie A em aberto, a Juventus vai para a última rodada precisando de resultado e, principalmente, de um jogo que não se pareça com o desta tarde.
O que Spalletti viu e não gostou na Juventus diante da Fiorentina
A crítica do treinador foi direta e sem filtro. Mesmo com Vlahovic de volta após semanas fora por lesão — uma das apostas táticas de Spalletti para dar verticalidade ao ataque — o time não conseguiu sair do automatismo previsível que já vem sendo apontado como o maior entrave bianconero nesta temporada 2025/2026.
"Fomos previsíveis demais no primeiro tempo e cometemos erros técnicos que simplesmente não podemos nos dar ao luxo de cometer. Nosso nível tem que ser mais alto", disse Spalletti, em declarações reproduzidas pelo IlBianconero.
O treinador também tocou num ponto específico que resume o problema ofensivo: Kenan Yildiz foi encontrado poucas vezes durante o jogo. A bola circulou demais no perímetro defensivo, sem saltar linhas, sem criatividade para chegar ao meia turco em condições de decidir. Yildiz começou mais centralizado, migrou para a esquerda, mas ficou isolado. Para uma equipe que quer se firmar entre os quatro primeiros da Serie A, isso é um luxo que não existe.
"Mantivemos a bola demais no perímetro defensivo, quando precisávamos pular um passe e jogar verticalmente. Temos que envolver mais o Yildiz", completou o técnico.
O gol anulado de McKennie e a tarde que a Juventus não conseguiu virar
O lance mais comentado do jogo foi a invalidação do gol do americano Weston McKennie. Ele balançou a rede após cruzamento de Boga — que havia entrado no segundo tempo no lugar de Koopmeiners — mas o árbitro Davide Massa identificou falta do meio-campista em Gosens e cancelou o tento. Uma decisão que esvaziou o Allianz Stadium e acirrou a tensão já presente desde o apito do intervalo, quando a torcida mandou o time para o vestiário sob uma chuva de vaias.
A Fiorentina, que já havia garantido matematicamente a permanência na Serie A antes desta rodada, abriu o placar ainda no primeiro tempo com Ndour, aos 34 minutos. O gol de um time que chegou a Turim sem nada a provar foi o retrato do contraste entre as duas equipes no primeiro tempo: a Viola foi mais reativa, mais agressiva, exatamente o que Vanoli prega. A Juventus respondeu com tentativas de Conceição — bloqueada por De Gea no primeiro pau — e de McKennie em chute de voleio, sem sucesso. Di Gregorio fez sua parte ao desviar finalização em diagonal de Harrison para escanteio quando o placar ainda estava em aberto.
A igualdade no marcador chegou no segundo tempo, mas não apagou a impressão deixada pelo primeiro: um time que produziu menos que a Fiorentina do primeiro tempo inteiro somou apenas 13 pontos no returno antes desta rodada, enquanto a equipe de Vanoli construiu 25 pontos na segunda metade da temporada — o maior salto de rendimento entre dois turnos em toda a Serie A 2025/2026. A Juve, com 66 pontos, não pode se dar ao luxo de jogar em ritmo de time que já chegou.
A Champions League que ainda não está garantida para a Juventus
A aritmética é simples e cruel ao mesmo tempo. A Juventus está no G4, mas a margem sobre o quinto colocado é de apenas um ponto — o que transforma a última rodada numa decisão sem rede de segurança. A equipe de Spalletti vai enfrentar o Torino no derby, na rodada 38, com Bremer desfalque certo: o zagueiro brasileiro recebeu cartão amarelo neste domingo ao derrubar Piccoli, e como estava em situação de difida, está automaticamente suspenso para o clássico.
Spalletti fechou sua análise com uma frase que diz muito sobre o estado interno do grupo:
"O silêncio no vestiário me diz que os jogadores também não estavam satisfeitos — e isso eu gosto. Agora precisamos mostrar um nível de futebol diferente."
O técnico também defendeu Vlahovic das críticas e dos cânticos hostis da própria torcida bianconera: "Dusan reage da maneira certa, mas socialmente precisamos parar de ir ao estádio para fazer coisas que não têm nada a ver com o esporte." O centroavante sérvio voltou ao time após meses fora por lesão e ainda busca o ritmo ideal — mas a responsabilidade pelo jogo pouco criativo não pode recair sobre um jogador que acabou de sair de uma recuperação longa.
A Juventus enfrenta o Torino na última rodada da Serie A 2025/2026 precisando vencer para assegurar matematicamente sua vaga na Champions League — e terá de fazer isso sem Bremer na zaga, com uma torcida ainda irritada pela tarde frustrante e com a memória recente de um time que, nas palavras do próprio treinador, jogou previsível demais para merecer mais. É o mesmo tipo de pressão que a Juventus viveu na reta final de 2022/2023, quando precisou de um tropeço alheio para se classificar à Europa — só que agora a aposta é de dentro para fora, e não existe margem para depender dos outros.









