Confesso: eu errei sobre Sean Strickland quando ele perdeu o título para Dricus du Plessis pela segunda vez. Escrevi que ele tinha chegado no seu teto, que o estilo dele era bom até o ponto em que alguém com grappling de alto nível chegasse para resolver a questão. Pus Khamzat Chimaev na categoria de 'alguém com grappling de alto nível' e achei que estava sendo óbvia. No Prudential Center, em Newark, na noite de sábado (9), Strickland me provou — e a muitos outros — que a análise estava errada na premissa. Não porque ele desenvolveu um grappling superior. Mas porque ele entendeu exatamente como não deixar o grappling de Chimaev acontecer.
O primeiro round que quase destruiu a tese de Strickland
Com pouco mais de dez segundos de luta, Chimaev colocou Strickland no chão. Não foi uma queda bonita de highlight — foi aquela queda suja, de peso, onde você sente que o cara em cima pesa o dobro do que pesa. Strickland ficou ali por cinco minutos inteiros, sobrevivendo. O russo transitou para as costas com pouco mais de um minuto de round, tentou o mata-leão nos segundos finais, e quem assistia com a cabeça fria já estava escrevendo o obituário da noite do americano. Eu sei o que é estar debaixo de alguém assim — nos meus anos no circuito de muay thai, a parte mais difícil nunca foi o soco. Foi a exaustão de resistir à pressão, de gerir a respiração quando o corpo quer entrar em pânico. Strickland, naquele primeiro round, respirou errado algumas vezes — dava para ver pelo peito — mas não entrou em colapso. Isso foi o que salvou a luta. Ele chegou ao segundo round inteiro o suficiente para executar o plano.
A leitura predominante depois do primeiro assalto era de que Chimaev tinha dominado completamente e só precisava repetir. E essa leitura estava tecnicamente correta — o problema é que Chimaev não conseguiu repetir.
Como Strickland desarmou o wrestler mais temido da divisão
A partir do segundo round, algo mudou na postura de Strickland que merece atenção técnica. Ele passou a usar o footwork não apenas para circular, mas para quebrar o ângulo de entrada de Chimaev. Quando o russo tentava a queda, Strickland não recuava em linha reta — ele girava levemente para o lado do braço de domínio do russo, escapando do quadril que é a alavanca real de qualquer takedown. É um detalhe que poucos comentaristas mencionaram, mas é a diferença entre defesa de queda por força bruta e defesa de queda por geometria. Strickland não tem o físico de Chimaev. Ele tem o cérebro certo para esse tipo de problema.
Os jabs foram a segunda peça do quebra-cabeça. Toda vez que Chimaev tentava reduzir a distância para iniciar o clinch — pré-requisito para qualquer takedown de alto nível — levava um jab no rosto. Não eram jabs de knockout, eram jabs de informação: eu sei o que você vai fazer e eu já estou aqui. No terceiro round, Chimaev abriu mão completamente das quedas e ficou cinco minutos trocando na média com Strickland. Isso não foi coragem do russo. Foi rendição tática. E Strickland é, provavelmente, o lutador menos recomendado do planeta para receber uma rendição tática na trocação. O nariz do americano sangrou bastante no terceiro assalto — sinal de que Chimaev não estava de graça em pé — mas os juízes viram pontuação, não sangue.
O que a narrativa dominante subestimou foi exatamente isso: a capacidade de Strickland de transformar um confronto de wrestling em um confronto de boxe por cinco rounds. Chimaev é invicto — ou era, com cartel de 15 vitórias — porque ninguém conseguia fazer isso com ele. Strickland fez.
A decisão dividida que revela onde Chimaev ainda é perigoso
A vitória por decisão dividida — 47-48, 48-47, 48-47 — não foi um presente. Foi um espelho honesto da luta. Aquele primeiro round pesou, e pesou muito. Um dos juízes entregou o placar para Chimaev, e não estava errado: cinco minutos de domínio no chão com tentativa de finalização no mata-leão vale um round, mesmo que os outros quatro tenham sido do adversário. A síntese real do UFC 328 é que Strickland foi melhor durante mais tempo, mas Chimaev provou que um único round de grappling sufocante pode empatar uma luta inteira no papel. Isso é tanto o mérito do russo quanto o seu limite — ele precisava de mais rounds assim, e Strickland não deixou.
Nos chamados championship rounds — quarto e quinto assaltos — a luta seguiu quase inteiramente na trocação. Chimaev se manteve competitivo mesmo fora da sua zona de conforto, o que é um dado relevante: ele não é só wrestler, tem golpes reais. Mas volume contra Strickland é um jogo ingrato. O americano conecta mais, toca mais, cansa mais o adversário com repetição. Ao longo de vinte e cinco minutos, isso acumula nos cartões.
Na co-main event, Joshua Van nocauteou Tatsuro Taira no quinto round, aos 1min32s, para defender o cinturão peso-mosca. O japonês, que vinha de vitória sobre Brandon Moreno no UFC 323, passou por dificuldades no chão nos rounds iniciais, mas Van — primeiro atleta nascido em Mianmar a conquistar um cinturão masculino no UFC — desgastou Taira com sequências de golpes pesados até chegar ao TKO. Foram duas disputas de cinturão com desfechos completamente diferentes em termos de como a luta foi encerrada, mas com uma semelhança: em ambas, o campeão prevaleceu.
Com o cinturão de volta ao pescoço, Strickland retorna ao topo de uma divisão que ele já conhece. Du Plessis, que perdeu o título para Chimaev, é o nome mais óbvio para uma trilogia — eles se enfrentaram duas vezes, com uma vitória para cada lado. O cartel de Chimaev vai para 15-1, e o russo tem 28 anos: tempo de sobra para reconstruir. A divisão dos médios do UFC segue sendo a mais imprevisível do esporte.
Strickland ganhou a luta da mesma forma que um bom maestro conduz uma orquestra difícil — não tocando mais alto que os instrumentos, mas ditando o tempo em que cada um deles pode entrar.










