Todo mundo sabe que a McLaren venceu o campeonato de construtores em 2025 usando motor Mercedes. O que pouca gente parou para calcular é o quanto essa parceria incomoda — e como Gunther Steiner, com uma frase no podcast Red Flags, escancarou a ferida que o paddock prefere manter fechada.
O que Steiner disse e por que isso não é apenas provocação
A declaração do ex-chefe da Haas e atual CEO da Tech3 KTM na MotoGP foi direta:
"Se eu fosse o Toto, faria isso. É uma solução fácil para evitar ser derrotado. Tudo bem, eu simplesmente não forneceria mais um motor para você."Steiner não estava especulando. Ele estava apontando uma brecha regulatória real: o regulamento técnico da Fórmula 1 obriga um fornecedor de unidades de potência a atender no máximo duas equipes externas. A Mercedes atualmente abastece Williams e McLaren — e não há nada nas regras que impeça Toto Wolff de redirecionar essa segunda vaga para outra escuderia a partir de 2027, quando os contratos atuais forem revisados.
A temporada 2026 começou com a Mercedes dominando de forma absoluta, vencendo todos os Grandes Prêmios disputados até este domingo, 17 de maio. A McLaren, que usa o mesmo propulsor, é a principal ameaça ao domínio das Flechas de Prata — o que cria um paradoxo técnico e comercial que Steiner resumiu com precisão cirúrgica.
A anatomia de uma parceria que alimenta o adversário
Há um argumento legítimo em defesa de Wolff: a Mercedes lucra financeiramente com o fornecimento de motores. A estimativa de mercado para o custo de uma unidade de potência de alto desempenho na F1 atual gira em torno de 15 a 20 milhões de euros por temporada por equipe. Cortar a McLaren significaria abrir mão de uma receita relevante em um momento em que o novo regulamento de 2026 exigiu investimentos bilionários de todos os fabricantes.

O contra-argumento, contudo, não resiste à matemática competitiva. A McLaren conquistou o campeonato de construtores em 2025 com 666 pontos, superando a Ferrari por 14 pontos — uma margem que, em retrospecto, foi construída sobre a confiabilidade e a evolução contínua da unidade de potência Mercedes. Lando Norris terminou vice-campeão de pilotos no mesmo ano. Ou seja: a Mercedes entregou ao seu principal rival na corrida de 2026 exatamente as ferramentas que ele precisava para chegar competitivo à nova era regulatória.
O próprio Steiner reconheceu a contradição interna de Wolff:
"Mas, novamente, o Toto é um esportista. Ele dá o seu melhor para o seu maior adversário."A frase soa como elogio, mas funciona como diagnóstico. Ser esportista, nesse contexto, é fornecer motor de ponta para quem pode usar esse motor para bater você no domingo.
O que muda no tabuleiro político da F1 a partir desta declaração
A análise do SportNavo aponta que a declaração de Steiner tem um efeito colateral imediato: ela coloca pressão pública sobre Wolff para que ele justifique a continuidade do acordo. Mesmo que o chefe da Mercedes não pretenda encerrar a parceria agora, a questão passa a fazer parte do debate do paddock — e debates do paddock viram negociações contratuais.
Há precedente histórico para esse tipo de manobra política. Em 2015, a Red Bull tentou desesperadamente encontrar um novo fornecedor de motores após a deterioração da relação com a Renault, e a Mercedes recusou formalmente o fornecimento — alegando, na época, que não queria fortalecer um rival direto. Wolff foi explícito: não forneceria motores para uma equipe com capacidade de brigar pelo título. A McLaren de 2026, bicampeã e com chassis competitivo, se encaixa exatamente nessa descrição que a própria Mercedes usou para justificar a recusa à Red Bull há uma década.
A Alpine, que recentemente retomou o desenvolvimento do seu próprio motor após a tentativa frustrada de parceria com a Renault, e a Williams, que já usa unidades Mercedes, compõem o cenário atual de dependência. Mas a Williams não representa ameaça ao título — a McLaren, sim. Essa distinção é o núcleo do argumento de Steiner, e ele tem razão ao fazê-la.
O regulamento que obriga o fornecimento para apenas duas equipes externas foi pensado para garantir competitividade no grid, não para proteger os interesses comerciais do fornecedor. A FIA não tem mecanismo para forçar a Mercedes a manter a McLaren como cliente se Woking não for a escolha de Wolff no próximo ciclo contratual. A única proteção real da McLaren é o contrato vigente — e a data de vencimento desse contrato é o dado que ninguém no paddock divulga abertamente.
O próximo Grande Prêmio do calendário de 2026 é o Canadá, em Montreal, marcado para 8 de junho. Se a McLaren voltar a pressionar a Mercedes nas classificações, a pergunta que Steiner plantou esta semana vai ganhar volume proporcional à diferença de pontos. Até o final de novembro de 2026, quando o campeonato for decidido, Toto Wolff terá que dar uma resposta — mesmo que essa resposta seja o silêncio calculado de quem ainda não quer mostrar as cartas.










