A última vez que um wrestler dominante como Khamzat Chimaev entrou no octógono como favorito absoluto contra um striker puro, o striker saiu com o cinturão. Era setembro de 2023, Israel Adesanya era o campeão, e Sean Strickland passou cinco rounds inteiros destruindo o ritmo de um homem tecnicamente superior em muitos aspectos. Agora, no Prudential Center, em Newark, Nova Jersey, o mesmo Strickland tenta replicar esse roteiro — desta vez contra um adversário que carrega 15 vitórias em 15 lutas e o cinturão dos médios na cintura pela primeira vez.

O que acontece quando Chimaev toca o adversário no chão

Quem acompanhou a vitória de Chimaev sobre Dricus Du Plessis, em 2025, viu algo que ainda me incomoda quando penso em termos técnicos: a velocidade do shot. Não estou falando de explosão atlética genérica — estou falando de uma entrada de nível duplo que parte de fora do alcance e chega nos tornozelos antes que o adversário consiga reagir com o quadril. Du Plessis, que é um powerhouse físico e um dos melhores lutadores do planeta, foi neutralizado quase completamente. Ficou preso na grade, tentando se levantar, e Chimaev simplesmente reposicionava o controle antes que qualquer saída se concretizasse.

UFC 328: Chimaev vs Strickland | Cold Open

Strickland tem histórico razoável de defesa de takedown — mas razoável contra wrestlers normais. Contra Chimaev, a variável muda de categoria. O russo não espera o range de soco para entrar; ele teleporta de uma distância onde Strickland sequer está processando o perigo. Uma vez no chão, Strickland tende a buscar a grade e abaixar o quadril para se levantar, o que abre as costas — e Chimaev é um dos melhores do mundo em transicionar para o back control nessa exata situação.

O ângulo que Strickland precisa explorar antes do terceiro round

Aqui mora a única janela real para o desafiante, e ela é estreita. Strickland tem um jab de volume e cadência que — e isso o SportNavo acompanhou em análise dos últimos três camps do lutador — funciona especificamente para quebrar o timing de entrada de wrestlers. O jab não precisa machucar; precisa atrasar. Um décimo de segundo no shot de Chimaev é a diferença entre um takedown limpo e um sprawl viável.

O que para o boxeador europeu é ritmo de jab — um recurso técnico quase administrativo entre combinações — para o striker americano de MMA é sobrevivência pura. Strickland usa o jab como sensor, como freio, como conversa. Se ele conseguir manter Chimaev no range de 1,2 a 1,5 metro por mais de dois minutos seguidos no primeiro round, começa a criar dúvida na cabeça do campeão. Dúvida, no quinto round, vira hesitação. Hesitação vira nocaute.

"Ele vai tentar me derrubar e eu vou atirar nele" — disse Strickland na coletiva de imprensa desta quarta-feira no Prudential Center, em Newark.

A frase parece bravata. Mas tem estrutura técnica por trás. Strickland sabe que não pode vencer uma luta de wrestling contra Chimaev. Então precisa transformar cada tentativa de takedown em oportunidade de golpe. O uppercut no clinch e o joelho na entrada são as ferramentas mais prováveis — e ele tem precisão em ambas.

O que acontece quando Chimaev toca o adversário no chão Strickland conseguiu uma
O que acontece quando Chimaev toca o adversário no chão Strickland conseguiu uma

O nocaute que Newark está esperando e o que ele exigiria de Strickland

Eu já fui nocauteada no quinto round de uma luta que achei que estava controlando. Você sente as pernas pesadas a partir do terceiro, a respiração começa a encurtar, e qualquer golpe que chegue na cabeça com você em apneia tem o dobro do impacto. Chimaev é fisicamente superior, mas lutas longas cobram pedágio de qualquer atleta — e Strickland é um dos mais condicionados da divisão, com 12 lutas nos últimos quatro anos sem nenhum TKO por dano acumulado.

Se Strickland conseguir chegar ao quarto round de pé, com Chimaev tendo falhado em pelo menos três tentativas de takedown, a dinâmica psicológica da luta muda. Campeões em primeira defesa carregam um peso invisível que os desafiantes não têm. Chimaev nunca esteve nessa posição — nunca precisou defender o que construiu. Strickland já perdeu o cinturão e voltou. Essa assimetria de experiência pode ser o fator mais subestimado desta noite.

"Chimaev é o melhor wrestler que já enfrentei, mas o melhor wrestler não ganha sempre" — afirmou Strickland em entrevista ao MMA Fighting na semana do evento.

O UFC 328 acontece neste sábado, 9 de maio, no Prudential Center, em Newark. A luta principal está marcada para o card principal, com início previsto para as 22h (horário de Brasília). Se Strickland vencer, uma trilogia com Du Plessis — que ele derrotou em 2023 antes de perder o cinturão — se torna o caminho natural para a próxima defesa dos médios.